PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 32

MEU ENCONTRO COM AMÁLIA RODRIGUES (segunda parte)

A senhora que, dia sim dia não, levava flores ao túmulo de Amália Rodrigues no Panteão Nacional, me deu o número do celular dela – ou do telemóvel, como se diz em Portugal – e me pediu para ligar por volta das sete horas da noite. Era o tempo de conversar com a Lili antes do marido chegar e evitar o risco de mais sarilhos (confusões) pelo amor à Amália.

– Vou ligar mesmo às sete. Agradeço imenso sua preciosa ajuda. – disse.

Nos despedimos, agradeci também à simpática diretora do Panteão e fui para outro ponto de gravação obrigatório, público e notório: a casa onde Amália nasceu e foi criada na rua Martim Vaz, na Freguesia da Pena, em Lisboa. Um condomínio de quatro casas simples que estava em reforma. O pai, a mãe e oito irmãos de Amália eram da Beira Baixa, uma belíssima região na parte central de Portugal. Numa temporada dos pais em Lisboa, Amália lá nasceu e lá foi criada pela avó.

Embora o tempo fosse curto, as gravações corriam muito bem. Eu já tinha uma amaliana no túmulo da Amália e, bendito seja, um contato para a famosa Lili. Como custou a chegar as sete horas da noite. Enfim, telefonei.

– Olhe, anote o número que a Lili fala consigo.

– Anotei. Agradeci mil vezes. E liguei para a Lili. Apresentei-me: blábláblá, Amália, tevê brasileira…

– Podemos marcar uma gravação? Não acredito em coincidências, se encontrei uma amiga sua no Panteão não foi por nada.

Combinamos por volta das nove horas na recepção do hotel Mundial, na praça Martim Moniz, na parte antiga de Lisboa, onde costumava me hospedar desde criancinha, levada pelos meus avós e pais (tornou-se um hotel menina dos olhos de excursões e está sempre lotado). É um hotel com recantos bonitos. Poucos minutos antes das nove, o telefone tocou no quarto. A senhora Lili estava a me esperar. Desci ansiosa. Próximo à recepção percebi uma mulher meio que fora do contexto do hotel.

– É a Lili? – perguntei.

Sim, era. Sorriu-me. Uma senhora ainda mais baixa que eu, loura, com os cabelos muito bem penteados, belos olhos castanhos atrás dos óculos, vestida com uma blusa colorida. Foi imediata a simpatia mútua. Conversamos longamente antes de gravarmos a entrevista. Dali em diante, a Lili é uma amiga querida que tenho em Portugal. Podem existir apaixonados e apaixonadas por Amália, mais do que a Lili me parece impossível. Trabalhou com Amália, mais uma secretária faz tudo (incluia dirigir, fazer chá de madrugada, ajudar no roubo das flores…). Leonildes Henriques, a Lili, trabalhou com Amália Rodrigues nos últimos treze anos de vida da fadista. Foi a criadora do primeiro fã-clube de Amália. Um dia levou Amália para uma reunião com os admiradores e propôs um nome para o grupo. Alguém sugeriu amalistas, mas Amália batizou de amalianos. Estrela Carvas me contou as traquinagens de Amália, que chama de amaliazadas. Uma das traquinagens? Sair pelas madrugadas a roubar flores nos jardins dos outros.

Logo no dia seguinte a gravação da entrevista no hotel, Lili me convidou para visitar a casa onde mora em Lisboa. Pois não tem um centímetro sem uma foto, uma escultura ou qualquer outro adorno que não seja ligado à Amália Rodrigues, em parte nenhuma da casa!… A outra paixão de Lili é a cadela Mourisca, uma cocker Spaniel preta que sabe receber visitas com pulos e lambidas. Atualmente Mourisquinha, como a chamamos, está velhinha, doente, quase não enxerga e pouco escuta, mas continua alegre e uma perfeita anfitriã.

Na casa de Lili encantei-me especialmente com uma fotografia de Amália no palco. A mulher parece mesmo uma deusa. Lili disse-me que a foto é de autoria do mestre António Homem Cardoso. De tanto que namorei a foto nas vezes em que visitei Lili, ela terminou por me presentear com uma cópia que tenho emoldurada e bem guardada em minha casa. E foi Lili quem me conduziu pelo restante do programa. Levou-me a casa de fados Bacalhau de Molho, próxima ao porto, em Lisboa, onde cantava a irmã de Amália, Celeste Rodrigues. Muito mais do que saborear o melhor polvo a lagareiro da minha vida – e não foram poucos os que papei preparados por mãos habilidosas – foi uma noite inesquecível. Entramos pela porta lateral que dá para uma grande sala onde os artistas aguardam a hora de se apresentarem. Acontece que os fadistas são boêmios, portanto, todas as noites são crianças – como era com Amália nas noites, madrugadas a dentro, de guitarra e fados na casa da rua de São Bento. Celeste Rodrigues e os guitarristas chegavam com muita antecedência, jantavam e dividiam-se em grupos para partidas de buraco e algazarras. Adorei aquilo. Não estivesse eu envolvida de corpo e alma com a construção do programa que eu queria muito apresentar na Globo News, não tenha dúvida que teria me enfiado nas partidas de buraco e nas conversas animadas regadas a bons vinhos e petiscos.

Dos guitarristas que acompanharam Celeste naquela noite, Jorge Fernando, apesar de me parecer muito jovem, cinquenta anos, chegou a tocar com Amália. Entrevistei-o. Rasgou elogios à fadista.

– Ninguém ficava impune passando pela Amália. É aquele tipo de pessoa que faz pensar que Deus existe, porque põe tudo dentro de uma pessoa.

Lili entrou em contato e marcamos encontro na casa de fados, naquela mesma noite, com Joel Pina, com oitenta e nove anos na época. Possivelmente o mais elegante, entre os muito elegantes, guitarrista de Amália. Também se rasgou em elogios à artista. Chamou-a “a embaixadora do fado”. De fato, nas viagens internacionais, Amália era uma digna e altaneira representante de Portugal.

A última entrevista da noite foi com Celeste Rodrigues, a irmã otimista e alegre da pessimista e triste Amália. Falou sobre a infância e a adolescência pobre, a boa educação que receberam dos pais, a pessoa incrível que era a irmã famosa. Gravei a apresentação de Celeste Rodrigues acompanhada de dois guitarristas. Ao ver e ouvir Celeste, irmã e melhor amiga de Amália, me perguntei o que andei fazendo em Portugal para nunca ter assistido uma apresentação de Amália Rodrigues numa casa de fados?… Fui ao show da Amália no Rio de Janeiro, na casa de espetáculos Scala (fechou), no Rio de Janeiro, em 1987, com minha tia Leia e minha irmã. Noite confusa. Uma tia querida estava sendo velada e nós estávamos no show, mergulhadas em culpa. Não haveria outra oportunidade de vermos a Amália cantar ao vivo e em cores. Aplaudíamos e nos encolhíamos constrangidas.

Pelas mãos de Lili, cheguei a Vitor Pavão dos Santos, historiador e biógrafo de Amália. Mais que um pesquisador da vida da Amália, foi um frequentador assíduo das noites de guitarras e fados na da rua de São Bento. Ele mostrou-me parte de uma coleção de fitas cassete com gravações de conversas com Amália. Disse-me que era tanta balbúrdia que mal se ouvia Amália a falar com ele. E me chamou a atenção para um detalhe.

– O nariz… É o nariz mais bonito que já vi!…

O nariz de Amália?… Fui conferir. De fato é. O rosto é belíssimo. A postura no palco. Ora, ora, ora, assumi-me mesmo uma amaliana.

Amália Rodrigues foi injustamente rotulada de fascista na Revolução dos Cravos. Soube-se que ajudava financeiramente poetas e músicos perseguidos pela ditadura salazarista. Ora, a Amália só queria cantar, que se lixasse a política!… Mas sofreu muito com isso. Percebe-se a emoção dela ao receber, em outubro de 1999, das mãos do presidente Mário Soares – ferrenho opositor ao Estado Novo e deportado por Salazar para São Tomé, na África – em agradecimento, em nome do estado “democrático” português, a mais alta condecoração, a Grã-cruz da Ordem de Santiago de Espada.

Em Portugal comprei os DVDs que encontrei com shows da Amália. Há poucos, só consegui três e a procura foi intensa. O primeiro DVD foi gravado no Japão!… Os japoneses repetindo “Cheira bem, cheira a Lisboa” sob o comando de Amália é um momento sensacional.

De volta ao Brasil, depois de revisar cuidadosamente todo o material gravado em Portugal, propus o programa a então diretora de programas da GN, Monica Labarthe. Ela aceitou e parti para a edição. Então, convoquei os comparsas de sempre, do Pelo Mundo, para a jornada extra sem ônus para o canal: os editores Bruno Assumpção (o mesmo Assumpção da minha avó, mas nenhum parentesco) e Jorge Ubiratan, Klara Duccini, a então estagiária que me ajudava no Pelo Mundo naquela época, e convidei o Eduardo Grillo – um dos apresentadores do PM – para gravar os textos e as cabeças do Especial Amália Rodrigues. Pedi ao Departamento de Arte para desenhar um cenário para o Estúdio Virtual com cortinas pretas. Coloquei numa cadeira antiga a guitarra portuguesa de minha mãe, com um xale preto cuidadosamente jogado em cima. O Grillo vestiu um terno cinza e se apresentou com a sobriedade e a elegância que o fado exige. Mas, faltava alguma coisa. Pensei e pensei. Faltava uma validação brasileira à diva portuguesa. Aí, convidei a cantora Maria Bethânia para um depoimento. A diva brasileira comparou Amália a Edith Piaf, Billie Holiday e Judy Garland.

– Amália, pra mim, estava nessa categoria, ou seja, muito fora daqui, muito acima. Eu tenho por Amália uma admiração imensa. Acho impossível, por maior amor e maior desejo que Portugal e todos nós tenhamos por ela, encontrar alguém que chegue na borda da sua saia ou nas franjas do seu xale. É única. Extraordinária.

Modéstia de lado, o programa ficou muito bonito. Foi exibido no dia no dia vinte e sete de junho de 2010, próximo a um dos dias que marcaria os noventa anos de nascimento de Amália. Para mais, ao registrar o dia do nascimento da neta, a avó de Amália não estava bem certa, só sabia que a menina nasceu na época das cerejas. Por fim, embora o consenso fosse o dia primeiro de julho, ficou o dia vinte e três no registro. Calhou bem para Amália. Festeira, comemorava duas vezes o aniversário, todos os anos.

Mais que um trabalho bem feito, fiquei feliz com as dignas homenagens à minha querida tia Leia e à minha amada avó Assumpção. Vovó cantarolava os fados enquanto produzia maravilhas na cozinha. Quando vovó partiu, tia Leia ouvia Amália e chorava de saudades da mãe. Eu e tia Leia combinamos que, entre tantas, nossa canção preferida, fora Uma Casa Portuguesa, com certeza, é Casa da Mariquinhas (Vou Dar de Beber À Dor). É um corridinho, com uma letra fantástica!… No final deste capítulo está a reprodução da letra, autoria de Alberto Janes, sob o risco de alguém ter preguiça ou falta de tempo para procurar no Google. Mas, caso procure, não deixe de ouvir a melodia. O programa, gentilmente autorizado pela Diretora Geral da Globo News atualmente, Eugênia Moreyra, está no meu blo www.oquesepassa.com.br.

Tem poucas coisas das quais me orgulho de ter feito nesta vida, o programa sobre a Amália Rodrigues é uma das raras. Assim como no programa, por precisar pesquisar mais a fundo e não ter tempo disponível em Lisboa, abstenho-me aqui sobre os detalhes da morte de Amália e as farpas afiadas trocadas entre algumas pessoas que conviveram com a fadista. Acredito na tal ciumeira que me falou o guitarrista Carlos Gonçalves.

– Toda a gente era apaixonada pela Amália. Homens, mulheres… uma ciumeira.

Em tempo: encontrei-me algumas vezes com a senhora que conheci colocando flores no túmulo do Panteão Nacional. Certa noite, sob a condução primorosa de Lili, jantamos numa casa de fados no bairro da Mouraria. Conheci o temido marido. Pareceu-me simpático, mas isso, talvez, porque não falamos sobre a Amália. Pois o nome dessa senhora que me abriu os caminhos para encontrar a Lili e tudo o mais ao programa é FELICIDADE. Pode ser mais feliz? Guardei o segredo por muitos anos para evitar os tais sarilhos com o marido. Eis que Felicidade ficou viúva e não corre mais esse risco.

Letra da música Casa da Mariquinhas (Vou Dar de Beber À Dor)

Foi no Domingo passado que passei

À casa onde vivia a Mariquinhas

Mas está tudo tão mudado

Que não vi em nenhum lado

As tais janelas que tinham tabuinhas

Do rés-do-chão ao telhado

Não vi nada, nada, nada

Que pudesse recordar-me a Mariquinhas

E há um vidro pegado e azulado

Onde via as tabuinhas

Entrei e onde era a sala agora está

À secretária um sujeito que é lingrinhas ( pessoa de aspecto franzino)

Mas não vi colchas com barra

Nem viola nem guitarra

Nem espreitadelas furtivas das vizinhas

O tempo cravou a garra

Na alma daquela casa

Onde às vezes petiscávamos sardinhas

Quando em noites de guitarra e de farra

Estava alegre a Mariquinhas

As janelas tão garridas ( vistosas, alegres ) que ficavam

Com cortinados de chita às pintinhas

Perderam de todo a graça porque é hoje uma vidraça

Com cercaduras ( molduras ) de lata às voltinhas

E lá pra dentro quem passa

Hoje é pra ir aos penhores

Entregar ao usurário, umas coisinhas

Pois chega a esta desgraça toda a graça

A casa da Mariquinhas

Pra terem feito da casa o que fizeram

Melhor fosse que a mandassem p´rás alminhas ( altares de culto das almas do Purgatório )

Pois ser casa de penhor

O que foi viver de amor

É ideia que não cabe cá nas minhas

Recordações do calor

E das saudades o gosto eu vou procurar esquecer

Numas ginjinhas

Pois dar de beber à dor é o melhor

Já dizia a Mariquinhas

Pois dar de beber à dor é o melhor

Já dizia a Mariquinhas

A língua portuguesa é maravilhosa. “O tempo cravou as garras na alma daquela casa”? Que dor!… Conheci uma Mariquinhas alegre e festeira. Fui a noites de guitarras e fados na casa dela. Como era bom. Quem me dera ter participado das amaliazadas … de Amália.

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