PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 28

O ENCONTRO COM SENNA, A SÓS

 

Costumo dizer, convicta, que tudo o que sei fazer direito nesta vida é dirigir carros (já fui melhor). Gosto de carros, daí a inclusão do Fittipaldi no que mamãe avaliava como uma das distrações desastrosas na minha juventude.

– Só pensa em Fittipaldi, Ronnie Von e futilidades! – era mamãe, irada.

Cheguei mesmo a pensar na possibilidade de investir na carreira automobilística. Li muito sobre o assunto, sobre os primeiros passos. O kart, por exemplo, eu já havia perdido, porque se começa em criança. Só me sentei num kart com mais de cinquenta anos de idade, em um kartódromo in door. Estreei na companhia de um campeão de kart. Ele alugou a pista só para nós, me deu algumas dicas e me empurrou o tempo todo (empurrou mesmo, com o kart pilotado por ele embutido no kart pilotado por mim!) para eu perder o medo de acelerar e fazer as curvas de pé embaixo. Cheguei a casa em estado de graça. E muito mais arrependida de não ter levado adiante a vontade, muitos anos antes.

Depois do kart, tem as diversas fórmulas para aprendizado e mostra de talento, a necessidade de se morar na Inglaterra e, o maior dos desafios, dinheiro, próprio ou de alguém disposto a investir. Os sobrenomes em geral são pomposos. O nosso Ayrton era “da Silva” e também “Senna”. E mundo conheceu o “Ayrton Senna” ou o “Senna”. Só passou a ser chamado de “Ayrton Senna da Silva” quando mostrou do que era capaz, ainda assim por brasileiros como o narrador de Fórmula Um da Globo Galvão Bueno que acrescentava mais um sobrenome: “Ayrton Senna da Silva. Do Brasil”. Embora a maioria seja bem sonora no automobilismo, o sobrenome não me parece fazer a diferença. Fosse o Senna o Ayrton das Couves, seria da mesma forma genial. Excepcional. Competência, determinação, carisma, com os momentos necessários de Dick Vigarista – o vilão das pistas dos desenhos animados da Corrida Maluca.

Não gosto de domingos, desde criança. Segunda-feira era dia de recomeçar a semana na escola. Adulta, trabalhando fins de semana sim, fins de semana não, continuei com o meu nariz torcido para os domingos. Acho um dia triste. Um dia que não fede nem cheira. Vem depois da euforia do sábado e precede a preguiça da segunda. Enfim, nunca gostei dos domingos, exceto as horas das tardes que passei assistindo ao programa Jovem Guarda, na década de sessenta do século XX (eu tinha 9 anos de idade!) e as horas das manhãs dos domingos acompanhando as corridas de Fórmula Um. Continuo acompanhando as corridas, apesar da falta de protagonistas brasileiros. Com o Emerson Fittipaldi e o Nelson Piquet era muito bom, mas, com o Senna, era maravilhoso, até chegar o maldito domingo de primeiro de maio de 1994. Óbvio que eu estava vendo a fatídica corrida em Imola, na Itália. Depois do carro bater no muro, quando a cabeça dele tombou para o lado, tive a certeza que estava morto. As poucas horas de alegria aos domingos tinham acabado. Chorei muito. Na minha restrita galeria de pessoas admiráveis, está Senna. E eu posso dizer que tivemos um encontro (eu e o Ayrton), a sós, numa praia deserta, à noite. O que isso tem a ver com o telejornalismo? Nada, penso eu. Telejornalismo, histórias, histórias, telejornalismo…

Noite sim, noite não, eu levava meu adorável Alfrey, um dog alemão, para extravasar a energia em corridas na areia da praia de São Conrado. Meu amigão se esbaldava com as cascas de coco (lixo deixado pelos humanos) e as maria-farinhas – um caranguejo com a carapaça branca e amarela que as ondas deixavam descoberto quando voltavam ao mar. Era o final da década de oitenta. Havia prudência, não medo ao se sair de casa na cidade do Rio de Janeiro. Além do mais, eu estava muito bem acompanhada. Alfrey tinha setenta e três quilos. Adultos e, a maioria, crianças, ficavam deslumbrados com o grande e belo cachorro cinza (oficialmente azul).

– É um cachorro ou um cavalo? – perguntavam.

– Chega perto. Se morder, é um cachorro; se der coice, é um cavalo. – eu respondia.

Ninguém tirava a prova, embora Alfrey jamais tenha machucado alguém. Ele não gostava que me dessem tapas, nem tapinhas carinhosos, mas se limitava a latir como alerta. Bastava o latido grosso. Também eu nunca disse a ele o que devia fazer. “Quieto!”, “Atenção!”, “Vai!”, “Fica!”… nada disso. Nos quase oito anos de convivência, Alfrey tomou as decisões certas por conta própria. Não sei se seria capaz de atacar alguém, não foi preciso. Bastava latir que a criatura mais exaltada perto de mim se afastava. Então, eu e Alfrey estávamos sentados num banco de concreto no calçadão da praia (Alfrey tinha a mania de sentar no colo!), quando avistei uma figura se aproximando. O homem vinha correndo, fazendo exercício. Ele se aproximava e eu pensava que o conhecia de algum lugar. E ele foi chegando perto.

– De onde conheço esse homem? – me perguntava agoniada.

Até que, bem onde eu estava com Alfrey, ele fez a volta, mas, antes, sorriu e …

– Ôi!…

Não acreditei.

– O Senna! O Ayrton Senna, estúpida! – falei para mim mesma. – Abestada! Ele disse ôi!

Pois assim foi o meu encontro a sós com o Senna, à noite, numa praia deserta. Menti?… Encontro a sós entre humanos e o Alfrey de testemunha. Como repórter de televisão conheci muita gente famosa. Alguns, poucos, foram por mim incensados em adoração. O Senna encontrei assim: À noite, no calçadão de uma praia deserta. Eu, com os pensamentos sabe Deus onde, conversando com o meu amado cachorro. Confesso que voltei para casa na dúvida se tinha tido uma visão. Foi real. Na época, a Fórmula Um, no Brasil, ainda era disputada do autódromo de Jacarepaguá (desaparecido em 2012 com as obras dos Jogos Olímpicos de 2016), no Rio de Janeiro. Pelo que me informei, os pilotos ficavam hospedados em um hotel no bairro de São Conrado.

Gosto de bichos e de carros. Quem sabe eu teria disputado com o próprio Senna um campeonato de Fórmula Um caso eu levasse adiante, profissionalmente, minha paixão que começou ainda criança? Fernanda Esteves do Brasil!!!… Quem sabe? Ninguém sabe nem há de saber, porque simplesmente não cavei nenhuma chance de acontecer. “Vontade é coisa que dá e passa”. Paixão não basta.

O telejornalismo não foi uma tendência desde cedo, como muitos sentem e eu invejo; não exatamente a profissão jornalista, mas a determinação desde criança de se saber o que se quer da vida, ainda que seja coisa nenhuma. Caso ainda se lembrem do início deste livro, tudo começou com uma aposta entre mim e o professor da faculdade. Fui indo, fui indo e me encantou o todo da tevê. Dei muito e o melhor de mim. No todo, aprendi um pouco sobre telejornalismo. Simples assim.

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