PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 33

O PROJETO DO TEMPO

Entrou um novo diretor na Globo News que me pediu um projeto para a apresentação meteorológica. Tudo bem, eu só tinha o Pelo Mundo e o Agenda para dar conta semanalmente, que mal faria mais trabalho? Pensei em algo informativo, gracioso e, claro, divertido, mas eu nem ao menos sabia que clima é uma coisa e tempo é outra. Daí uma viagem providencial ao CPTEC/INPE (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos / Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em São Paulo para um curso relâmpago. Reto em frente, fui para a emissora paulista assistir pelo menos uma gravação do Mapa-Tempo da Rede e conversar com pessoas do Departamento de Arte. Voltei para o Rio ao menos com o horizonte na cabeça.

A parte informativa era tranquila: escrever um roteiro. Mas o visual… Não sei desenhar nem uma casinha. Em vez de me recolher à admissão da minha total falta de habilidade, usei um programa de computador para “dar uma ideia” do visual que imaginei. Nada pior que “dar uma ideia”.

No dia da apresentação dos novos projetos para o canal, pedi para projetarem o cenário – para “dar uma ideia” – que criei no computador. Começaram as risadas.

– Eu sei, eu sei que muito ruim, mas vou explicar a ideia. – tentei.

Mais risadas.

Fui ficando sem graça. Já era difícil demais falar diante de tanta gente. Sou tímida!… E todo mundo rindo. Vi algumas pessoas na primeira fileira de cadeiras – ocupada pelos cargos mais importantes do canal, inclusive pelo diretor que me pediu o projeto – lacrimejarem de tanto rir.

– Gente, não sei desenhar! É só uma ideia. Deixa eu explicar!… Esse aqui é o apresentador ou apresentadora do programa.

Gargalhadas. Das risadas, a plateia passou às gargalhadas.

Considero que era um bom cenário (depois que os artistas da Arte o construíssem). Tinha três telões para as informações diárias, as fases da Lua no alto dos telões e um mapa no chão que levantava para mostrar as regiões. Havia ainda, num canto, separado, uma casa com uma senhora na janela. O divertido estava nessa última parte que só seria exibida às sextas-feiras. Era uma senhora que ouvia atentamente a previsão do tempo e anunciava uma viagem no fim de semana, mas ela nunca viajava. Na semana seguinte, na sexta, dava uma desculpa qualquer por não ter viajado na semana anterior, anunciava uma nova viagem e perguntava sobre o tempo ao apresentador(a). Nisso acontecia uma conversa descontraída entre o apresentador(a) e a senhora e gerava-se uma expectativa para a semana seguinte: Ela viajou finalmente?

Foi o que imaginei, mas não consegui explicar o projeto. A plateia simplesmente não deu trégua nas risadas. Talvez a minha fisionomia assustada tenha acrescentado mais comédia à apresentação. Só que eu estava realmente assustada com a reação dos colegas. E, assim se passaram dez minutos, até meu tempo de apresentação terminar e eu mesma desistir.

– Fernanda, não sabia que você era tão engraçada. Muito bom! – disse um colega de Brasília.

– Você dá sempre um jeito de fazer a gente rir. – era uma pessoa de alto cargo.

Em resumo: foram dez minutos de comédia! Fiz o primeiro – e único – stand up comedy da minha vida. Animei uma plateia exigente e fiquei numa tristeza imensa, por dias.

Não sei o que acontece. Não foi a primeira nem a última vez que me propus a falar sério, em público, e provoquei risadas. Não sei o que acontece. Fiz algumas palestras em faculdades e o resultado foi parecido com o da apresentação do Mapa-Tempo. Ao menos nas palestras consegui passar algumas mensagens. Na apresentação do projeto NÃO CONSEGUI!!!… Depois, fui à sala do diretor do canal para expor a ideia sem plateia. Disse ele que gostou. De início, seria um programete diário, poucos minutos. Mais adiante, iríamos aprimorando o projeto. Foi a última vez que falamos sobre isso. Nada aconteceu e ninguém mais tocou no assunto. Só a apresentação do projeto ficou na história. Vez em quando, alguém comentava “Como foi engraçado”.

Eu até cheguei a tentar a carreira no picadeiro. Sério, queria ser palhaça de circo. Com peruca, maquiagem, nariz de palhaça, pés enormes de palhaça… É o que mais gosto no Circo. Achei que podia ser no improviso, mas não, é coisa séria, tem que cursar a Escola de Circo. Eu já era repórter de tevê e não tinha tempo. Mas a ideia era fazer palhaçada bem fantasiada, camufladíssima. Imagina eu, de cara limpa, repórter da Globo, de palhaçada no circo? Enfim, a ideia passou, bem passada.

Mas acabo de me lembrar que eu já era repórter de tevê quando parei no pedágio da ponte Rio-Niterói e a moça que recebe o dinheiro…

– Você é repórter, né?

Estávamos no carro eu, minha irmã e uma amiga. Era um Puma conversível. Estávamos, as três, vestidas e maquiadas para uma festa junina. Na festa junina, encarnei a personagem do Jô Soares – o Irmão Carmelo – e minha amiga a do comediante Eliezer Mota– o sacristão Batista, no programa Planeta dos Homens. Foi um show para uma boa plateia.

– Batista, cala a boca! – eu repetia o bordão do Jô.

– Mas, Irmão Carmelo… – minha amiga repetia o bordão do Eliezer.

Uma história lembra outra… Já era repórter de tevê quando encenava esquetes no meio da rua. Quando saíamos em turmas, em pelo menos dois carros, era certo o show em algum momento do trajeto. Parávamos os carros, eu saía do meu, alguém saía do outro carro, e começava uma discussão absurda sobre qualquer coisa. As pessoas são curiosas e logo juntava gente para assistir. De repente, assim como havíamos decidido começar, terminava a encenação. Voltávamos para os carros e íamos embora.

Uma tarde ensolarada de sábado, na praia de Ipanema, em frente ao, na época, famoso bar e restaurante Barril 1800, paramos três carros. Em cada carro havia três ou quatro pessoas, homens e mulheres. Saímos todos para discutir na rua! Uma confusão das boas. Sábado à tarde, plateia não faltou. No improviso, um amigo fingiu partir para cima de uma amiga. Foi quando notamos a presença de dois homens fortes que saíram de outro carro dispostos a acabar com o que parecia ser o início de uma briga. Os homens já estavam indo para cima do meu amigo, para defender a minha amiga.

– Chega, gente!… – parei a brincadeira. – Vamos acabar com a discussão. Vamos pra a minha casa. Todos concordam, né? Então, voltando para os carros… – e para os homens – Pode deixar, acabou. Foi um desentendimento besta. Todos para os carros, meninas e meninos!

Entramos nos carros e sumimos. Nem pensar em explicar aos homens dispostos a uma farta distribuição de socos e pontapés que era uma brincadeira; arriscava apanharmos todos. Paramos mais adiante, na praia de Copacabana, saímos todos novamente dos carros, para rir.

– Os caras iam acabar comigo! – era o amigo que fingiu partir para cima da minha amiga.

– Eu não vi os caras chegarem! – era a amiga ameaçada.

– O pior foi que de tanto rir fiz xixi nas calças, no banco do carro. – era uma das motoristas. – Preciso parar num posto pra limpar o banco… e me limpar. Estou toda mijada.

Rimos mais.  

Uma vez, num posto de combustível, parou um carro na bomba ao lado. Avistei um colega cinegrafista com uma mulher no banco do carona. Saí do carro.

– Ah!… Me ligou pra dizer que ia se atrasar no trabalho e olha só quem está bem aqui? E com uma mulher? Quem é essa mulher?

O cinegrafista (melhor omitir o nome) e a mulher ficaram assustadíssimos. O cara, sabendo do que sou capaz – ou era – mal conseguia falar.

– Fernanda…

– Não vem com Fernanda não! Por que você não leva as cuecas pra ela lavar? Quem é ela? É a outra?

– Fernanda… – era o cinegrafista de olhos arregalados.

– O que é, menino? Ôi, sou colega desse mala. – disse estendendo a mão para a mulher ao lado dele. – Você é quem atura ele? É uma brincadeira.

A mulher riu e o cinegrafista relaxou. Se ele tinha, não era eu a amante, então, que servisse de alerta. Os funcionários do posto, agrupados, prestando atenção no escândalo, riram também, mas percebi que lamentaram ser uma brincadeira. A moçada gosta de um bom barraco.

Pois é, tenho algum currículo como autora e atriz de improvisos que não me lembrava. Não tinha registrado tantas atuações. Mas NUNCA a trabalho! Até hoje, quando lembro da reação à apresentação do projeto Mapa-Tempo, fico perplexa.

 

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