PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 26

A BOBEIRA QUE VIROU BOA NOITE NO JN

Versão da história contada no Desculpem a nossa falha

 

Já dizia minha mãe: “Promessa é dívida”. Prometi contar como a brincadeira gravada para o editor se divertir na ilha de edição foi exibida no Jornal Nacional. Era mais uma época de Natal. Todos os anos tem Natal, Ano Novo e Carnaval.

– Puxa, Fernanda, agora você extrapolou nas novidades. – alguém deve estar pensando.

Pois é, todos os anos tem, né? No Brasil, até agora, também tem carnaval. Nos dias de folia, todos trabalhavam, nada de folgas. No natal e no ano novo, dois grupos se revezavam. Um trabalhava uma semana, três horas a mais por dia no natal, para folgar uma semana no ano novo, vice-versa. Até valia a pena quando as folgas eram na virada do ano. As folgas de natal passavam, pegávamos a brabeira do plantão de ano novo e, exaustos, seguíamos adiante com a vida normal. Nesse ano, meu plantão foi no natal. Uma semana fazendo matérias sobre o mesmo tema: natal. Haja criatividade dos que fazem as pautas. Era o dia 24 de dezembro, o dia da noite de natal, das festas e dos presentes, um ou outro lembrando do aniversário de Jesus Cristo no dia seguinte. Fazia muito calor no Rio de Janeiro, outro acontecimento anual que não falha. Já havíamos gravado matérias para a primeira edição do telejornal local e para o Jornal Hoje. Faltavam matérias para a segunda edição do telejornal local e, quem sabe, para o Jornal Nacional. Acontece que o assunto estava esgotado. Éramos uma equipe de reportagem, sentada no banco de uma praça no bairro da Tijuca, arrasada pelo calor e pela total falta de inspiração. Trocávamos olhares.

– Alguém tem alguma ideia? – perguntei encolhida no banco da praça.

Nada. O tempo passando e … nada. O sol nos fritando os miolos.

– Pega a câmera! – levantei do banco, de supetão. – Vamos gravar umas besteiras que eu sempre quis gravar. É agora!

– Gravar besteira? – o cinegrafista reagiu. – Nesse calor?

– É. Vamos sair gravando e ver o que acontece.

O cinegrafista se levantou com a câmera, contrariado, e o técnico o acompanhou, com o enorme e pesado VT pendurado no ombro. A câmera ainda era agarrada por um cabo ao VT que gravava a fita de vídeo e áudio. Depois, as câmeras se tornaram mais compactas com o vt embutido. O técnico passou a ficar por perto do cinegrafista para eventuais ajudas e quando havia a necessidade de iluminação especial. Mas, nesse dia, cinegrafista e técnico ainda andavam amarrados.

Saí entrevistando as pessoas na praça movimentada.

– Quer desejar feliz natal pra alguém especial?

– Sabe cantar uma música de natal?

As pessoas mandavam feliz natal para os familiares, cantavam músicas de natal, uma farra. Eu me sentia o Sílvio Santos animando a praça. Até que, depois de muitas gravações, aproveitei a deixa de um rapaz que desejou feliz natal para nós, da reportagem. Virei para o técnico e …

– E você, quer desejar feliz natal pra quem? – perguntei.

Muito sem graça, com os fones nos ouvidos, o técnico desejou feliz natal para todos da família dele e para todos que, como nós, estavam trabalhando. Foi aí que me virei para a câmera, de braço dado com o técnico e …

– Então, feliz natal pra todos!

Esse final era para a moçada da edição. Enviei a fita com a maluquice para a redação, pelo motoqueiro, e expliquei pelo rádio do carro que me ocorreu fazer uma colagem das falas e das pessoas cantando. Nem tinha vídeo meu. O motoqueiro foi para a emissora e nós continuamos rodando pela cidade procurando o que fazer. Horas depois, nos chamaram pelo rádio do carro. Era o chefe de reportagem.

– Fernanda, a Alice pediu para você se arrumar e regravar o final da matéria que vai ser o Boa Noite do JN.

– Eu não acredito. Regravar o final? Eu estava brincando com o editor! Não é pra entrar na matéria… – expliquei.

– Regrava e trás. – o chefe resumiu.

Voltamos para a praça. Enchi o rosto de maquiagem, penteei o cabelo e regravamos o encerramento da matéria várias vezes. Ficou falso. A virada para a câmera, agarrada ao braço do técnico, tinha sido espontânea e muito à vontade. À vontade demais, porque não era para entrar na matéria, mas entrou, porque nenhuma das regravações serviu. Apareci no exigente JN sem maquiagem e descabelada. Muito pior que sempre!… Por que? Porque estava muito simpático. Era para os comparsas da edição, mas pareceu que estávamos desejando feliz natal para os telespectadores. E, quer saber uma verdade? Todas as vezes que revejo essa matéria me emociono. As pessoas que gravaram as entrevistas e as músicas de natal estavam sinceramente no clima festivo. O encerramento também estava, afinal, o desejo de feliz natal aos editores era sincero.

– Tentamos usar os encerramentos regravados, mas não deu. – me disse a editora da matéria. – Só o que você estava sem maquiagem combinava.

Não me lembro de ter comentado, depois da exibição, a matéria do Boa Noite com a Alice. Lembro que pensei: Tiramos o terno e a gravata do Jornal Nacional. De maneira simbólica, claro.

– Mas, Fernandinha, por que você estava sem maquiagem e descabelada? – alguém pode estar perguntando.

Porque estava um calor de derreter o cérebro, quanto mais a maquiagem. O cabelo estava desgrenhado pelas tantas vezes que passei a mão suada. Gente, eu coloco maquiagem e dou de fazer besteira no trânsito!… Se há algo que eu faço bem nesta vida é dirigir automóveis. Pois, com maquiagem, me sinto estranha, fico com o rosto petrificado, não mexo os olhos, sei lá o que me dá. Eu só colocava a maquiagem quando ia gravar o vídeo. No mais, rosto lavado. Muitas vezes suado. Até por isso, atrasei bons anos de envelhecimento facial. Atrasei, não impedi!… A maquiagem acaba com a pele, envelhece sim.

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