PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 35

AS ENCHENTES QUE ME ENCHERAM

Versão da história contada no Desculpem A Nossa Falha

O Rio de Janeiro começou a encher e a desmoronar em dezembro de 1987. O verão no Rio é, tradicionalmente, a temporada das tragédias “naturais”, por ser uma cidade entre montanhas e mar, incluindo a região serrana (mais montanhas) e por dezenas de anos de descaso de governadores e prefeitos. Chega o verão, começam as pancadas de chuva e lá vão as equipes de reportagem fazer mais do mesmo. Mas chegou janeiro de 1988 e a situação se mostrou muito pior. Mamãe lembrava as enchentes de 1966, até então as mais terríveis.

– O cemitério de São João Batista alagou ao ponto de se ver esqueletos boiando!…

Todas as manhãs, minha primeira tarefa era sobrevoar as áreas mais estragadas. Tenho horror a estar dentro de tudo que voa, mas, fazer o quê? Ou eu ia de muito boa vontade ou adeus ao emprego. Sobrevoávamos, depois íamos de carro aos lugares de maior caos, desde que o carro pudesse chegar. Um dia, soubemos que a estrada para a cidade de Petrópolis, na região serrana, estava interrompida por causa de desabamentos de terra. Pegamos o helicóptero na parte da tarde. Nossa missão seria sobrevoar – e gravar – os desabamentos na estrada e pousar na cidade.

– Daqui em diante não dá mais. – o piloto falou. – O tempo fechando. É só até aqui.

Olhei para baixo, o que muito me custava. Estávamos em plena Serra de Petrópolis. Era terra e vegetação.

– É descer aqui ou voltar! – resumiu o piloto. – Se quiserem descer, assim que o tempo melhorar, volto pra buscar vocês.

– Descer onde? – caí na armadilha de perguntar.

– Nem vou pousar. Chego bem perto do chão e vocês pulam. Decidam rápido!

Éramos eu, o cinegrafista e um técnico com uma idade avançada para pulos. Trocamos olhares. O cinegrafista era surfista, chegado a uma aventura, eu era atirada, mas o técnico…

– E aí? Vamos descer? – perguntei a ele.

Não registrei de imediato a preocupação do técnico com um pacote, do tamanho de uma caixa de sapatos, que levava no colo durante a viagem de helicóptero. Muito depois, voltando o filme na minha cabeça, percebi o cuidado com o pacote que ele apertou contra o peito e concordou em pular. Mas não era simplesmente pular. Era pular com o equipamento.

– É o máximo que dá pra descer! – o piloto avisou. – Pulem! Volto quando puder.

Pulamos. E logo o helicóptero desapareceu nas nuvens. Olhamos ao redor. Só era possível ver que tínhamos muito para subir ou descer. Subir foi a opção, mas, para que lado? Era mato e lama em toda a volta. Bendito silêncio em meio à hesitação. Bendito mais ou menos. Mais porque escutamos vozes e decidimos seguir na direção do burburinho, menos porque… não demora você vai saber.

Caminhamos na direção das vozes – ou pelo menos tentamos – chafurdando na lama. Chegamos a atravessar trechos com a lama na altura das coxas. Mais que isso nunca deixei. Para a mulher, o risco de uma grave infecção é grande. Acho que para os homens também, mas, as mulheres… Como posso explicar?… Preciso explicar? Somos mais vulneráveis, abertas! Então, nunca fui além das coxas em água suja ou lama. A verdade é que não foi necessário. Acontecem situações de emergência ou acidentes em que até mergulhar seria inevitável, mas não aconteceu. Lá fomos então vencendo as barreiras. Mais adiante, encontramos um grupo de mulheres felizes em nos ver.

– Graças a Deus vocês chegaram!

– Deus é grande!

Não gostei.

– Estamos isolados há três dias…

– Agora vocês vão nos tirar daqui…

Não gostei mesmo! Isolados? Três dias? Isso é o que se chama escolher o lado certo no jornalismo e o lado errado para tudo o mais.

– Vocês podem pedir socorro, né? – uma das mulheres apontou para a câmera.

Muita gente achava isso e há quem ainda ache. Atualmente, é simples entrar ao vivo com o equipamento conectado à internet ou com um simples telefone inteligente. Naquela época, a operação era complicada; da antena de um carro para a antena de uma torre. No Rio de Janeiro, com tantas montanhas, não raro, não linkava – o sinal enviado pela antena do carro trombava com obstáculos rumo à torre. Telefone celular não me lembro se já se sonhava com. Então, a mulher à beira do desespero entendia que bastava a câmera para pedirmos socorro. Naquele exato momento, a câmera era só mais um peso para nos afundar na lama.

– Vamos com calma. Tenham calma. – falei com uma enorme vontade de gritar: EU SÓ VIM SOBREVOAR A ESTRADA!!! NÃO VIM ME ISOLAR NA SERRA!!!

– Vamos manter a calma. – pedi mais uma vez.

Eu estava pedindo calma para mim mesma. Caía uma chuva fina. O cheiro da terra molhada, que pode ser romântico no lugar e na hora certos, dava arrepios ali no meio da serra. Tinha muita terra para descer da montanha ao olharmos para cima. E a pergunta é: O que eu estou fazendo aqui? O jornalista é um salmão que nada na direção contrária da correnteza do rio. O salmão para reproduzir a espécie, o jornalista para reproduzir matérias. Vamos na direção de onde todos estão fugindo. Nós, policiais, bombeiros, paramédicos… A grande diferença é que policiais, bombeiros, paramédicos e afins são treinados para atuar em tragédias. Os jornalistas não. Sabe Deus porque vamos em frente. E tem os que pedem para ir para as guerras! … O fracasso da viagem para a Nicarágua serviu para me testar. Pelo jeito, se me mandassem, eu ia para a guerra, mas, pedir para ir? Não, não pediria. Como também abriria mão tranquilamente de participar das coberturas de Carnaval, por causa da multidão, mas essa é outra história. Vamos nos concentrar na serra, especialmente na palavra “isolados”.

Seguimos as mulheres. Encontramos um vilarejo com muitas pessoas circulando, meio que desorientadas. Logo estávamos cercados por gente contando tristes histórias e pedindo ajuda. Gravamos algumas entrevistas, até para eu entender o que acontecia ali. Entendi. Estavam mesmo isolados, cada um salvando a si e tentando salvar outros. Um homem veio na minha direção com o corpo de uma criança nos braços. Estendeu o corpinho para mim.

– Era meu sobrinho. – murmurou. – A terra veio e levou ele cachoeira abaixo. morto.

Tragédia é tragédia e a dor das pessoas tem a mesma intensidade diante da perda. Tanto faz no Brasil como no interior da África. Tanto faz numa enchente como num terremoto ou num tsunami. Refiro-me exclusivamente à dor da perda em tragédias. Nem me meto a analisar o que sentem os jornalistas em outras tragédias por não ter estrada para tais comparações. Dizem os que cobriram terremotos que são as piores sensações pessoais. Senti um tremor de terra certa vez em Portugal na nossa casa da aldeia, mas nem pensei em terremoto; talvez um caminhão passando na rua. Depois é que me lembrei do terrível terremoto de Lisboa, no século dezenove, seguido de um tsunami que levou e trouxe de volta a água do rio Tejo destruindo a cidade e matando centenas de pessoas. Mas, naquele dia, ao fim e ao cabo, como dizem os portugueses, foi só um tremor. São constantes, mas fracos. Esqueci.

Aquele homem com a criança morta nos braços era a imagem da dor extrema. A dor da alma! Para alguém que não colocou o xis em Medicina para não trabalhar com sangue, tripas e cadáveres, o jornalismo me mostrou tudo isso, mais as histórias do habitat de sangue, tripas e cadáveres. Nessa mesma temporada de enchentes no Rio de Janeiro, na própria cidade de Petrópolis, acompanhei o trabalho de resgate dos bombeiros em casas que desabaram numa avalanche de terra. Num dos casos, quando os bombeiros conseguiram escavar o suficiente, descobriram um casal com duas crianças em volta de uma mesa. Sobre a mesa, pratos, talheres e comida. Eles estavam almoçando quando a terra os soterrou. Na história que contei, omiti os detalhes. “Nesta casa, os bombeiros encontraram quatro corpos. Um casal e duas crianças”. Não acho necessária a divulgação de certos detalhes como “debruçados na mesa em que almoçavam”.

Atualmente, parece que a divulgação de detalhes cruéis se tornou uma obsessão jornalística. O que me interessa que, numa cidade do interior do Ceará, um homem matou a esposa com oito facadas? Foi o que ouvi na rádio de notícias que ainda tenho o vício de escutar no carro. Lamento muito pelo assassinato, mas não considero de interesse jornalístico. Aprendi que fato jornalístico é o que interessa a um grande número de pessoas. Parece-me, como diz a minha mãe, um “embrulha e manda”. Assim como fiquei constrangida ao ouvir, também no rádio, duas jornalistas dizerem “o ânus da prova” e “a Porchê apreendida pela Justiça”. Não, um jornalista não tem a obrigação de saber tudo sobre tudo, mas alguns vexames não podem passar. A repórter ainda tinha a chance de não saber que Porche é uma marca famosa de carro, mas esse carro era notícia há pelo menos dois dias. Além da jovem desconhecer a marca Porche, não escutou o noticiário do rádio, nem da televisão onde teria aprendido a pronúncia correta. Na verdade, a jovem jornalista inventou o mais difícil. Levei uns dois segundos para entender o que ela quis dizer com porchê. Era ovo?… “Ânus” também não dá. “Ônus” da prova é muito mais comum que “ânus”, ou não? Enfim, por aí podíamos seguir algumas páginas, mas vamos voltar ao vilarejo em Petrópolis.

O homem com a criança nos braços diante de mim. Gravei o que ele dizia sem fazer perguntas. Não precisa ficar rodando a faca na ferida. A imagem da dor era completa, inclusive com muitas lágrimas. A câmera não mostrou, mas eu estava segurando um dos braços do homem para confortá-lo. Olhos nos olhos, nos meus e nos dele descendo lágrimas. Às vezes a câmera mostra esses detalhes e salva o jornalista da famosa lista de urubus carniceiros, criaturas sem sentimentos, mas não acho que precise ser provocado. Infelizmente, outras vezes, é provocado, tanto no entrevistado como no jornalista. Eu sei o que aquele homem queria ao esticar os braços com a criança para mim. Não era dar entrevista. No gesto ele me perguntava o que fazer com a imensa dor? No susto, quase segurei o corpo da criança, mas consegui recolher os braços a tempo. Foi muito difícil deixar o homem com a dor dele para continuar a reportagem. Havia um vai e vem para a cachoeira onde mais corpos eram resgatados.

Os moradores do vilarejo tiveram a brilhante ideia de fazer sulcos na terra, como degraus, e amarrar cordas de árvore em árvore formado um corrimão para ajudar na subida e na descida íngremes. A cachoeira ficava para baixo do vilarejo. Não sei se a cachoeira surgiu com a quantidade de água que empurrou a terra ou se existia antes. Era muito a fazer, chegar a cidade de Petrópolis e voltar para a emissora com a matéria. Continuava chovendo, a única certeza que tínhamos era a de que podíamos esquecer o helicóptero.

(Continua…)

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