PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 29

TIETANDO NO TRABALHO

História com trechos contados no Desculpem a nossa falha

Nessa profissão de peões com roupas de grife, há dias de chafurdar na lama, dias de ver de perto – em cores e em cheiro – o sangue da violência, dias de estreias de shows, dias de gravar entrevistas com celebridades… A rotina é a falta de rotina, o que, me parece, dá no mesmo.

Estive diante de muitas pessoas “ditas” importantes, de muitas pessoas “de fato” importantes (isso depende do currículo que gera a importância que se dá ao currículo), de celebridades que conquistaram o status por direito, de celebridades construídas sem nenhum sentido, de ídolos dos outros que nada têm a ver comigo e de ídolos que têm muito a ver comigo. Tive muito prazer em estar próxima de pessoas formidáveis e nojo de precisar estar perto de pessoas “formidáveis” que me pareceram “deploráveis”. Tratei a todos com educação, mesmo os que me causam enjoo, por estar a trabalho representando uma empresa. Admito que alguns tietei desavergonhadamente.

Páginas atrás contei que mamãe dizia, com frequência, que eu só gostava de “Fittipaldi, Ronnie Von e futilidades”. Até fui uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones, à distância; perto, era a turma da Jovem Guarda que eu assistia na tevê nas tardes de domingo. Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. Guitarras e cabeludos, nem tão cabeludos assim. O Ronnie Von nunca foi da turma da Jovem Guarda, mas era da minha. Não bastasse o cabelo liso, caindo no rosto qual uma cortina pesada; quando ele jogava a cabeleira para trás, apareciam dois olhos belíssimos que até hoje não sei direito a cor (azul, verde, verde-azulado), nem vendo bem de perto.

Pois é, o repórter pode – e deve – sugerir pautas. Não me peça para lembrar o tema, lembro das personagens da reportagem: Ronnie Von e Wanderléa. A intenção? Conhecer os dois bem de perto. Sugeri a pauta, e lá fui eu para São Paulo.

A primeira gravação foi na casa da Wanderléa, se a memória não me falha, na Serra da Cantareira. Eu estava estranhamente tensa. A gente nunca sabe o que vai encontrar, ou quem. Mais exatamente, como é quem vamos encontrar. Eu conhecia a Wanderléa “Ternurinha”, mas podia não ser nada disso. De repente, surgiria uma mulher grosseira, de mau humor, e eu me arrependeria muito de ter dado a ideia da pauta. Pior que ser uma péssima personagem para a reportagem, seria o desmoronamento de uma admiração de muitos anos. Bendito seja, encontrei uma “Ternurinha” doce, simpática, educada… e realmente terna. Gravamos a entrevista e ficamos de conversa. Tirei poucas fotos relacionadas ao trabalho. Não me dava ao trabalho de levar a máquina fotográfica na bolsa e muito menos de gastar dinheiro com a revelação. Nessa reportagem, a máquina foi. O cinegrafista tirou a foto – minha com a Wanderléa – no exato momento em que tricotávamos como duas comadres. Anos depois, convenci o Renato Cunha (apresentador do programa Agenda, da Globonews, que eu coordenava) a convidar a Ternurinha para uma reportagem. Nada a ver com o Renato, gerações diferentes, mas ele gostou dela e deu tudo certo. Não há como não se gostar de pessoas do bem.

Em São Paulo, no dia seguinte, ou no mesmo dia, não lembro e não faz diferença, fomos à casa do Ronnie Von no bairro do Morumbi. Ctrl+c, ctrl+v, a mesma expectativa do encontro com a Wanderléa, a caminho do encontro com o rapaz do cabelo escorrido e belos olhos. O tempo havia passado, a vasta cabeleira foi cortada, mas lá estavam os belos olhos e um belo sorriso. E se fosse apenas isso? Bendito seja também, meu ídolo de juventude é um homem gentilíssimo, fino, educado, boniiiitttoooo!!!!… e cheiroso. Gravamos a entrevista, ele nos ofereceu chá e aceitei para esticar o tempo com o meu ídolo de juventude.

Com a Wanderléa e com o Ronnie Von, me apresentei logo como repórter e fã. Daí a foto com a Wanderléa parecendo íntimas e a foto com o Ronnie que fiz questão de aparecer olhando para ele meio que babando. Conversa vai, conversa vem, a Cristina, esposa do Ronnie, apareceu na sala. Tudo bem, afinal, fui ver meu ídolo de perto, não fui propor casamento a ele. Conversa vai, conversa vem, falei para a Cristina que eu tenho um bonequinho do Ronnie com o cabelo comprido. Na época da Jovem Guarda, lançaram os bonecos do Roberto, Erasmo, Wanderléa, Ronnie e não sei mais quem. Pois eu tenho o do Ronnie.

– Você tem? Me dá? – ela tentou.

– De jeito nenhum! – neguei de imediato.

– Ah, me dá? Eu não tenho!… – ela insistiu.

– Menina, você tem o original e quer o meu bonequinho?…

Foram horas muito agradáveis. Dei meu telefone para o Ronnie – na frente da Cristina – para mantermos contato. Um dia, minha mãe atendeu o telefone.

– Maria Fernanda! Tem um palhaço aqui dizendo que é o Ronnie Von!…

Era o Ronnie Von.

– Conseguiu? Que mulher gulosa!… Beijos pra família toda! – era eu ao telefone.

O Ronnie me contou que estava ligando a pedido da Cristina para me dizer que ela havia conseguido um bonequinho igual ao meu.

– Quem era o palhaço? – mamãe perguntou.

– O Ronnie… Von…

Não mais nos vimos, nem nos falamos. Mas a foto está aqui, bem perto de mim. A da Wanderléa também.

Por causa da liturgia do meu cargo, conheci muitas celebridades bem de perto. Páreo duro com os olhos e o sorriso do Ronnie foi o John Travolta. Era a época áurea do garotão do filme Os Embalos de Sábado À Noite. É possível que ele tenha vindo divulgar o filme no Brasil. De certo, encontramos o Travolta na sala VIP do aeroporto internacional no Rio. Eu, o cinegrafista e o John Travolta. Altíssimo, ao menos para mim. O homem abriu o sorriso, me olhou nos olhos e disse:

– Hi!…

Silêncio na sala VIP. Meus olhos não sabiam se ficavam nos olhos cor de violeta, nos dentes branquíssimos ou na covinha do queixo. O que Deus pretende quando coloca no mundo pessoas com tamanha beleza?

Hi!…

Acordei. Era o segundo “Hi!” na expectativa de uma entrevista.

Hi!… – respondi.

O que era mesmo que eu ia perguntar? Como era mesmo em inglês o que eu ia perguntar?

Sorry

Sei lá o que perguntei. Devo ter partido para o óbvio: É a primeira vez no Brasil? Conhece o Brasil? O que pretende fazer no Brasil?

Thanks

Imagine uma pessoa inebriada, patética, pateta!… E ele lá foi com o andar gingado que eu – e a maior parte dos seres deste planeta – conhecíamos dos Embalos. O filme foi um sucesso estrondoso. Quem podia comprar discos, comprou a trilha sonora. E dançou a coreografia famosa.

Reparo como as pessoas andam. As pessoas e os animais. Aprecio o jeito de andar do Travolta, do ator Richard Gere e do nosso ator Cauã Reymond. Com as mulheres perde muito a graça por causa dos sapatos de salto alto; parecem todas iguais tentando se equilibrar. Mas, entre as mulheres, o andar que me chamou a atenção foi da cantora Tina Turner que reparei quando ela passou por mim, muito perto, de salto alto, minutos antes do show no estádio do Maracanã, no Rio. O Cauã vi de perto numa das edições do Criança Esperança, um programa anual promovido pela Rede Globo em parceria com a UNESCO. Eu estava com o Renato Cunha tietando mais uma direção do Aloísio Legey. Foi engraçado porque olhei para as cadeiras do rapaz, tive a certeza que era o Cauã e só depois subi para o rosto. Bingo!…

– Meu Deus do céu, se comporta!… – era o Renato percebendo que eu não tirava os olhos do Cauã.

– Ah, me deixa olhar!..

Um dia, fui cobrir o show da cantora Sarah Vaughan no falecido Canecão, no Rio de Janeiro. Quem fazia a assessoria de imprensa era a Ivone Kassu. A Kassu tinha momentos muito engraçados, embora fossem raras as vezes que não a vi tensa.

– Fernanda, tem que ser rápido! – ela deu a ordem.

bom, vai ser rápido. – concordei.

Entramos no camarim, nos apresentamos, montamos o equipamento e chegou o jantar.

– Kassu, feijão com arroz?

– Não é? Ela viu os funcionários comendo feijão com arroz e também quis.

Pedi ao cinegrafista para gravar o encontro de Sarah Vaughan com o feijão com arroz. La Vaughan estava maravilhada. Encontrou uma folha de louro.

What´s this? –perguntou.

– Louro. – expliquei.

Lorrô? – ela tentou.

– Lou-ro. – repeti.

Lourô?

– Lôu… ro…

Lôro?

Okey, it´s fine. – aceitei.

Foi tudo gravado. E essa foi a chamada do JN no dia seguinte. Algo como “A cantora Sarah Vaughan está no Brasil e se encantou com a feijoada e a folha de louro”. Foi divertido.

Gravei uma reportagem com o cantor, compositor, dançarino, produtor musical e grande figura, James Brown, num Festival de Cinema no ressuscitado Hotel Nacional. Ele era engraçado. Na coletiva havia uns trinta jornalistas, oitenta por cento mulheres. E Brown estava empolgado. Enquanto respondia às perguntas, fazia cócegas nas costas de uma jornalista sentada ao lado dele. A pobre se esticava e encolhia. A entrevista coletiva terminou e James Brown me pegou pela mão e começamos a dançar. Fui no susto.

No, please, no… – era eu tentando parar o bailado.

– Mister Brown, no, please, stop… – eu pedia.

Percebi os flashs das máquinas fotográficas disparando em volta. Aquilo ia ser uma farra nas páginas.

Please, stop! – falei firme, mas com doçura.

Ele me soltou. Nada a ver engrossar, é pior! Lembram quando escrevi que, às vezes, uma reação brusca é melhor para a tevê do que uma resposta à pergunta? Então, é isso. E não tinha por que engrossar. O homem só estava fazendo o que se esperava dele: ser agradável. Mas eu não queria aparecer nos jornais e revistas rodopiando com James Brown ou quem quer que fosse. Talvez fosse até bom para eu aparecer, me divulgar, sei lá. Cheguei a perguntar ao cinegrafista que estava comigo se ele havia gravado. Não. Dei com a foto na revista Imprensa. No mais, não sei, até porque não procurei.

Outra celebridade que rendeu uma reportagem no Jornal Nacional foi a atriz Bo Derek, a chamada Mulher Nota Dez. Eu nem sabia disso quando fui para a coletiva de imprensa. Aliás, eu não sabia nada sobre ela. É, não fiz o dever de casa. Nem sempre dá tempo. Repórter da geral, como eu era, ou seja, pau pra toda a obra, recebe as missões, na maioria das vezes, na surpresa. Surpresa e pressa.

– Vai logo! – é o chefe.

Ou, ao anunciar que terminamos uma reportagem, o chefe manda para outra. Nesse embalo de quase todos os dias, fui para a coletiva da Bo Derek. Quando é assim, especialmente numa coletiva, eu deixava os coleguinhas fazerem as perguntas e escutava. Dessa vez, noventa por cento dos jornalistas eram homens. E homem é um bicho muito bobo na frente de uma bela mulher. Ficaram num rame-rame, chato… Uma babação…

– Você não vai perguntar nada? – era o cinegrafista.

Estava comigo nesse dia, comandando a câmera, o Marcelo Alexim que fala muito bem inglês.

– Você tem alguma sugestão? – perguntei.

Não tinha. O Marcelo era um rapaz bonito, com os cabelos compridos, informado, formado…

– Eu entendi que ela está no Brasil pra filmar. Um filme sobre o Tarzan, não é? – conferi com o Marcelo.

– Foi o que entendi também.

– Ela disse quem vai ser o Tarzan?

– Não.

– Então, vai ser isso. – decidi.

Pedi a palavra e o Marcelo apertou o rec da câmera. Perguntei quem seria o Tarzan? Algum ator brasileiro?

I´m looking for... – ela respondeu.

Estava procurando? A Bo Derek estava procurando o Tarzan no Brasil? E essa foi a chamada do JN, com o apresentador Cid Moreira: “Bo Derek, a Mulher Nota Dez, está no Brasil à procura de um Tarzan!”. Teve até concurso num jornal popular de papel – como dizia a Alice-Maria – para escolher o Tarzan da Bo Derek!

( a seguir, a primeira entrevista…com Caetano Veloso. Paguei um micão! )

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