PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 25

( continuação…)

Na expectativa em relação aos planos para deter a inflação, de um minuto para o outro, numa entrevista coletiva ao vivo, milhões de brasileiros ficaram sabendo pela tevê que tinham a quantia miserável de cinquenta mil cruzados para sobreviver um mês. Outros milhões nem isso tinham, mas ficaram paralisados com o susto na mesma. O dinheiro guardado na Poupança foi confiscado pelo governo. Foi tudo tão absurdo que, quanto mais a ministra explicava, menos os analistas econômicos entendiam. Tenho para mim que eles não conseguiam acreditar no que estavam entendendo. Lembro-me, como se fosse hoje, a cara da Lilian Witte Fibe, então apresentadora e analista econômica na Globo, fazendo força para segurar o que realmente estava pensando na bancada do estúdio ao lado do também analista de economia Joelmir Betting. Adoro a Lilian. Gosto do jeito como ela resume os acontecimentos e, especialmente, da falta absoluta de paciência para dar voltas antes de ir ao ponto X. Nas Meninas do Jô, uma boa ideia de reunir mulheres jornalistas, bem informadas, para analisar os acontecimentos no país, enquanto o grupo falava em “desvios de dinheiro”, a Lilian resumiu: “Roubalheira!. A Lilian fica indignada e mostra a indignação. Com o sotaque paulista chega a ser engraçado.

– Cinquenta mil cruzados? – era a Lilian atônita.

Não é porque somos jornalistas que estamos imunes às intempéries. Eram míseros cinquenta mil cruzados para os brasileiros, incluindo os jornalistas, incluindo os apresentadores de tevê e analistas de economia. De um dia para o outro, tinha gente vendendo dólar guardado em casa pelas esquinas do país. Um caos! Pessoas enfartaram, se suicidaram! Empresas faliram. Foram meses com os brasileiros maldizendo Collor e Cia. Conheço pessoas que haviam acabado de vender o único imóvel para comprar outro e ficaram sem nada com o dinheiro da venda confiscado. Mas, repito, ao voltar com a minha preciosa entrevista gravada com a nova ministra da economia para a emissora, eu nem sonhava com o confisco. Quero dizer, os pobres mortais sequer sonhavam com tamanha maluquice. Entrevista exclusiva para o JN com a nova ministra da economia do Brasil. A chefe de reportagem me esperava com a habitual cara de nojo.

– Conseguiu a entrevista?

– Está aqui.- estendi a mão com a fita.

– Gravou a entrevista com a Zélia?

– Está aqui. – repeti de mão estendida oferecendo a fita.

– E você perguntou qual vai ser o primeiro ato dela como ministra?

– Está aqui. – continuei com a mão estendida segurando a fita.

A mulher me fazia perguntas e não pegava a fita. Pegar a fita era admitir que a missão cumprida, muito bem cumprida. Anos depois, encontrei essa criatura trabalhando numa campanha política no fiofó do Brasil. Foi tão simpática que até me emocionei. Sou uma pessoa do tipo vira-lata. Fez festa, o rabinho abana e esqueço a grande maioria das ofensas. Quase todas.

Lembro, ainda adolescente, me desentendi com uma menina do colégio. Trocamos de mal. Um dia, estava eu andando na rua e a vi no ponto de ônibus. Fiz a maior festa! Horas depois é que me lembrei que havíamos brigado. E só aí reparei na cara de assustada que ela fez com a minha empolgação em vê-la. Paciência. Melhor assim, embora os adjetivos em relação à minha pessoa se espalhem: maluca, falsa, hipócrita, interesseira, boba, abestalhada…

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