PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 12

Riocentro, a bomba que me detonou (continuação)

Com o passar dos dias, muitos dias, a história da bomba no Riocentro foi apurada. Descobriu-se que o homem com as tripas de fora no carro era um sargento e o que foi levado para o hospital era um capitão do Exército. Eles iam colocar as bombas para explodirem durante o show, mas o tiro saiu pela culatra. Conseguiram colocar uma, a que explodiu perto de mim quando eu corria a procura dos carros da imprensa; a outra, explodiu dentro do carro. Mas, naquele momento, era bomba, explosão no Riocentro, explosão no carro, homem morto no carro, homem ferido no hospital e milhares de pessoas – muitas conhecidas – no estouro da boiada.

Desliguei o telefone e voltei para o carro. A imagem que me enchia a mente eram as pessoas tentando sair da área do show pela porta estreita. Pensava nos meus colegas que estavam lá. Escapei porque cheguei muito atrasada, depois da explosão da bomba dentro do carro. Quando dei por mim, estava na Praia Vermelha, no bairro da Urca. Eu costumava ir até lá para desacelerar. Também atravessava a ponte Rio-Niterói – que liga as cidades do Rio e Niterói – e o viaduto do Joá – que liga os bairros do Leblon e Barra da Tijuca – com a capota do “Puma” arriada para receber o vento na cara e gritar à vontade. Naquela época, nada disso era arriscado.

– Fernanda, você aqui? – minha amiga quebrou o silêncio dentro do carro.

– O quê?

– Você sabe onde está?

– Não estamos na Urca?

– Estamos. E agora?

Pensei na minha mãe que dormia diante da televisão até eu chegar.

– Minha mãe! Minha mãe vai saber da bomba e vai achar que eu estou morta! Tenho que ir pra casa!

Deixei minha amiga na casa dela e fui para a minha. Eu morava com meus pais. Abri a porta com cuidado, como fazia todas as noites, e minha mãe estava, como todas as noites, dormindo diante da tevê.

– Mãe, cheguei. – falei baixinho para acordá-la sem susto.

– Eu estava vendo televisão…

bom. Vai dormir, mãe.

Foi aí que a ficha caiu. Quando ouvi a vinheta do Plantão de Notícias na tevê que eu ia desligar. Eram notícias sobre as bombas que explodiram no Riocentro.

– Você não estava lá? – minha mãe perguntou tonta de sono.

– Estava… devia estar. Vai dormir, mãe.

– Vai dormir você também. Para com a mania de ficar acordada feito um zumbi.

– Já vou.

Mas não fui. Fiquei olhando para a televisão com uma sensação indescritível. Eu tinha mesmo ido ao Riocentro? A segunda bomba explodiu mesmo nos meus calcanhares? A imagem daquele homem dentro do carro era real? O que eu disse para o chefe de reportagem no telefonema do Carrefour? Ele disse: “Puta que o pariu”. Eu devia ter voltado para o Riocentro?

Não demorou, a programação foi interrompida novamente com uma entrada ao vivo da repórter Leila Cordeiro. Soube depois que um carro de reportagem foi buscar a Leila na casa dela, na emergência.

A Leila foi minha colega de colégio no Jardim de Infância e, anos depois, na faculdade de Comunicação e no curso de inglês. Morávamos no mesmo bairro e íamos para a praia do Leme, quase todas as manhãs, nos abanando para não suar os cabelos que tentávamos manter lisos à custa de muita toca e lenços na cabeça. Algumas vezes, sequestramos a professora de inglês, da nossa idade, para aulas na praia.

Lembro, uma noite, na sala da Alice, provavelmente vendo o JN na expectativa do seriado Malu Mulher, a Leila apareceu numa reportagem na Bahia. Ela continuava se dedicando aos cabelos. Era a moda dos cabelos à Farrah Fawcett, a bela loura do seriado As Panteras, e a Leila estava na moda. Com olhos azuis – ou são verdes? – e a bela cabeleira, minha amiga chamava a atenção quando andávamos juntas. O assédio masculino era impressionante. E ela, muito gaiata, fazia caretas quando não estava a fim. Juntou a bela estampa com a espirituosidade e a incansável força de trabalho e Leila Cordeiro logo se tornou uma repórter em destaque. A beleza ajudou, sempre ajuda, mas, justiça seja feita, até porque acompanhei de perto, ela batalhou muito para ficar pouco tempo só como um belo rosto.

– Alice, olha a Leila! É minha amiga. Você podia trazê-la pra cá. A família dela mora aqui.

– Ela precisa cortar o cabelo.

A Alice tinha essa neura. Quando o telefone tocava na redação e alguém me dizia “Fernanda, é a Alice-Maria”, o texto pouco variava:

– A matéria estava muito boa. Você precisa cortar o cabelo.  

– A matéria estava muito boa. Você precisa sair pra comprar roupa.

– Por que você não voltou pra lá? – o chefe de reportagem era pura irritação no dia seguinte.

– Não sei.

– O teu castigo vai ser ficar fora da cobertura do Riocentro. – ele bateu o martelo.

E fiquei mesmo. Foi justo. Justíssimo. Embora eu ainda ache que o “puta eu o pariu” devia ser seguido de uma orientação profissional clara.

Um dia, um repórter de Jornal me telefonou. Não lembro mais o nome dele. Não estou omitindo, não lembro mesmo. Eu o conhecia de vista, raras vezes nos encontramos em reportagens. Não faço ideia por que ligou para mim.

– Fernanda, vamos jantar. Hoje!… Preciso conversar com você.

– Hoje? Conversar sobre o quê?

– Não pode ser por telefone, mas é importante.

Fui me encontrar com ele, até porque não me lembro do nome, mas lembro que a estampa era muito boa.

– É o seguinte: eu roubei uma das portas do Puma. – ele sussurrou debruçado para cima de mim na mesa.

Se eu estava comendo, engasguei; se não estava, não comi mais nada. E eu com isso?

– Dá pra você guardar a porta na sua casa?

– Na minha casa?

– Eu sei que você estava lá quando a segunda bomba explodiu. Podemos fazer uma baita reportagem em dupla. Como é que eles estão fazendo a reconstituição do caso se eu estou com uma das portas?

– Caro colega, agradeço, mas não mereço. Estou fora dessa cobertura. Já fiz o máximo de burrada que podia. Sério. Se você sabe que eu estava lá quando explodiu a segunda bomba, deve se perguntar por que não apareci quando a Globo colocou o Plantão no ar e foi a primeira a dar a notícia. Eu fui pra casa! Acredita nisso?

Que mané porta do carro! Eu tinha pai, mãe e uma irmã, totalmente alheios à política. Por nada eu os colocaria em risco.

Bastou uma temporada de namoro com um rapaz que conheci num avião para a Europa. Eu ia para Portugal e ele para a França. O avião tinha pouquíssimos passageiros. Eu estava de touca e lenço na cabeça, mais preocupada em desembarcar com os cabelos bonitos que viajar arrumada. O rapaz recebeu a bandeja do jantar e perguntou se podia se sentar do meu lado. De lenço na cabeça?, pensei constrangida. Conversamos a viagem toda. Nos despedimos no aeroporto do Porto. Ele foi para Orly. Na volta de ambos ao Brasil, ficamos, como se diz atualmente. Um dia, nos despedimos e ele desapareceu. Sumiu! Nem telefonema, nem carta, nem sinais de fumaça. Meses depois tocou a campainha, abri a porta … era ele. Pediu mil desculpas pelo sumiço. Estava preso. O cara participava toscamente dos movimentos contra a ditadura.

– Entendi. Por favor, some! – pedi. – Não quero problemas pra minha família. Por favor, desaparece.

Assim foi.

– Volta pra lá que eu estou mandando uma equipe! – teria que dizer o chefe de reportagem, curto e grosso.

Eu teria me borrado de medo, mas voltava, que nem no embarque para a Nicarágua em guerra (conto mais adiante). Seria como um tapa na cara de uma pessoa em crise histérica. Mas o chefe achou que o puta que o pariu bastava. Não voltei ao inferno, não tive instinto jornalístico, não tive a lucidez profissional que só me apareceu no dia seguinte. Quando a segunda bomba explodiu do meu lado, nem sei como não entrei em pânico. Não é algo que se viva todos os dias, certo? Quero dizer, não era. De lá para cá o mundo mudou muito. Bombas explodem em vários lugares, o Brasil se destaca na violência e o Rio de Janeiro se destaca na violência do Brasil. O fato é que tudo que me ocorreu em meio à explosão da segunda bomba, do susto, do medo e da possibilidade de muitos colegas se machucarem e de até morrerem na saída tumultuada, foi telefonar para a redação. Ao menos isso. E por causa dessa ligação, a Globo deu a notícia da bomba no Riocentro na frente de toda a imprensa, inclusive dos jornalistas que estavam no show, e ficou um bom tempo, sozinha, na cobertura, até o resto acordar. No entanto, minha obrigação como jornalista era muito maior. Não basta estar no lugar certo, na hora certa ou, no jornalismo, no lugar errado, na hora errada. É preciso fazer a coisa certa. Não fiz. Foi excelente para a Leila e péssimo para mim.

Lá sei eu o que foi feito da porta do carro que o colega roubou!…

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