PEÕES DE GRIFE – O TELEJORNALISMO EM CAPÍTULOS / PARTE 4

OS REPÓRTERES ESPECIAIS E OS OPERÁRIOS

Quando cheguei na Globo, a equipe de repórteres profissionais era formada por jornalistas em estado puro. Aficionados pela informação, colecionadores de fontes preciosas e já com nomes conhecidos no telejornalismo, porém, enquadrados pelo jornalismo do “jornal de papel” como a Alice-Maria chamava. Atuações curtas e objetivas, como mandam as regras da informação televisiva. Quem destoava, com apresentações mais espontâneas era a Glória Maria. Ela era muito diferente de todos os outros repórteres, também por ser a única negra. A Glória entendeu, antes de todos nós, o jeito do telejornalismo. Construiu uma carreira de sucesso e se tornou uma profissional respeitada e reverenciada nas chamadas altas rodas sociais e, o melhor, pelo chamado povão. Ser aceita pelo povo, a massa, é conquistar um espaço precioso. As portas se abrem, as almas se revelam, os sentimentos são expostos, as declarações são verdadeiras e importantes. Ser aceito pelo povão é dar audiência e audiência é o que a televisão mais quer. Circular à vontade no meio do povo não é para qualquer um ou uma. Escrevi que evitaria citar nomes, mas com a Glória me arrisco. Ela é dona de uma linguagem de televisão original e exclusiva, com um peso de carisma indiscutível. Há quem não goste, paciência, come menos, a maioria gosta. Tenho pela Glória uma admiração que só cresceu ao longo dos anos de convivência. Muito, sim, porque sempre me tratou com respeito, mas também porque efetivamente ela fez a diferença. Porque ela percebeu logo que precisava atuar diante da câmera. Apuração da notícia e atuação. Exibir-se sim, e meter os pés na lama quando necessário. Atuar e pegar no pesado. Experimentar novidades, se lascar… o povo gosta. O show na hora e na medida certas.

Uma tarde, quando eu estava no estúdio virtual gravando as cabeças do programa Pelo Mundo, para a Globo News (mais adiante tem um capítulo sobre esse programa), a Glória entrou e se ajoelhou diante de mim.

– Fernandinha, pelo amor de Deus, me deixa gravar a chamada?! Eu gravo rápido! Com esta roupa mesmo, sem maquiagem! Vou lá no estúdio e gravo?!…

– Glória Maria, sua louca, levanta!

E ela, de joelhos.

– Me dá uns minutinhos pra eu gravar a chamada?

– Levanta Glória! Para com isso! Vai lá e grava!

– Obrigada, obrigada… – me encheu de beijos.

Assim como propôs, entrou no estúdio, gravou de primeira e saiu. Reapareceu na coordenação para me agradecer. Não precisava. Era a Glória Maria! Ela conquistou ser a Glória Maria! Quisesse, entrava no estúdio (como outros fizeram sem cerimônia), interrompia a gravação do meu programa e ficava por isso mesmo. Quem era eu?… Humildade falsa. Mesmo sabendo que nem eu nem o programa que eu fazia éramos páreo para celebridades do telejornalismo e programas de grande audiência – como o Fantástico que a Glória apresentava – defendia bravamente a mim e os programas sob minha responsabilidade. Não esqueço o que me respondeu o diretor do Departamento de Arte, responsável também pelos cenários, quando perguntei qual era a previsão de um novo visual para o programa Pelo Mundo depois de sete anos igual.

– Você não está nem na fila!… – ele disse.

Devia ser verdade, porque demorou muito para conseguirmos um novo cenário. E olha que era um cenário virtual, dependia apenas dos desenhos de alguém da Arte, sem custos. Demorou, mas insisti até conseguir o novo cenário.

O tempo passou e cada repórter tem o seu jeito de lidar com o telejornalismo. E cada emissora teu seu jeito de fazer telejornalismo. Ou não tem. O fato é que, com a chegada dos “biônicos” teve início uma variedade de estilos e modelos que servem de referências. Mas ainda existem os que permanecem na antiga fórmula limitada, desprovida de mimos ao meio televisão. Bem do outro lado da ponte, há os que priorizam o espetáculo e mais me parecem animadores de reportagens. Enfim, questão de gosto de quem faz, do gosto de quem assiste, da orientação de quem manda… uma série de fatores que alteram o produto. Aliás, programas, inclusive telejornais, passaram a se chamar “produtos”. Para mim, produto é sabonete, vassoura… tudo o que pode ser fabricado em série a partir de uma fórmula. No mais, o que carece da alma humana, é trabalho e até obra de arte.

Há programas que se dizem jornalísticos, mas são apelações sensacionalistas com pseudotelejornalistas histéricos no comando. Há quem goste. Se há quem goste, há audiência; se há audiência, há mais patrocinadores e lucro. Por aí vai. Mas isso não é telejornalismo. Pronto, arrumei confusão.

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