Meu querido Alfrey

 Capítulo I

Eu tive um sonho. Sonhei com um cachorro cinza. Nunca tinha visto um cachorro cinza. Um homem – que não faço ideia quem seja – o chamava de Alfrey. O “y” é por minha conta, não sei se era com “i”, no sonho não estava escrito. No mesmo dia marquei um jantar com um colega de trabalho no bairro do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. Naquela época, tem uns vinte anos, ainda se conseguia lugar para estacionar o carro próximo ao restaurante. Cheguei um pouco antes, o colega se atrasou e fiquei passeando na calçada. Eis que vejo um cachorro enorme, deitado, na porta de um boteco. Um cachorro cinza, igual ao que vi no sonho. Isso mexe com a gente. Aproximei-me devagar e fiquei olhando para o cachorro. Olhei tanto que o dono, de pé com um copo de cerveja na mão, puxou conversa.

– Gostou?

– Muito. – resumi. Não ia narrar o sonho porque não tinha cabimento. – Qual é a raça?

– Dinamarquês.

– Ah… – murmurei encafifada com o cachorro do sonho. Era igual. – Qual é o nome?

– Zarco.

Ufa!… Se o homem me dissesse Alfrey caía para trás.

– Se gostou, temos um monte de filhotes em casa. – o homem se animou.

– Eu estou esperando um amigo… – titubeei.

– É perto. Logo ali naquele prédio. – ele apontou.

Era mesmo perto. Por que não ver os filhotes? Um monte!… Lá fomos ver a ninhada. Se a memória não me falha, e falha muito, eram dez ou onze. Um absurdo mesmo, tanto que senti pena da mãe, Rebeca.

Uma visão do paraíso para quem gosta de animais. Um monte de filhotes, todos cinzas, uns com manchinhas brancas no pescoço.

– Escolha um. – o homem propôs.

– Moro num apartamento… – falei percebendo logo que Zarco, Rebeca e a ninhada também moravam num apartamento.

– Só não quero dar. Faço um preço simbólico. Quando a gente dá um cachorro corre o risco de quem pega largar porque foi de graça.

O preço nem era tão “simbólico”, mas eu estava me atrasando para o jantar e precisava pensar. Pensar muito. O Zarco era enorme!… Não fosse o sonho, tinha admirado o cachorro na porta do bar e esquecido, mas o sonho… Despedi-me de todos e fui para o restaurante. O homem voltou para o bar com o Zarco.

Jantei com o meu colega de trabalho, conversamos muito, mas a imagem da ninhada rodava em paralelo na minha cabeça. O cachorro, muito menos o sonho, fez parte da conversa. Por fim, acabou o jantar, disse adeus ao colega e voltei ao bar. Lá estavam o homem e o Zarco.

– Leve um… – o homem insistiu. – Faça uma experiência. Se não der certo, devolve. – Vamos lá ver de novo os filhotes.

Fui. Todos parrudinhos. Cada um já tinha p´raí uns dez quilos. Irriquietos. Umas delícias. Apenas um dormia quietinho separado dos demais. E foi nele que prestei mais atenção.

– É esse? – o homem perguntou.

Sim, seria aquele se eu estivesse decidida a adotar um cachorro, ainda mais um cachorro que chegaria fácil aos setenta quilos. Dava para ver pelo pai e pela mãe como seriam os filhos e filhas. O apartamento onde eu morava tinha uma sala, dois quartos, um banheiro e a cozinha, nada mais; nem uma pequena área. E moravam comigo dois gatos. Mas aquele era o cachorro do sonho quando crescesse. Aquele era o Alfrey.

– Leve. – o homem me entregou o filhote recém acordado. – Se achar que não dá, traga de volta. Eu devolvo o dinheiro.

O dinheiro? Sim, passei um cheque e levei o cachorrinho. Que peso!… E cheio de pulgas!… Ele se coçava, eu me coçava… O que fui arrumar? Como seria essa tal experiência para devolvê-lo ou não no dia seguinte? Eis a adorável figura…

alfrey filhote

 

 

 

3 comentários em “Meu querido Alfrey

  • março 27, 2016 em 10:29 pm
    Permalink

    Mas, afinal, você ficou com o cachorro?

  • março 27, 2016 em 10:46 pm
    Permalink

    Mas, afinal, vc ficou com o cachorro?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.