PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 34

VOU PERGUNTAR AO SEU PAI SE VOCÊ PODE IR PRA NICARÁGUA

Versão da história contada no Desculpem a nossa falha

Eis uma oportunidade que poderia ter tornado tudo diferente. O seriado Malu Mulher fazia muito sucesso na TV Globo no fim da década de setenta. Era exibido depois da novela das oito que passou a ser a novela das nove. Eu e uma colega de curso, também estagiária, não perdíamos o programa. E o melhor lugar para ver, sem o entra e sai de pessoas, e sem barulho, era na sala da Alice-Maria. O lugar mais tranquilo para assistir Malu, até aquela noite em que nem a Alice estava na sala. Alguma coisa acontecia na redação e a diretora de jornalismo estava por lá. De repente, Alice entrou feito um furacão.

– Fernanda, você vai pra Nicarágua!

A Malu, interpretada pela atriz Regina Duarte, estava em mais uma discussão com o ex-marido, interpretado pelo ator e diretor Dênis Carvalho. O texto do seriado era maravilhoso, ágil, moderno… E a Alice de pé. Entendi mais ou menos assim: Fernanda, Nicarágua. A Nicarágua era um território de guerra, eu era uma estagiária, não combinava. Então, não liguei. Aí, a Alice aumentou o tom:

– Fernanda! Vou ter que esperar terminar a Malu Mulher pra mandar uma equipe pra Nicarágua?

O volume alto da Alice começou a incomodar. Caramba, nem na sala dela a gente conseguia mais sossego para ver a Malu?

– O que foi?… – perguntei.

– Vai sair um avião da Cruz Vermelha para a Nicarágua e eu quero você lá dentro. O Maurício (cinegrafista) desceu para pegar a câmera. Eu só tenho você aqui. Vai!

Olhei para a minha colega de Malu, ela olhou para mim, nós duas olhamos para a Alice.

– Isso é sério? – perguntei.

– É sério sim!…

Saí da sala zonza. Não era “vai dar um pulo na esquina”. E eu era apenas uma estagiária! O que a Alice pretendia fazer comigo? Era para me assustar? Mas o rosto dela estava vermelho e isso era sinal de emergência verdadeira. Eu precisava ao menos comunicar a novidade aos meus pais. E foi mamãe quem atendeu o telefone.

– Nicarágua? Não é lá que tem guerra?

– Um pouquinho, mãe.

– Espera aí que vou perguntar ao seu pai se você pode ir.

– Mãe! Eu tenho que ir e estou indo!… Estou ligando só pra avisar que não vou dormir em casa hoje, nem amanhã. Beijo, mãe. Dá um beijo no pai.

Desliguei e minha colega de Malu estava com os olhos arregalados do meu lado.

– Amiga, Nicarágua? Deus do céu…

É, Deus do céu! Eu não tinha a menor ideia do que me esperava. Nunca tinha viajado com a equipe de reportagem, nunca tinha passado nem perto de uma guerra, nunca quase tudo… Eu mal tinha feito materinhas para os telejornais locais, sem aparecer – porque não era de uma matéria para a outra que se metia a cara na telinha. Enfim, eu era o que se chama foca, batendo as nadadeiras, aplaudindo e achando graça de tudo.

– Alice, só uma pergunta: Quantos dias na Nicarágua?

– Uns três ou quatro, não sei. O tempo que o avião ficar lá.

– Posso passar em casa? Pegar roupa? – perguntei pronta para sair.

– Claro que não! O avião sai daqui a pouco. Vai logo! No aeroporto, procura o escritório da Varig (Viação Aérea Rio-Grandense, uma companhia aérea brasileira entre as mais importantes no mundo, vendida em leilão em 2006. Uma paixão brasileira que eliminaram e muitas perguntas ainda estão sem respostas).

Aí eu fiquei preocupada. Três dias com a mesma roupa?

– Fernanda, vai! – a Alice apontou para a porta.

– Mas, Alice, três dias com a mesma calcinha?

Silêncio. O dedo da Alice apontando a porta.

– Estou indo.

Fui. Nem esperei o elevador, desci a escada. No carro de reportagem, o Maurício Oliveira me esperava coçando a cabeça. A caminho do aeroporto, o silêncio no carro era total e absoluto. Rodávamos pela comprida e larga avenida Brasil. Eu ia contando as luminárias dos postes. Definitivamente, não queria fazer previsões. Para ser sincera, até comecei a me achar importante. Ora, se eu não fosse alguém a Alice não teria me mandado para uma matéria tão importante, se bem que não tinha mais ninguém no horário para ela mandar. Pensando bem, se fosse para correr riscos, era melhor uma estagiária, sem história, que não faria falta alguma, caso… Esse pensamento foi ruim. Resolvi entrar em contato com a Poliana que nem havia – nem há – em mim.

– Vai dar tudo certo. Minha brilhante carreira começa aqui. Vou começar com reportagens de guerra. Não é pra qualquer um. – repensei.

O fato foi que cheguei ao aeroporto decidida a ser uma estrela da reportagem brasileira. Apresentei-me no balcão da companhia aérea com a postura de uma repórter especial.

– Somos repórteres da Globo, vamos embarcar no voo da Cruz Vermelha para a Nicarágua. – comuniquei ao funcionário.

O homem nos levou para uma sala onde outro homem, visivelmente mais poderoso, falava ao telefone. A mim ele nunca tinha visto, mais gorda ou mais magra, mas a tralha da tevê ele reconheceu logo. Desligou o telefone.

– Pois não?…

– Somos repórteres da Globo, vamos embarcar no voo da Cruz Vermelha para a Nicarágua. – repeti.

– E a autorização?

– Que autorização?

– Autorização pra embarcar. É um voo internacional, um território em guerra, a companhia não pode se responsabilizar pela integridade física de vocês.

– A gente mesmo se responsabiliza.

– Não é assim.

– Posso dar um telefonema?

Ele apontou para o telefone em cima da mesa.

– Alice, é a Fernanda. Estamos no aeroporto e o homem da companhia aérea dizendo que nós não podemos embarcar porque não temos autorização. Não temos mesmo?

Tínhamos, mais ou menos. Para valer mesmo, no papel, não tínhamos.

– E se a gente prometer que não sai do avião? A gente fica na porta acompanhando a entrega dos remédios? – tentei.

– De jeito nenhum. – O homem respondeu firme. – Além do mais, o avião já está saindo, nem ia dar tempo.

Eis que chegou um editor da parte das notícias internacionais botando os bofes pela boca. O que ele estava fazendo no aeroporto? Até hoje não sei.

– Não embarcaram?

– Ele está dizendo que não podemos ir. Não temos documentos. – expliquei.

– Assunto encerrado. – anunciou o funcionário.

Pensando bem, não tinha mesmo cabimento dar carona a dois jornalistas para um território de guerra sem o aval de alguém com autoridade. Tentamos, não deu, fiquei desolada com o fracasso. Saímos do escritório da companhia aérea arrastando o equipamento, tristes.

– Vocês deviam ter embarcado! – o editor gritava. – Mas estavam com medo, não é?

O que era quilo? Eu devia estar mesmo com medo, mas, por algum motivo, não estava. Acho que separei os desafios. Primeiro, o desafio de conseguir entrar no avião, depois, o medo de como seria desembarcar na Nicarágua.

– Era só acompanhar a entrega dos remédios! Vocês não iam nem sair do aeroporto! – continuou o editor esbravejando.

É claro que sempre há a possibilidade de um míssil explodir o avião ao sobrevoar uma área de guerra, mas eu não estava mesmo pensando no durante o voo e na aterrissagem. Mantive a concentração em convencer o funcionário da Varig a nos deixar embarcar. Uma coisa de cada vez.

Assim como surgiu, o editor sumiu no aeroporto. Nós voltamos para a emissora, calados. Na volta, pela avenida Brasil, senti que era bom estar a caminho de casa, mas entendi que havia perdido uma grande oportunidade de começar para valer a carreira de repórter. Seria muito chique uma estagiária na cobertura de uma guerra, ainda que fosse só para registrar a entrega dos remédios que a Cruz vermelha brasileira estava enviando. “Fernanda Esteves, Nicarágua”. Soava bem.

Não cheguei à conclusão se, muito do que chamo de “diversão” no trabalho, é por eu ser metida a dar um jeitinho em tudo. Não o jeitinho descarado e corrupto do mau, esse aprendi em casa que é errado. O jeitinho do vai, vê, procura entender que, ao fim e ao cabo, resulta em algo aproveitável. Soube, pelo editor descompensado, aos berros no aeroporto, que, se fossemos, não sairíamos do avião enquanto estivesse em solo Nicaraguense. Eram as regras, mas imagina se não daríamos um jeito de burlar as regras? É da natureza do jornalista não se conformar com limitações ou não se consegue nada. É ter uma placa anunciando “É proibida a entrada” que já queremos entrar de qualquer maneira, até para saber por que é proibido entrar ou só porque é proibido entrar. De volta à redação, encontrei minha colega de Malu.

– Amiga, não sei se fico triste ou feliz por você não ter conseguido embarcar. – ela disse.

– Também não sei. Só sei que fiz de tudo pra ir. Acho que estou me tornando uma profissional. Vou ligar pra minha mãe, pra ela suspender as promessas e as novenas. Não vai embora que eu quero saber o final da Malu.

Continuei estagiária por um bom tempo, ganhei de imediato a antipatia do editor de notícias internacionais que espalhou a versão que não fomos porque estávamos com medo e, anos depois, num workshop, a Alice contou a divertida história de uma repórter a caminho da Nicarágua que estava preocupada porque ia passar dias com a mesma calcinha. Eu estava no workshop e levantei a mão resignada.

– Eu sou essa repórter…

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