PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 31

MEU ENCONTRO COM AMÁLIA RODRIGUES

O trabalho na Globo News era uma ralação obrigatória, mas podia ser uma ralação espontânea também. Logo no início do canal, inconformada com a falta da criatividade (A Alice-Maria me ofereceu o cargo de chefe do Departamento de Produção e Criação RJ) no cargo da produção, propus e me responsabilizei pela gravação de entrevistas especiais. Os convidados iam ao estúdio e gravávamos entre um telejornal e outro. Tenso, por causa do tempo limitado, e frio, por causa do ambiente no estúdio. Aí, nos chegou a informação que o escritor e dramaturgo Mauro Rasi estava escrevendo programas para a tevê baseados na peça de teatro As Tias do Mauro. E as tias da peça eram fantásticas: Berta Loran, Dirce Migliaccio, Nair Belo e Carmem Verônica. Com essa turma, no estúdio de jeito nenhum!… Pedi emprestada a casa de uma amiga para a gravação da entrevista. Produzimos uma bela mesa para o lanche, conseguimos carros para pegar o Mauro Rasi e as tias e, raridade, duas câmeras e dois cinegrafistas. Fazendo as perguntas, o então apresentador da Globo News, Márcio Gomes. Fosse apenas uma das tias, já seria engraçado, imagina as quatro juntas?!.. O Mauro tentava organizar a boa bagunça e o Márcio teve momentos de visível tontura. Os programas das Tias para a tevê foram cancelados, mas o nosso programa ficou divertidíssimo e foi exibido. Quase dez anos depois, comprei a casa da minha amiga. Moro nela e dia desses lembrei que uma das tardes mais divertidas da minha vida passei na minha atual sala de jantar. Esta vida tem umas coisas…

Por causa da pobreza das matérias que chegavam para o Pelo Mundo (programa que passei a comandar para me livrar da Produção), reportagens levíssimas que chegam pelas Agências de notícias assinadas pela Globo (e todas as outras emissoras), passei a levar uma câmera de vídeo nas viagens de férias fora do Brasil, na intenção do programa. Atualmente, continuo a levar a câmera na intenção do meu blog. Creio que jamais vou viajar sem uma câmera de vídeo. Tenho para mim que já está grudada na mão.

Palavras e imagens são atrativos que me acompanham desde a adolescência. Tia Leia tinha câmeras 8 e super 8 para filmar especialmente as sobrinhas queridas. Os filmes eram caríssimos para desperdiçar, mas, vez em quando, titia me deixava filmar. Gostei. Com as câmeras eletrônicas, com fitas e discos, embora ainda amadoras para exibições na tevê, me encantei de vez.

Comecei as gravações, nas férias, para o Pelo Mundo com um equipamento amador, mas muito eficiente. Depois, comprei uma Z5, HD, semiprofissional com excelente qualidade de imagem. Mais tarde, uma HD 3D, compacta, de ótimo resultado. Tenho uma coleção de câmeras. Fui comprando, atualizando, e não me desfiz de nenhuma, inclusive das 8 e Super 8 da tia Leia que herdei. Mas daí a ser uma profissional da imagem havia – e há – uma longa distância. Faço o meu melhor.

Viajo com boas intenções, mas apreensiva. Por mais simples que seja a câmera, enrolo-me com o botão rec, o mesmo que inicia e interrompe a gravação. Deviam ser dois botões: um para começar a gravar e outro para parar. Para mim faria diferença, para os profissionais não sei, nunca presenciei com eles algo nem parecido com as asneiras que faço. Na pressa das excursões onde me enfio, frequentemente aperto o botão para gravar quando já está gravando. Então, vamos ao resultado: quando eu penso que está gravando, não está; quando corro – atrasada, atrás do grupo da excursão – porque fico para trás gravando imagens – a câmera está gravando. No hotel, ao revisar as gravações do dia, é comum eu cair em prantos. Perco muita coisa. As imagens que imagino gravadas, não estão; coleciono sequências intermináveis de imagens sem nexo, resultado da câmera ligada nas correrias, entre um ponto turístico e outro, e nas voltas para o ônibus com o motorista e o guia ameaçando irem embora sem mim.

Para ser sincera, eu me enrolo com a câmera mesmo sem pressa. Com a tarde toda para gravar um vídeo no Oceanário de Lisboa, ao revisar a gravação no hotel, lá estava a frequente estupidez. Sem desconfiar do desastre, voltei para o hotel me sentindo dois centímetros menos baixa de tanto orgulho de mim mesma. O lugar é lindo. A garoupa (peixe) fez poses todas as vezes que colei a lente da câmera no vidro do aquário. Muito engraçadinha. O peixe-lua deu um show. Amália e Euzébio, duas lontras, se esmeraram em estripulias. O cardume de sardinhas produziu bonitas coreografias. Os tubarões se exibiram à farta. O polvo gigante entrou e saiu da toca várias vezes. Os cavalos marinhos desfilaram com pompa. Os camarões correram de um lado para o outro. Gravei tudo e muito mais. Ao revisar, chorei muito. Desabei na cama do hotel e esmurrei os travesseiros.

– Burra! Burra! Burra!

Pelo menos setenta por cento do que achei ter gravado, não gravei. Eram justamente os momentos em que eu apertava o rec sem perceber que já estava gravando e a câmera parava de gravar. Que ódio de mim!… Menos mal que me sobravam dias em Lisboa e pude voltar ao Oceanário no dia seguinte. Esse foi um, porém raro, entre os famosos “males que vêm para o bem”. No dia seguinte, havia mergulhadores limpando o imenso aquário; a garoupa me reconheceu e repetiu pacientemente as poses; o peixe-lua me deu outra chance; os tubarões também colaboraram; o polvo quebrou o meu galho; os camarões toparam correr mais um pouco; os cavalos marinhos retomaram a pompa; Amália e Euzébio apareceram nas grutas submersas; e a gravação ficou mais animada.

Na minha avaliação, o maior fiasco – e a maior perda – foi no Museu Viking, em Edimburgo, na Escócia. Não tenho certeza se o museu fica em Edimburgo. Quando volto das viagens é comum me atrapalhar com os lugares que visitei se não faço anotações. Por acreditar que vou me lembrar do mais importante, não anoto. Procurei na Internet, mas está confuso. Os museus Vikings na rota Reino Unido-Irlanda – a viagem que fiz – não parecem com o que visitei. Enfim, tenho quase certeza que foi em Edimburgo, em mais uma fugida do roteiro da excursão, mas, também, tanto faz, nada sobrou. A fila para o caminho por cenas da vida Viking estava grande e eu tinha pouco tempo. Implorei para passar na frente me desculpando em inglês! Para não perder a descida de carrinho por uma sequência de cenários muito bem feitos com situações do dia a dia dos Vikings, decidi que o melhor era deixar a câmera ligada o tempo todo, sem interrupções, até o fim da linha. Uma decisão cuidadosa, justamente para evitar o perigoso liga-desliga no famigerado botão rec. Com a câmera ligada, eu só precisava controlar os movimentos em coordenação com os do carrinho que rodava de um lado para o outro a cada cenário. Achei que havia ligado a câmera. Não!… A câmera já vinha ligada há algum tempo e, ao me preparar no carrinho, desliguei!!!… Perdi TODO o passeio pelas cenas da vida Viking com personagens em movimento e iluminação caprichada. Não perdi parte, perdi TODO o passeio!

– Você tem possivelmente a maior quantidade de imagens de chãos da Europa… – ironizou minha irmã quando mostrei as gravações.

Uma grande verdade, que só faz aumentar. Eu até digo, para mim mesma, “presta atenção!”. Mas os erros continuam. Faz algum tempo, gravei três excelentes vídeos em Portugal para o blog. Dois cartões de 64 GB cheios! Cerca de mil e quinhentos takes! Dei-me ao trabalho de levar o computador e um HD externo para guardar as imagens e liberar os cartões de gravação. Pois eu tinha a certeza de ter transferido as imagens para o HD externo. Por via das dúvidas, deixei os cartões gravados separadinhos, só apagaria um ou outro se os vazios acabassem. No Brasil, cadê os cartões? Menos mal porque estava tudo no HD externo. NÃO ESTAVA!!!… Como não estava? Eu tinha certeza de ter copiado tudo!… Pois não estava e os cartões sumiram!… Três excelentes vídeos perdidos!… Dias e noites de choro e de profunda depressão. Sumiu, inclusive, o mini cartão com imagens gravadas de um drone que aluguei em Portugal, mas, sabe Deus por que, as imagens estavam no HD. Semanas depois de descobrir o sumiço dos cartões com os três bonitos vídeos, decidi viajar e gravar tudo de novo. Meses depois, lá estava eu, de madrugada, arrumando a mala na véspera da viagem. A bagagem aumenta na proporção da idade. Remédios preventivos, óculos reservas, roupas de frio, muito frio e calor… Mexe e remexe o armário e eis que encontrei os cartões numa bolsinha que comprei na viagem anterior justamente para colocar miudezas. Eu revirei a casa e não procurei na bolsinha!… Em cinco ou seis horas eu estaria no aeroporto para sobrevoar o oceano Atlântico em mais dez horas de tensão aérea com o mesmo roteiro anterior. Isso inclui reserva de hotéis, aluguel de carro, coisas que não se faz e refaz em cima da hora. Seria um sinal? Ah, para criaturas como eu, que sofrem demasiadamente em voos, qualquer estranheza é um sinal. Um mau sinal.

– Mas também, se é um sinal pra eu não viajar, os cartões tinham que aparecer horas antes do voo? Não podiam aparecer uma semana antes? Não vou abortar a viagem horas antes de novo. Isso ficando doentio.

Era eu discutindo com o além. Decidi manter a viagem e variar dentro do possível na mesma rota previamente traçada. Fui.

Um cinegrafista profissional faz uma asneira bem menor que essa e perde o emprego. Nunca vi algum fazer. Nem a pressa é desculpa para um cinegrafista de verdade perder uma boa imagem. Mas, eu… Menos mal que eu só oferecia as matérias para o Pelo Mundo quando tinha certeza de tê-las gravado em boas condições na volta das viagens. Não era um compromisso profissional. Fosse, se a emissora estivesse pagando a viagem, hospedagem, diárias e tantos outros custos, seria inaceitável tanta incompetência. Como diziam meus familiares nas comilanças semanais: “Quem convida, dá banquete”. Isso significava que se a gente convidasse alguém para comer em nossa casa, tinha que oferecer do bom e do melhor, com fartura. Não tinha essa de cada um levar um prato e o que vai beber. Outro ditado seria “Quem não tem competência, não se estabelece”. Está certo.

Em 2010, na temporada anual de reprises dos programas, juntei um chamado feriadão com dias de folga não tirados (quem faria o programa nas folgas?) e produzi um programa sobre a vida da fadista Amália Rodrigues. Cheguei a Lisboa, pesquisei sobre pessoas que conviveram com Amália, marquei as entrevistas e gravei. Tudo por minha conta e risco. Era um projeto meu. Dependendo do resultado, ofereceria para exibição na Globo News.

Gastei muito tempo na produção do programa, em pesquisa, telefonemas e contatos, e as gravações foram feitas na aflição da pressa. Comecei a gravar na Casa-Museu, da Fundação Amália Rodrigues, em Lisboa. Lá encontrei uma ex-secretária faz tudo da fadista, Estrela Carvas, que, junto com a jornalista Maria Inês de Almeida, publicou Meus 30 anos com Amália (editora Guerra e Paz, 2009), um livro sobre o dia a dia de Amália. Foi a leitura desse livro, que comprei numa viagem anterior a Portugal – junto com a intenção de um mimo póstumo à vovó Assumpção e tia Leia – que me aguçou a vontade de contar um pouco da vida da diva portuguesa na televisão. Descobri-me, ao fim e ao cabo, também uma amaliana. E acabou por ser uma homenagem a própria Amália que tantas alegrias nos deu nas cantigas em família.

Combinei com Estrela, também guia da Casa-Museu, por telefone, uma visita à casa amarela na rua de São Bento, em Lisboa. Ela consultou o presidente da Fundação, aceitou me receber e lá apareci com a câmera em punho. Recebeu-me com cortesia, mas se espinhou logo ao perceber que eu gravava detalhes da casa. Ficou brava!… Alegou que se eu mostrasse tudo nada mais restava para ser mostrado. Por que as pessoas iriam visitar o museu?

Ao longo da minha vida, filha, neta, sobrinha, prima e amiga de portugueses, uma portuguesa nas tintas não me assusta. Só me preveni porque a escada é alta e estávamos as duas no topo.

– Mas nós combinamos a gravação. – lembrei. – Eu expliquei que a visita faz parte das gravações para um programa sobre a Amália pra tevê brasileira. Se eu não mostrar o museu já começamos sem graça. Quem tem curiosidade ou é apaixonado por Amália vai ficar ainda com mais vontade de ver de perto.

– Isso não está bem…

– Vamos lá. Preciso mostrar onde Amália morou e alguns detalhes da casa dela. Depois, gravo uma entrevista com a senhora pra me contar algumas histórias que estão no livro. – propus.

Tempo para reflexão. A fisionomia de Estrela foi ficando mais simpática até que sorriu e concordou. Ela fala muito bem e conta histórias saborosas com e sobre Amália. Foi uma das que bateram na porta que, Amália, estando em casa, sempre abria, e pediu emprego. Foi o braço direito de Amália Rodrigues por trinta anos. O livro lê-se sem parar por serem as histórias ótimas, por ser bem escrito e por Amália ser uma personagem apaixonante.

Aconteceu que, depois da gravação na Casa-Museu, eu não tinha mais nada marcado. Não conseguia falar com ninguém ligado a fadista. Voltei para o hotel e me pendurei ao telefone ligando para casas de fado à procura de informações sobre os guitarristas que tocaram com Amália. Pesquisa aqui, pesquisa ali, consegui contato com o Carlos Gonçalves, um dos mais assíduos e mais bonitos entre os elegantes guitarristas. Marcamos a entrevista na casa dele. Mais boas histórias sobre Amália. De brinde, Carlos Gonçalves, também compositor, dedilhou na guitarra um fado. Foi ele quem me contou sobre outra secretária de Amália, de nome Lili, que trabalhou com ela outros tantos anos até a morte da fadista.

– Sabe onde encontro a Lili? – perguntei naturalmente.

Não sabia. Deu-me alguns contatos que me levaram a nada. Então, parti para o público e notório: fui ao Panteão Nacional onde estão túmulos de celebridades portuguesas do quilate de Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama. O governo português mudou a lei para receber Amália no Panteão. É a única mulher e o único túmulo onde as flores são permitidas. Ah, as amalianas e os amalianos não têm regras quando se trata de Amália. Fiz imagens do túmulo da Amália com as tais flores proibidas ao resto dos imortais. Quem me contou sobre a exceção à regra foi a diretora do Panteão, muito solícita e simpática. Pena que não encontrei naquele momento da minha visita nenhum fã a colocar ou a arrumar as flores.

O Panteão é um prédio enorme e belíssimo. Subi as escadas para gravar imagens, de cima, do amplo espaço ricamente decorado. Lá estava eu gravando quando uma amiga que me acompanhou nessa viagem chegou bufando por ter subido as escadas correndo.

– Desce!… Desce!…

– Respira, não entendendo.

– A amaliana… tem uma amaliana lá no túmulo da Amália… arrumando as flores…

Voei!… Voltei ao túmulo e lá estava mesmo uma senhora a ajeitar as flores. Respirei fundo, me recompus e me apresentei. Blá-blá-blá, gravando, tevê brasileira… Posso gravar a senhora?

– Não que meu marido mata-me!…-  ela recusou assustada.

Pausa para construir a confiança. Câmera na mão e mão nas costas.

– Então vamos conversar. Vem aqui todos os dias? – perguntei.

– Dia sim, dia não. Trago flores. Olhe que gostava tanto da Amália que meu marido diz muitas vezes que gosto mais dela que dele. Se calhar…

– Posso só gravar as suas mãos ajeitando as flores? Ninguém vai saber que é a senhora e conto que as amalianas mantêm o túmulo da Amália enfeitado e arrumado. – arrisquei.

Gravação permitida, mas só das mãos e parte dos antebraços. A senhora disse-me como se chamava, um nome mais que apropriado para aquele meu momento, mas isso se tornou mais um segredo entre nós. E assim entrou no programa, como a dona das mãos de uma amaliana que, dia sim, dia não, vai ao Panteão Nacional colocar e arrumar as flores que nos outros túmulos são proibidas. Conversa vai, conversa vem, comentei que estava à procura de uma pessoa que tinha trabalhado com a Amália, mas ninguém sabia dela.

– A Lili? É muito minha amiga!…

– Uau!… Então, por favor me diga como encontro a Lili!… – exultei. Não só havia encontrado uma amaliana de carteirinha, mas também alguém que me levaria à Lili.

– Vou telefonar pra ela a perguntar se posso lhe dar o contato, está bem? Mais tarde lhe digo.

E mais tarde, conto o resto.

3 comentários em “PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 31

  • setembro 6, 2017 em 11:13 pm
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    Fantástico relato ! Jornalista nota 1000 ! Como eu também sou Amaliana, muito grata por este seu brilhante trabalho sobre a eterna Rainha do Fado. Eu creio que a AMÁLIA fez muito mais por Portugal do que os políticos portugueses todos juntos. Eu visito a Casa Museu e levo flores ao Panteão para a DEUSA Fadista, incomparável.

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