PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 36

AS ENCHENTES QUE ME ENCHERAM (continuação)

Isolados, nos informavam os moradores do vilarejo na serra, e sem nenhuma esperança do helicóptero voltar. Caía uma chuva fina, insistente, como a nos lembrar que podiam descer mais aguaceiros. Eu não havia saído de casa para passar a noite no meio de uma tragédia na serra de Petrópolis!… Na verdade, sempre que saía de casa para trabalhar, o que seria de mim e do meu dia era uma incógnita. Na serra não passei aquela noite, mas não tardaria a passar a noite e a madrugada dentro do carro de reportagem ilhada por enchentes no interior do estado do Rio. Nos salvou uma birosca muito osca para comer salsichas em lata – sem ferver – e refrigerante quente. É de admirar que meu estômago tenha suportado tantas ofensas. Mas, voltemos para a serra que há muito o que fazer e o tempo para fazer vai diminuindo depressa. Então, o movimento é grande de subida e descida para a cachoeira. A engenharia das cordas amarradas nas árvores e os sulcos na terra como degraus funciona.

– Para que lado fica a cidade de Petrópolis? – pergunto a um senhor.

Ele aponta para cima. E me ocorre usar a mesma engenharia, de acesso à cachoeira, para cima, num acesso à estrada que leva à cidade. No meu caso específico, eu sairia dali para chegar a algum lugar onde pudesse entrar em contato com a emissora, dar sinal de vida e combinar a volta o mais rapidamente possível. Para os moradores da localidade, o acesso para cima serviria para se comunicarem e pedirem ajuda. Ó!… A repórter salvou todo mundo!… Ó!… A repórter heroína!… Nada disso. Por que aquelas pessoas não tiveram a ideia de construir um acesso para cima da mesma forma que construíram para baixo? Porque estavam ocupadas demais, desesperadas, tentando salvar os soterrados. Eu, sem a mesma intensidade da perturbação mental causada pela dor e pelo sofrimento, distante o suficiente para raciocinar, inconformada com a ideia de passar a noite debaixo de tanta terra molhada e deslizante, só perguntei se não dava para fazer degraus para cima e amarrar as cordas nas árvores para subir?

Um grupo de homens, com muita disposição apesar de tudo, começou a construir a saída do isolamento. Gravaríamos mais algumas imagens e subiríamos para a estrada velha. Foi quando o técnico me pediu para segurar o tal pacote do tamanho de uma caixa de sapatos. Segurei. Quando chegou a minha vez de começar a subida nos sulcos com lama escorregadia, pedi a um garoto para segurar o pacote. Acabei esquecendo o pacote com o garoto. Na estrada, com um longo caminho a pé pela frente até a cidade, lembrei.

– Me esperem aqui, eu já volto. – falei para o cinegrafista e o técnico.

Nem dei chance aos dois para questionarem a maluquice de voltar para onde havíamos saído com tanta dificuldade. A distância até a cidade era grande, fim de tarde, e ainda teríamos a viagem de volta para o Rio se a estrada estivesse liberada. Fazendo as contas, por cima, já estávamos muito fora do deadline do Jornal Nacional.

E para achar o garoto com o pacote? Pergunta aqui, pergunta ali, achei. Peguei o pacote e fiz toda a subida, novamente, até a estrada. Caminhamos na direção da cidade. No caminho, outros deslizamentos e pessoas desabrigadas. No fim da estrada velha, fizemos uma parada bem rápida num boteco.

– Água e uma dose de cachaça, por favor. – pedi.

A água por causa da secura na garganta, a cachaça para desinfetar por dentro! Estávamos imundos! Fedidos!

– Vocês são da televisão? – perguntou um senhor encostado do lado de fora do balcão, no boteco.

Os meninos responderam sim e levamos uma bronca.

– Tanta tragédia na cidade e vocês tomando cachaça?

Ah!… Muitas vezes ouvi desaforos e, juro, na maioria das vezes, relevei. Outras não.

– O senhor olhe bem pro nosso estado! O senhor acha que estávamos visitando o Museu? Andando de charrete? Ah, vá se catar!

O homem levou um susto. Mudou radicalmente de tom.

– Desculpe, desculpe…

– Está desculpado.

Atirei-me nos braços do homem. E lá fiquei agarrada a ele por um bom tempo. Ah, que vontade eu estava de abraçar o meu pai.

– Vamos embora. – disse aos companheiros de lama depois de conseguir largar o homenzinho emocionado.

– Vão com Deus!… – nos desejou o senhor que ficou no boteco.

Pensávamos em pegar um táxi e entrar em contato com a emissora por um telefone da Prefeitura, mas quem disse que os motoristas aceitaram emporcalhar os carros nos transportando? Fomos a pé! Na Prefeitura, conseguimos falar com o chefe de redação na emissora.

– Fernanda, onde vocês estão? O piloto do helicóptero avisou que deixou vocês no meio da serra?!

– Foi, deixou. Depois eu conto isso. Tem um carro pra nós?

– Deve estar chegando aí. Foi justamente na Prefeitura que pedi ao motorista pra esperar vocês. Vocês estão bem? Tem matéria?

– Estamos bem e tem matéria, mas acho difícil chegar a tempo do JN.

– A estrada tem trechos em uma pista, mas dá pra passar. Venham rápido, com cuidado!

O carro da emissora chegou logo. O técnico morava em Petrópolis e pediu uma carona para casa. Mais cinco ou menos cinco minutos… Ao sair do carro, ele me pediu o pacote. Mais trinta ou menos trinta segundos…

– O que tem neste pacote? – perguntei.

– O dinheiro da semana dos operários que estão trabalhando na obra aqui em casa. Eu estava esperando uma oportunidade segura para trazer o dinheiro.

– Oportunidade segura? Escolheu bem. Vamos embora!

Chegamos com o JN no ar! A regra era barrar as matérias que chegassem depois do deadline, mas havia exceções, como em todas as regras. A exceção era a matéria ser muito boa. Boa na avaliação jornalística!… Ou já aí vem o coro: “Urubus!”…

Acompanhei a edição porque era muito material gravado. Eu ia mostrando o que interessava. A editora estava grávida e começou a ficar enjoada.

– É esse cheiro! Você fedida, amiga!

– Fico aqui fedida ou vou embora?

– Vai embora que eu termino.

Subi para a redação, fedida. Contei resumidamente ao chefe de redação como foi a nossa tarde.

– Você devia contar a história de vocês na matéria! Caramba!

– A matéria está com quatro minutos, chefia. Deve ser a última do JN. Se incluíssemos a nossa história tomava o telejornal todo e só ia ao ar amanhã.

Três meses de enchentes no Rio de Janeiro, diariamente sobrevoando os aguaceiros e voltando de carro quando tinha acesso. Três meses jogando roupas e sapatos no lixo quase que diariamente de tão nojentos. Três meses de tragédias diárias e minutos de choro à noite antes de pegar no sono. Eu estava completando dez anos nesse dia a dia estapafúrdio que se vive na reportagem Geral. Pedi para sair. Não para sempre, por um tempo. Eu precisava ver o telejornalismo de fora. Pedi para sair. Imaginei que ficaria pelo menos um ano distante dessa profissão no mínimo muito esquisita. Em oito meses estava de volta.

 

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