PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 27

COM O PRESIDENTE FIGUEIREDO NO SHOPPING

Versão da história contada no Desculpem a nossa falha

 

Outra promessa a ser paga. Lá vai.

Quando desabafei nas barbas do Collor que gostava do Figueiredo, gostava mesmo. Para os jornalistas ele era uma delícia. “Gosto mais de cavalos que de gente”, “Quero que me esqueçam”… São algumas das declarações que saltaram aos olhos nas manchetes e ecoam na história. O presidente João Batista Figueiredo era um espetáculo para a imprensa. Certa vez, insisti tanto em fazer perguntas, enquanto caminhávamos a passos largos, que ele parou, me pegou no ombro esquerdo com muita firmeza, baixou minha mãozinha com o microfone e sussurrou:

– Você acha que o presidente pode tudo? Pensa que é só sentar naquela cadeira e mandar?

Não chegou a ser um ato de violência, mas fui arriando do lado esquerdo.

– Eu ainda vou escrever um livro contando como é…

E lá seguiu reto, como se nada tivesse acontecido. E eu fiquei no “ora, veja” massageando o ombro esquerdo.

– O que ele disse? – eram os coleguinhas em volta de mim.

Prato cheio o presidente cochichar no meu ouvido, só que não repassei o que ele me disse ao pé do ouvido. Ora, eu não tinha gravado e ia dar a história de bandeja? Eu mesma não podia usar. Como eu ia provar o que o homem tinha me sussurrado ao ouvido se nem ao menos alguém tirou uma foto do momento? Estou contando agora por ser um exemplo do show que o presidente Figueiredo dava; e porque o livro é meu.

Em outra ocasião, na véspera da véspera de Natal, o presidente Figueiredo resolveu fazer compras à noite no Barrashopping, na Barra da Tijuca, no Rio. Ele morava em Brasília por causa da “liturgia do cargo”, mas estava constantemente no Rio de Janeiro onde tinha residência e onde voltou a morar quando deixou a presidência – pelo portão lateral do Palácio do Planalto, sem passar a faixa presidencial a ninguém. E com o pedido: “Me esqueçam!”. Nem sei como é que não montou num cavalo e saiu em disparada. “Alô, Silver!…

Até por causa do exercício contrariado do cargo de presidente, público e notório, Figueiredo passava muitos fins de semana e datas festivas no Rio de Janeiro. Eu achava uma chatice. Presidente no Rio significava plantões extras. Horas intermináveis de vigília sem acontecer nada. E eis que, numa véspera da véspera de Natal, alguém telefonou para a redação da TV Globo e deu o serviço: o presidente ia às compras.

– Fernanda, uma pessoa ligou dizendo que o presidente Figueiredo vai fazer compras no BarraShopping. – disse o chefe de reportagem. – Pode ir.

Achei a história descabida. O presidente fazendo compras no shopping, ainda por cima o Figueiredo, e alguém avisando? Isso estava cheirando a trote. Mas foi verdade. Encontramos o presidente com netos e seguranças. O homem estava muito resfriado, dava para ver de tanto que fungava no lenço. Gozando de boa saúde, ele já era de deixar os jornalistas tensos, imagina espirrando e fungando?

Acontece que o jornalista tem que se habituar cedo a ser maltratado, não reagir e insistir em continuar a ser maltratado. Então, lá estava eu com o cinegrafista César Tinoco com uma CP (câmera de filme, lembra?) no ombro, sem assistente para levar a luz de mão – o famoso sungun. A iluminação não passava de uma lampadinha sem vergonha acoplada à câmera.

Armou-se um fuzuê no shopping. Presidente, netos e seguranças entrando e saindo das lojas para escolher presentes. Curiosos aos montes tumultuando. Uma coisa estranha: de jornalistas, só eu e o Tinoco e os assessores de imprensa do shopping. Quem telefonou para a nossa redação não avisou a mais ninguém. Ou os outros avisados também acharam que era trote e não foram?… Melhor sem a disputa com os colegas, mas tumulto suficiente para o Tinoco dar conta sem um assistente. E aqui eu preciso encaixar um curto perfil do Tinoco.

Conhece o marinheiro Popeye? Eu o chamava assim. Tinha os braços musculosos iguais aos do Popeye. Vivia brincando de dar socos nas paredes ou no que encontrasse para testar a resistência dos ossos das mãos. Um dia ele deu um soco na porta do carro de reportagem e lá ficou o soco moldado no aço. Por nada, mania. O pugilista amador mais doce que conheci. Um profissional corajoso, guerreiro, mas um pouco atrapalhado. Com esse perfil em mente, pense agora que lá íamos eu e o Tinoco em meio à avalanche de presidente, netos, seguranças e curiosos. Eu de microfone em punho, pronta para o ataque, e o Tinoco com a luz acoplada na câmera, andando de costas para gravar a turba. E eis que vejo a luz da câmera fazer um risco no teto do shopping. Gargalhadas. Tinoco havia caído no meio da vegetação de uma das várias cantoneiras decorativas. Eu ia socorrer o Tinoco, mas o presidente se adiantou.

– Levanta, meu filho. – era o presidente Figueiredo dando a mão para o Tinoco.

– Filma que é a mão do presidente! – era eu no ouvido do Tinoco no meio das plantas.

Que cena! O rosto do presidente num superclose com o sobe som: “Levanta, meu filho.” Eu bem conhecia a força da mão do presidente. Tinoco aceitou a ajuda e emergiu das plantas, todo envergonhado… O Tinoco era capaz de amassar a porta de um carro com um soco, por mania, e também era capaz de se enrolar de vergonha como um tatú-bola por nada. Ali estava um tatu-bola com a câmera ligada. E estava encerrado o passeio de compras do presidente. O homem foi embora com os netos, devidamente escoltado pelos seguranças, e nós ficamos à beira da cantoneira avaliando o acontecimento.

– Será que gravou? – perguntei ao Tinoco.

– Não sei, mas fiquei com a câmera ligada o tempo todo.

A gente teria que esperar os intermináveis quarenta e cinco minutos da revelação do filme na emissora para tirar a dúvida. Conformada, olhei para a carinha sem graça do Tinoco, para a vegetação amassada da cantoneira… e caí na risada.

– Você ri, né?

– Desculpa, mas estou voltando a fita. – falei. – A luz da câmera no teto do shopping e o povo rindo. Olho para trás e vejo você no meio das plantas que nem um gafanhoto. Eu ia te ajudar a sair da mata, mas o presidente chegou antes.

– Puxa a vida…

– Se a câmera gravou, é festa!

Mas precisávamos ser mais do que otimistas para ter essa esperança. A luz estava muito perto do rosto do presidente. O mais provável era termos uma imagem lavada, chapada. Mas, quem sabe um assessor de imprensa do shopping tivesse tirado uma foto?

– Você fotografou o presidente puxando ele? – perguntei.

– Não.

– Assessor de merda… – pensei.

A verdade é que todo bom jornalista pode ser assessor de imprensa, mas nem todo bom assessor de imprensa pode ser jornalista. Como aquela criatura, de câmera fotográfica na mão, perdeu a foto do presidente dando a mão ao Tinoco no meio das plantas?

Como a realidade previu, a revelação do filme mostrou uma imagem lavada, chapada. Tudo estourado por causa da luz perto demais. Tivesse um assistente com a luz portátil, menos perto, a imagem estaria salva e entraria para a História. Ouvia-se a voz do presidente em meio à balbúrdia no shopping, mas isso era nada.

Por essas e outras é que eu afirmo que ser telejornalista é muito mais difícil. A história está nas mãos, mas vale quase nada sem as imagens. Um jornalista de jornal ou revista ou rádio faria uma festa com a situação, porque tem a liberdade de um texto que independe de fotos, embora, neste caso, a foto fosse fundamental para o todo da boa história.

No telejornalismo, muito pode ser contado sem imagens, em notas lidas pelo apresentador (a), mas não que o cinegrafista caiu dentro da cantoneira e que o presidente da República o resgatou, dizendo: “Levanta, meu filho”. Isso é para ser mostrado e ouvido! Ou contado aqui, em livro.

 

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