O Nuno fala!…

Estou pasma!…

Hoje, como faço todos os dias, nem sempre de dia, hoje foi à noite, levei o Nuno para uma voltinha no jardim. O gato fica preso em casa e precisa de algum deleite em “liberdade”. Liberdade vigiada porque ele é bobão. Nuno adora seres humanos, confia e isso me deixa tensa. Nuno adora um carro. É abrir a porta do carro e ele entra. Daí o motorista descobre o gato quilômetros de distância depois, expulsa o bicho do veículo e o bobo não acha mais o caminho de volta para casa. Até desconfio que foi assim que nos encontramos em Portugal e, por isso, aqui está ele, no Brasil, nesta vidinha mais ou menos… para gatos.

Nuno tem muito carinho, proteção, comida boa e farta, petiscos importados, mas, a liberdade é vigiada e resumida a quinze ou vinte minutos por dia. Mesmo assim, sob vigilância, não raro, ele me pega segundos distraída, pula o muro e corre. Lá vou eu atrás do gato. Noite dessas andei tanto, a passos apressados, à procura dele, que fiquei descadeirada. Faz três dias e ainda estou com muita dor nos quartos. Tenho medo que ele se encante com alguém que não se encante com ele, pelo contrário, o agrida como aconteceu no início quando tentei dar a ele a preciosa liberdade. Foi por ele ter sido gravemente ferido que decidi pela liberdade curta e vigiada diariamente.

A vida do Nuno é muito chata para um gato, entendo e admito, mas é o melhor que temos. E deve haver algo de muito bom ou os gatos vizinhos, plenos de liberdade, não andariam aqui implorando qualquer coisa além de uma ração mais apetitosa. Na semana passada, um gato visivelmente novinho esteve aqui em casa. Miou, miou e miou. Um miado que aprendi a decifrar como solicitação. Não é um miado de “estou com fome, quero comida”, é um miado de “quero ficar na sua casa”. Segue o vídeo para provar. Depois, segue a história.

 

 

Foram duas noites e um dia no meio de miados insistentes do gatinho a implorar a residência. Não cedi. Não posso!… E o Nuno não gostou nada do chegado, bufou e, numa bobeada minha, deu uma corrida atrás para o pequeno entender que não era bem vindo. Além de outros contras, seria confusão na certa. Então, andei pelo condomínio exibindo a foto do gatinho solicitante. Lá pelas tantas, alguém me disse que poderia ser de uma vizinha que considero meio maluca demais. No lugar do gatinho eu também ficaria desesperada com a nova “dona”. É entre aspas porque gatos não têm donos ou donas. Isso é fato. Mas, paciência, esse seria o carma do bichaninho.

Pois hoje, esta noite, o Nuno se invocou com alguma coisa na escuridão da garagem. Não consegui ver o que ou quem era. Bufou, gritou, colocou-se na posição de “vai ter porrada” e eu dei uns gritos a ver se resolvia o que nem estava vendo. Nunca tinha visto o Nuno tão zangado. O Nuno pesa 12 quilos e não teria graça ele ser brabo. Bem, seja lá o que foi, se picou, pulou o muro e fugiu. O Nuno ficou à beira do muro discursando alto!… Não foi miado, não foi reação raivosa, o Nuno falou!… O Nuno discursou!… Algo como “Está avisado, não me apareça mais aqui!”. Está avisado, não me apareça mais aqui ou vai acontecer isso, aquilo e aquilo outro, porque foi um discurso longo. Foi uma sequência de palavras num idioma ou dialeto que não entendo. Eu já tinha ouvido resmungos articulados, mas esta noite foi um discurso dirigido ao muro! Ou ao que estava além do muro. Enfim, o Nuno fala.

Em particular, na tranquilidade e no isolamento dentro de casa, me cheguei.

  • Está mais calmo? – perguntei entre chamegos.

Estava calmo como normalmente é, como quem fez o que devia fazer e pronto.

  • Vou tentar aprender a sua linguagem, tá? E então vamos conversar…

Eu já sou das que acham que os bichos não falam para evitar serem escravizados pelos seres humanos. Sabedoria divina. Mas, se falam, e o Nuno me deu o privilégio de presenciar, vou nessa sim. Não que eu vá me reunir com ele todos os dias por alguns minutos para trocarmos palavras, mas vou prestar mais atenção nos resmungos costumeiros e nos discursos zangados que, sinceramente, espero nunca mais ouvir porque fiquei impressionada.

E eis que estou postando o vídeo do gatinho solicitante neste blog e o Nuno voltou a ficar preocupado. Segue a reação do Nuno, talvez tentando aprender como se deleta no computador.

 

 

2 comentários em “O Nuno fala!…

  • julho 12, 2017 em 10:38 pm
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    Às vezes, só às vezes, gostava de ser gato: boa vida, viagem ao Brasil, bem tratado, mimado. Só que tinha que ter liberdade total e não só aos vinte minutos por dia. Mas que invejo esse gato, que saíu aqui de Ortigosa, invejo e para sempre.

  • julho 29, 2017 em 4:09 am
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    Tem comida à farta ( embora eu precise segurar porque ele engorda e pode passar mal ), tem carinho também à farta, proteção, mas liberdade… tem que ser dosada como a comida porque também pode fazer muito mal. O Nuno é muito do bem, gosta de estranhos… Obrigada pelo retorno.

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