PEÕES DE GRIFE – O TELEJORNALISMO EM CAPÍTULOS / PARTE 3

( continuação do capítulo O COMEÇO – UMA APOSTA )

Na faculdade de Comunicação, a parte prática se limitava a escrever notas curtas para fictícias notícias em rádios. As máquinas de escrever, sem exceção, tinham uma farta falta de teclas e os pinos de ferro nus machucavam os dedos. Algumas máquinas tinham teclas de números no lugar das letras. Estúdio? Gravações externas? Nada disso. Era muito parado. Daí que nossos trabalhos na faculdade eram pensados, repensados e inventados para … nos divertirmos. Numa aula de telejornalismo construímos uma câmera de isopor e simulamos um programa de entrevistas; noutra, recriamos a história de Chapeuzinho Vermelho (eis ela de novo!…) em slides. Não me lembro da origem nem do objetivo da ideia. O importante era levar adiante uma ideia estapafúrdia que prevíamos diversão. Escolhemos a casa de praia de vovó para tirar as fotos. Muito pela insistência, mais ainda para eu parar de pegar o carro dele escondido, papai me deu um fusca ano 1968, amarelão, sem chão, igual ao carro dos Flingstones. A sorte foi o Dinho ter me presenteado com um título do falecido Automóvel Clube do Brasil. Eu devia ser a cliente mais assídua dos reboques. De tanto a filhinha chegar de reboque em casa, papai trocou o amarelão por um fusca zerinho, branco. E lá fomos nós em algazarra para a casa da vovó.

Nosso grupo era animado e diversificado. Três jovens, duas moças, um rapaz (belo exemplar da espécie) e uma mãe de dois filhos adolescentes que resolveu fazer faculdade perto dos cinquenta anos. O maridão dava a maior força para ela sair de casa, fazer alguma coisa diferente. As meninas do grupo chamavam o marido dela de “nosso marido”. Nem ela, nem nós, dávamos a mínima para a diferença de idade, até porque, a mãe dos dois adolescentes era engraçada. Quando se embananava com um trabalho ou com as provas, colocava a mão na cabeça e já sabíamos.

– Não posso ficar tensa que vem a enxaqueca… Não tenho mais idade pra essas emoções. – dizia.

Achávamos graça e ela acabava rindo também. A enxaqueca passava. Às vezes, telefonávamos para saber como ela estava lidando com alguma tarefa da faculdade. Quase sempre quem atendia era o “nosso marido”. Ele ria, nos contava que ela estava arrancando os cabelos, nervosa…

– Hoje eu vou precisar de um calmante. Não estou entendendo nada dessa matéria!

Uma de nós se despencava até a casa dela para o socorro. A família era muito animada e dávamos muitas risadas. E foi mais um dia de muita risada na casa de praia da vovó, fantasiados com as personagens de Chapeuzinho Vermelho, à nossa moda. Passamos horas tirando fotografias na sequência da história. Ou seja, passamos horas fazendo bagunça, falando bobagens, rindo e cumprindo a tarefa no roteiro do conto de fadas. Outra nota máxima. Quer melhor que passar um dia dando risadas, uma hora na faculdade exibindo o trabalho inusitado para uma turma às gargalhadas e um professor sem saber como avaliar o que está vendo? E eis que chegamos ao xis que decidiu toda a minha vida até aqui.

O professor de Telejornalismo se apresentou como um jornalista revoltado. Acabei entendendo a situação dele, até porque ficamos amigos. Ele foi um entre os milhares ou milhões de desprezados pelo mercado de trabalho. Tinha os ressentimentos dele.

– Não sei o que vocês estão fazendo aqui, não tem emprego… – era o professor de braços cruzados a encarar a turma com a grande revelação.

– Então, o senhor tem que nos preparar muito melhor para conseguirmos emprego!… – fui eu, de pé, de braços cruzados, diante do professor.

O que eu estava fazendo de pé, com todos os colegas sentados, atônitos com a minha atrevida reação? De onde tinha saído a resposta tão consciente, consistente, segura e imediata? O espírito galhofeiro. Foi ele! E agora? Como eu voltaria a sentar ou, melhor, a desaparecer, a desmaterializar? E por que eu continuei a falar?

– Aposto com o senhor que, antes de me formar, vou estar empregada. – mandei.

Por que eu continuei o desafio? Por que eu não me sentei? Por que simplesmente não deixei o corpo desabar na cadeira? Por que não fiz nada disso, mas ao menos não fechei a minha boquinha?… O professor se aproximou com os braços cruzados sobre o peito, me encarou e….

– Aposta aceita. – disse olhando bem nos meus olhos. – Vou exigir muito desta turma para ajudá-la a vencer a aposta.

– Cacête!… – ouvi minha colega, a mãe dos dois adolescentes, vizinha de cadeira, sussurrar. – Cala essa boca!… Senta!… – e me puxou de volta para a cadeira.

O que estava dito, estava dito. Aposta feita. O que se faz quando não se tem o que fazer? Eu entrego para Deus. Aí, coisas acontecem… ou não. Dessa vez aconteceu uma coisa no mínimo estranha. Todos os dias, cinco vezes por semana, eu subia e descia as escadas da faculdade várias vezes. Não tinha o hábito de me deter diante dos murais para ler os cartazes e o que mais lá estivesse colado. De repente, sem mais nem menos, parei diante de um mural. Havia um cartaz oferecendo estágio na Rede Globo para estudantes de jornalismo. Era um concurso e a data para o término das inscrições estava próxima, dois dias. Justamente nos dias em que eu pretendia preparar a minha festa de aniversário. Havia muito a fazer nos preparativos.

– Estágio na Rede Globo? Isso deve ser para vender comerciais. – pensei.

Vender comerciais eu não queria. Até hoje não sei o que quero da vida, mas, desde cedo, tive a certeza que não queria nada com vendas, não levo jeito. Mas havia a aposta com o professor de telejornalismo. Apostei que estaria empregada antes de terminar a faculdade, não disse fazendo o quê. Tudo bem, para vencer a aposta eu até venderia comerciais. Tenho muitas qualidades e muitos defeitos e não sei onde se encaixa o atrevimento. Depois que me manifesto, depois que coloco as mãos nas cadeiras e retruco, só me resta encarar, vencer, perder, apanhar ou correr. Algumas vezes venci, outras perdi, outras apanhei e outras corri. Fui para casa com a ideia do estágio atrapalhando os planos para a festa de aniversário. Convidados, estágio na Globo, brigadeiros, estágio na Globo, discos, estágio na Globo… Por fim, decidi abrir mão do meu precioso tempo nos preparativos do aniversário para fazer a inscrição. Ia num pé e voltava no outro. Faria a inscrição, depois… era depois. Só que encontrei uma fila imensa. Eu e a torcida do Flamengo estávamos na fila de inscrição para o estágio na Globo. Vender comerciais não me interessava em absoluto, eu ia encarar pela aposta, mas era estágio no telejornalismo!… O que também não me interessava. Lembra que eu queria estar na praia observando alguém ler a reportagem que havia escrito? No Jornal?… Então, por que perder meu tempo precioso naquela fila imensa?

– POR CAUSA DA APOSTA COM O PROFESSOR, LINGUA SOLTA!!! – alguma coisa gritava dentro de mim.

Fiquei na fila uma eternidade, fiz a inscrição e me apressei para retomar os preparativos da festa de aniversário. Esqueci o estágio até receber uma carta comunicando o dia do teste de conhecimentos gerais e mais não me lembro que outros conhecimentos eram. Fiz o teste, voltei a esquecer o estágio até receber um telefonema a me comunicar que eu havia sido selecionada. Entre quantos candidatos, também não sei. Até que fui chamada para uma entrevista no Departamento Pessoal da Globo. Nem se eu fizesse uma sessão de hipnose regressiva lembraria o que me foi perguntado e o que respondi. Conta a lenda que os aprovados foram os que se mostraram mais atrevidos. É lenda, mas, por me conhecer, acredito. Na época, o Jornal do Brasil era a menina dos olhos de dez em cada dez jornalistas. O JB vendia bem menos que O Globo, mas tinha uma aura de transgressão política irresistível à juventude atrevida. Eu nem era tão transgressora, atrevida sim. Não por acaso, o jornal que alguém estaria lendo na praia, e eu observando, era o JB.

Então, no final de 1978, a Globo me contratou como estagiária. Lembro que eram quatorze vagas para repórter e quatro para editor. Fiquei numa vaga para editor e devia ter ficado acomodada onde haviam me colocado. Mas um rapaz, de uma das vagas para repórter, desistiu do estágio e EU PEDI à Alice-Maria e ELA ACEITOU me colocar na vaga dele. Ou seja, meu Jesus Cristo, eu me ofereci para dar a cara à tapa! Juro que não pensei em aparecer no vídeo! Juro!… Aconteceu que achei o trabalho de repórter mais excitante. Ir para a rua, no carro de reportagem, gravar matérias… Ação!… Os editores trabalham na emissora, entre quatro paredes, a maioria em salas minúsculas, sem janelas. Foi o que eu senti durante os três meses dos cursos de preparação para o estágio, gravando com câmeras de cinema (o filme era caríssimo!), mexendo nos botões das ilhas de edição (equipamento também caríssimo para as mãos de estagiários), fuçando em absolutamente tudo! Não havia área restrita aos estagiários.

O Armando Nogueira, diretor geral de Jornalismo, e a sua fiel escudeira Alice-Maria, tinham chegado à conclusão que precisavam formar repórteres para o telejornalismo. Havia jornalistas muito bons na tevê, mas não existia uma linguagem para as notícias na tela. Armando e Alice queriam jovens sem os vícios de outros veículos. Fomos programados para a televisão, tanto que, na brincadeira, éramos chamados de “repórteres biônicos”. Era o tempo dos “senadores biônicos”, eleitos, indiretamente, por um Colégio Eleitoral. E deu-se a mágica! Gostei daquilo. O mundo da televisão é semelhante a um parque de diversões. No telejornalismo existe a notícia, mas as máquinas eletrônicas, as possibilidades de edição e de finalização de uma reportagem ou de um programa jornalístico misturam-se à criatividade e ao gosto dos que apertam os botões. Ou que agora clicam!… A notícia precisa ser pesquisada e captada pela câmera dentro do que pode ser captado, do que é visível, no mais, acontece uma quase mágica que agrega conteúdo, estética e apresentação que pode ir muito longe se não se tiver o deadline – o limite do tempo para o término do que eu chamo de “curta obra de arte” – a reportagem diária.

O meu espírito infantil ficou maravilhado. Antes ou depois das horas obrigatórias de estágio, no início no departamento de Apuração das notícias, eu circulava pela emissora. O primeiro andar era todo das novelas; o segundo era do telejornalismo. É inacreditável como tudo e todos cabíamos no mesmo prédio. A dois quarteirões e meio da emissora ficava o teatro Fênix que, ao contrário do nome mitológico, foi demolido e jamais renasceu das cinzas. Era onde a Globo gravava os programas de entretenimento, humorísticos e musicais. Eu alternava meus passeios, pré e pós horário de trabalho, entre o primeiro andar da emissora e o teatro Fênix. Assistia as gravações, observava o trabalho dos diretores de novelas e de espetáculos. Sempre que dava tempo – e eles permitiam – grudava em grandes diretores como o Daniel Filho e o Aloísio Legey. Eu era contratada do Jornalismo, mas minha alma implorava pela área de Entretenimento. No entanto, era o crachá do Jornalismo que me autorizava a entrar nos estúdios das novelas e nas gravações divertidas do teatro Fênix.

Em 1988, nos oito meses em que me aventurei a ser dona do meu próprio negócio – a falida produtora de vídeos -, entre outras aventuras, trabalhei com o diretor Walter Avancini. Uma colega, repórter de tevê, foi convidada para ser ela mesma, repórter, na gravação do especial Garota da Capa, sobre a vida das modelos de moda. A produção procurava outra repórter, minha colega me contou e eu me ofereci. Santo Deus, lá fui eu, mais uma vez, oferecer o que não tinha: uma bela estampa para a tevê. Mas era a oportunidade de trabalhar com um diretor polêmico, se bem que o dinheiro também foi bem razoável. Foram poucos dias de gravação, porém intensos.

Havia os que veneravam o Avancini, os que se borravam de medo dele e os que o veneravam com medo. Senti medo do homem. Era ele e uma vasta equipe atenta a ele. Um dia, o Avancini cismou de gravar no apartamento de um prédio numa rua movimentadíssima no bairro de Ipanema, no Rio. A Unidade Móvel de gravação parou na frente da portaria do prédio, os técnicos esticaram os cabos pelo lado de fora até o interior do apartamento e, na hora de gravar, um dos técnicos simplesmente parou o trânsito no começo da rua para evitar o barulho dos veículos. A gravação foi rápida, mas fiquei impressionada com a ousadia. O Avancini me assustava e eu detesto sustos. Numa gravação, no Forte de Copacabana, ponto turístico e histórico do Rio, ele chegou bem perto de mim e mandou:

– Não precisa ficar nervosa, você não vai entrar ao vivo no Jornal Nacional.

– É por isso que estou nervosa. Se fosse ao vivo pro Nacional eu não estaria. – respondi.

Assim como chegou, ele se foi. O que eu disse foi só para dar uma resposta à altura cedendo à dificuldade de manter a boca fechada. Fosse um ao vivo para o JN, ou outro telejornal, eu ficaria nervosa sim. Nervosa não, tensa. O nervoso atrapalha, a tensão me deixa mais atenta.

Com o Aloísio Legey grudei principalmente nos grandes shows musicais. O homem inventou um show, ao vivo, com a cantora Simone na Quinta da Boa Vista. Ao vivo, ao ar livre, à noite… No ensaio, na véspera, a Simone apareceu com a garganta enrolada num cachecol. Nem cantou. Fez as marcações com os músicos e tchau. O Legey andava, tranquilamente, de lá para cá, daqui para lá, e eu não via nada de especial acontecer. No dia seguinte, dia do show, ao vivo, grudei novamente no Legey. O tempo estava ruim para shows ao ar livre, nublado. Nuvens carregadas. Até que começou a chover.

– Você tá preocupado com a chuva? – perguntei achando que a resposta era óbvia.

– Não. – foi a resposta-surpresa do Legey.

– Não? Vai ter show com chuva?

– Vai parar de chover. – ele falou cheio de certeza.

Lembrou-me a lenda do Avancini! Contam as boas línguas que ele não se preocupava com a chuva nas gravações externas porque, assim que ele dissesse “gravando”, a chuva parava. E, quer saber? Num dos dias de gravação da Garota da Capa, ao ar livre, chovia. A ordem do homem era preparar para gravar. Quando o Avancini decidiu gravar, a chuva parou. Foi aí que soube da alcunha de Bruxo.  

Com o Avancini fui testemunha, com o Legey estava duvidando. Na verdade, estava achando o Legey muito maluco. A hora do show se aproximando e a chuva caindo. Cadê o diretorzão no meio das dezenas de técnicos, músicos e pessoas da produção? O encontrei, mais uma vez, andando, tranquilamente, para lá e para cá. Cheguei perto.

– Legey, tá chegando a hora e a chuva continua… – falei.

– Se não parar vou ter que colocar tudo dentro do teatro Fênix. – ele murmurou.

– Danou-se! – pensei.

Não ia dar certo. Não havia tempo para tamanha mudança. E o gasto astronômico de uma produção assim? Anoiteceu, a chuva parou e surgiu um belo céu estrelado. A voz da Simone estava ótima, tudo correu muito bem e eu fui para casa impressionada.

Com o Daniel Filho me aproximei e, equivocadamente, acreditei que tínhamos ficado amigos. Não tão amigos, mas, ao menos, muito simpáticos um ao outro. Botei os pés pelas mãos quando a atriz Dorinha Duval, que eu tietava na infância, foi acusada de matar o marido. Se a minha pesquisa está correta, ela fazia esquetes com o Daniel, com quem era casada na época, no programa Times Square, em 1963. Fui designada para fazer a reportagem sobre o crime e Deus é testemunha da minha tristeza. A Dorinha foi presa e admitiu ter atirado no marido. Ela teria reagido às agressões verbais de que “era uma mulher velha e indesejável”. Na ânsia de gravar uma entrevista com a Dorinha, na intenção que ela se defendesse (não iria conduzir a entrevista, mas queria muito dar a ela a oportunidade de se defender), bati na porta do apartamento do Daniel. Quando contei o motivo da visita, o homem ficou furioso. Pediu energicamente para eu sair da casa dele (me expulsou!) e telefonou para o Armando Nogueira. Quando cheguei na redação, havia uma ordem do Armando para eu subir.

– Não vou demitir você por estar fazendo o seu trabalho, mas vamos deixar o Daniel fora disso. – o Armando resumiu a situação.

Errei feio, mas eu não teria ido pedir ajuda ao Daniel se não fosse a imensa admiração que tinha pela Dorinha Duval. É nisso que dá ignorar o distanciamento. A imparcialidade é consequência do distanciamento.

Enfim, fui misturando as áreas da televisão. A informação com as possibilidades da tevê no todo. Ninguém me ensinou, nem estudei uma fórmula. Fui agregando o que via no Entretenimento ao Telejornalismo de uma maneira pobre e improvisada. Nem de muito longe o jornalismo tinha a estrutura, humana e técnica, do Entretenimento. Nem de muito mais longe, o “todo” tinha os recursos que tem agora. No entanto, com a forte influência do Entretenimento, foi possível roteirizar as reportagens numa sequência de gravações mais interessante; gravar imagens específicas para algumas informações do texto. Se os preços estavam “virando a cabeça dos consumidores”, por que não virar a câmera e gravar as pessoas de cabeça para baixo?

– Se eu fizer a imagem que você quer vão comer o meu fígado! – era o cinegrafista reagindo à ideia.

O cinegrafista teve razão de reagir assim. Há regras. Eles são cobrados pelo chefe deles. Na mais rasteira das alegações, eu estava me metendo na área do outro. Na teoria, o repórter se preocupa com as informações e o cinegrafista com as imagens. Só não vai cada um para um lado, o tempo todo, (às vezes íamos) porque, no final das contas, as informações têm que “casar” com as imagens, vice-versa. Eu penso que informações e imagens devem “se completar” – casados, amigos ou parceiros. Na prática, precisa haver comunicação, entrosamento, troca de ideias entre o repórter e o cinegrafista, ou repórter cinematográfico como passou a ser chamado. Entendi, muito tempo depois, que era também essa separação teórica colocada em prática que o Armando e a Alice queriam “desconstruir” (verbo em moda) para “construir“ algo novo (o que saiu de moda). Eu apenas intuía que as reportagens para a tevê deviam ter uma apresentação construída para a tevê, incluindo o momento em que o repórter aparece na tela. Há reportagens que, na minha opinião, dispensam a imagem do repórter. O texto corre tão em parceria com as imagens gravadas que a presença do repórter interrompe e atrapalha a narrativa. Nem sempre o repórter consegue algo interessante para mostrar ou para falar e fazer uma ponte segura para o que vem a seguir. Aceite ou não, ao atuar diante da câmera e interpretar um texto, o repórter deixa de ser um jornalista básico e se torna algo parecido com um ator ou uma atriz. É uma atuação que precisa ser pensada em texto e gestos. Eu ouvia dizer que o repórter, assim como o apresentador do telejornal (aí incluídas as figuras femininas) deviam ser naturais. Não! Ninguém é natural diante de uma câmera! Uma máquina que nos encara com apenas um olho! Um olho que nem pisca! … Entendi que o repórter tinha que parecer natural. Ensaiar muito para parecer natural. Foi pura intuição, não tínhamos exemplos a seguir ou para comparar na tal linguagem do telejornalismo. Era justamente o que o Armando e a Alice não queriam: exemplos para servirem de inspiração ou para se imitar. Até sair num carro de reportagem para acompanhar um repórter profissional foi limitado a duas vezes.

Dando ouvidos à intuição, pelas tentativas – acertos e erros -, seja pelo que cada um e cada uma pensou, sentiu e fez, a experiência deve ter agradado. A dupla AA – Armando e Alice – promoveu mais dois ou três cursos de formação de repórteres para a tevê. Daí eu achar engraçado escutar repórteres que chegaram depois dos cursos, quando já havíamos criado boas fórmulas, acertado e errado muito, terem a cara de pau de se apresentarem como autores da linguagem do telejornalismo. Como se, antes deles, fosse o nada. Eles disseram “Faça-se a luz! E a luz se fez”. Antes de nós, havia muito a ser observado. Quantos excelentes jornalistas, contratados como repórteres, com bons salários, foram desviados para outras funções por não conseguirem negociar com as artimanhas das reportagens de televisão? Tem tanta importância ser bem informado quanto saber colocar as informações nas exigências da tevê. A reportagem pura e precisa é uma pedra que precisa ser lapidada para a televisão. Nem tanto que a magia destrua o conteúdo, nem tão pouco do conteúdo fique sem a magia. Tenho poucas certezas nesta vida, mas uma delas é que sobrevivi por muito tempo no telejornalismo devido ao respeito pela exaustiva apuração das informações colocadas em um elegante embrulho para presente aos telespectadores.

Criar dentro das possibilidades e limites que o telejornalismo impõe, diferentemente do Entretenimento puro. Sim, porque telejornalismo também é entretenimento, ou não? Sei que este pode ser o começo de uma grande e útil discussão. Só vou dar o empurrão inicial: tudo o que é emoldurado e se destina a chamar a atenção é entretenimento. O telejornalismo é emoldurado pela tela e tem como objetivo reter a atenção do telespectador. Não é entretenimento? Fim do empurrão inicial.

Minha mãe ficou feliz da vida com a filha na televisão. No mercado da rua, no cabelereiro, esse era o assunto que ela adorava alimentar. Meu pai ficou de nariz torcido para a escolha da faculdade de Comunicação. Quando anunciei em casa que era estagiária da Globo…

– Isso não é coisa de puta? – ele atacou.

É e não é, como em qualquer lugar ou profissão. Com muito respeito às putas – ou as mulheres seriam ainda mais violentadas do que vergonhosamente são. Ao ver que continuei a mesma, até recatada demais (na minha atual avaliação), papai relaxou. Deixava escapar um sorriso de orgulho quando os amigos comentavam:

– Vi a sua filha na tevê.

Certa vez propus uma matéria divertida ao chefe de reportagem. Reuni algumas pessoas famosas para mostrarem onde e como ralaram antes da fama. O comediante Costinha foi garçom. Eu precisava de um restaurante e optei por um no centro do Rio. Seria muito mais fácil convencer um dos donos a deixar gravar. O Costinha apareceu servindo as mesas para surpresa dos clientes. Papai, um dos donos, ficou feliz. Todo prosa.

 

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