PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 30

TIETANDO NO TRABALHO

(continuação )

Minha primeira entrevista com alguém famoso foi com o Caetano Veloso, em 1979. Era uma exibição para convidados do filme Anchieta José do Brasil, dirigido por Paulo Cesar Saraceni. Acender a luz de mão – o antigo sun gun – durante o filme, nem pensar. Então, nada de imagens dos convidados famosos. Esperamos a exibição terminar e, de microfone da mão, pesquei o Caetano no meio da multidão que dispersava. Fiz uma pergunta tão inteligente sobre o cinema nacional que nada mais restou ao Caetano senão concordar.

– Sim. – ele disse.

E nada mais perguntei. EU NÃO TINHA UMA SEGUNDA PERGUNTA!!!… Daí em diante, nunca mais parti para uma entrevista sem pelo menos três perguntas na manga.

Em casos de entrevistas e entrevistados difíceis, um dos truques que usei muito foi fazer uma primeira pergunta light, para o entrevistado relaxar, e a segunda para valer. Ou duas para relaxar e a terceira para valer. Truque que passei a usar com a câmera eletrônica, com fitas regraváveis de vinte minutos. Com a câmera de filme, com apenas cem pés (cerca de três minutos) para gravar, mal dava para reportagens com começo, meio e fim. E foi com uma câmera de filme que entrevistei o Caetano pela segunda vez. Escolada, garota esperta, não repetiria o erro.

– E aí, Caetano, como é o show? – mandei.

Caetano falou muuuiiiitttoooo!!!!! A resposta não terminava. Eu escutava o filme rodando na máquina. Foi muito além dos cem pés e nem havíamos gravado imagens do show. Levei uma bronca fenomenal do chefe de reportagem por ter estourado – muito – a cota de filme. Lição: Várias perguntas diretas e precisas no gatilho. Nada de perguntas “no geral”, do tipo: Qual a sua opinião sobre o Brasil?… Ou “Como é o show?”…

Bem, e estive na casa do Roberto Carlos. Será que posso contar?… Vou me arriscar, não reconheço o Roberto que vi na confusão das biografias não autorizadas. Mas esta é a minha biografia profissional. Então, vamos lá. Foi a terceira ou a quarta vez que entrevistei o Roberto Carlos. Nas vezes anteriores, gravamos nos bastidores dos shows. A Ivone Kassu (nove entre dez artistas queriam a Kassu ) era a assessora de imprensa dele, tínhamos uma boa relação e o Roberto até este momento é contratado exclusivo da Globo. Era tranquilo. Na casa dele só não foi tranquilo porque… ora, porque era a casa do Roberto Carlos!

Chegamos no meio da tarde ao apartamento no bairro da Urca, no Rio. O secretário do Roberto nos recebeu e foi logo avisando que a entrevista seria rápida. Devíamos montar o equipamento. Quando estivéssemos prontos, ele chamaria o Rei. O primeiro minuto foi de observação geral. Tudo branco. Tudo de excelente qualidade. E plantas. Éramos eu, o cinegrafista Guilherme Visane e o técnico Chocolate.

– Pelo amor de Deus, cuidado com o tapete! – alertei.

Felpudo, branco. Sofás brancos. Uma vez queimamos o tapete de uma delegacia recém-reformada. O delegado estava orgulhoso da reforma. O técnico emborcou a luz no tapete e foi plugar o fio na tomada. Só percebemos que a luz estava acesa quando sentimos o cheiro de queimado. Olhamos todos ao mesmo tempo para a luz, inclusive o delegado. Vimos a fumaça.

– Caralho! – foi o que o técnico disse ao se lançar para a luz.

– Eu vou mandar a conta pra vocês! Ah, vou! – foi o delegado possesso.

Não me lembro se mandou. Acho que contamos sobre o acidente na emissora e o chefe de reportagem acionou o necessário para pagar o prejuízo. Na casa do Roberto Carlos isso não podia se repetir!

Equipamento montado, todos prontos, o secretário foi chamar o Roberto. Não demorou, ele apareceu.

– E aí , bicho?!…

Cumprimentou a todos com muita simpatia, me deu dois beijinhos… Mostrei o lugar no sofá para a gravação da entrevista, gravamos, agradeci e nos preparamos para recolher o equipamento rapidamente.

– Só um momento, já estamos saindo. – me desculpei com o Roberto.

– Não tem pressa não. – ele disse. – Não querem água? Café?

Tem pressa ou não tem pressa? Água? Café? E cadê o secretário que havia sumido?

– Calma, bicho! Aceitam um café? – o Roberto insistiu.

Eu nem tomava mais café. Só me entusiasmei recentemente com o café espresso – forte e curto – porque tem o gosto do cheiro do pó do café. Além do mais, todo o cuidado era pouco no tapete felpudo e sofá brancos.

– Eu aceito. – disse o Chocolate.

O cara era muito engraçado. Um negão descolado, competente e companheiro para todos os momentos. Eu e o Visane trocamos olhares preocupados. O Chocolate notou.

– O que é, gente? O homem oferecendo!…

– O tapete, o sofá… – sussurrei.

– Deus do céu… – o Visane murmurou.

O Roberto ria. E ele mesmo foi pedir à empregada o café e a água na porta do que deveria ser a cozinha.

– Sentem aí, calma. – era o Roberto Carlos.

Visane e Chocolate arrumavam o equipamento. Eu me sentei de volta no sofá branquíssimo. O Roberto se sentou do meu lado. E aí? Qual seria o assunto? Carros! É sabido que o Rei tem adoração por carros. Algo muito em comum.

– Roberto, você ainda tem a Corvette azul? – perguntei.

Eu tinha visto uma reportagem, numa revista, com o Roberto Carlos e o Emerson Fittipaldi (isso tem uns trinta anos). Acho que o Emerson estava com uma Mercedes branca conversível, mas o Roberto tenho certeza que estava com a Corvette.

– Não, agora é uma preta! Até está com o paralama amassado… – ele disse.

Paralama amassado? Como é que se amassa seja o que for de uma Corvette? Como é que o Roberto Carlos conseguiu amassar o paralama da Corvette? Onde? Como? E ele contou que foi numa das saídas que costumava dar na madrugada. Estava no elevado do Joá, acelerando para valer e, quando avistou um carro adiante, não deu para frear. A história é maior, mas vou parar por aqui. A empregada trouxe uma bandeja e o Roberto pediu que ela deixasse em cima da mesa. Ele mesmo serviu o café.

– Quer leite no café, bicho?

– Quero. – o Chocolate respondeu de pronto.

– Caramba! – reagi.

– O que foi? O homem ofereceu?!.. – o Chocolate retrucou.

Eu e Visani aceitamos água. E ficamos atentos aos movimentos do Chocolate com o café e o leite. Olhávamos para ele e para o tapete.

Mal comparando a qualidade, aliás, nem comparando, eu também tinha um sofá branco na minha casa. Um dia, uma amiga, bem atrapalhada, se aboletar com um prato de sopa.

– Cuidado com essa sopa… Olha o sofá… – adverti.

– Você acha que sou criança? – ela retrucou ofendida.

Mal terminou a resposta e o prato de sopa voou para o sofá.

– Caramba, Fernanda, que boca! Vou limpar, não vai ficar mancha nenhuma.

– Não foi a minha boca que derrubou o prato!…

Pois é, a gente põe a atenção numa expectativa e vai que acontece?!… Mas deu tudo certo na casa do Roberto Carlos. Respiramos aliviados, eu e o Visane, quando o Roberto recolheu a xícara da mão do nosso adorável Chocolate.

– Roberto, precisamos mesmo ir embora. – falei cheia de pena. – Está ficando tarde e a matéria é para o JN de hoje.

– Então, . Voltem quando quiserem. – o Roberto falou.

– Não fala isso… – o Visane olhou para o Chocolate.

falando sério, bicho!

Fomos embora sem tornar a ver o secretário que nos botou pilha na chegada. É claro que não voltamos “quando quiserem”. Nem o Chocolate.

Obviamente, nem todos os famosos que encontrei por conta da profissão são ou foram meus ídolos. A grande maioria foi apenas … por conta da profissão. E eis um momento saia justíssima no carnaval. Marquês de Sapucaí antes da construção do Sambódromo. Tudo era bem mais confuso, a começar pela farta distribuição de credenciais de pista. Lá estávamos eu e a colega Angela Lindenberg dividindo um equipamento e um cinegrafista. Se a memória não me falha – e falha muito – era uma cinegrafista, a Wlacyra Lisboa. E passou o ator Robert De Niro. A Angela fala muito bem inglês – eu falava ainda pior que hoje – e conversou com ele na tentativa de uma entrevista. Fiquei do lado observando a negociação e a celebridade estrangeira. Entendi que os dois estavam de acordo com a entrevista. Quando a Angela pegou o microfone para gravar, o De Niro foi embora. Foi embora!… A Angela, toda educadinha, ainda foi atrás, mas a explicação foi que ele “já havia dado a entrevista”.

– Ele achou que a entrevista fosse a nossa conversa… – A Angela traduziu.

– Ah, não! … O De Niro!… – era eu atrás da celebridade. – Êi!…

E o homem lá se foi.

– Ah, fuck you! – finalizei.

Acredito que o De Niro não ouviu tamanha a gritaria na avenida. E se ouvisse, fuck you again!… A Angela toda educada e cheia de sorrisos…

Eu era também uma garota que amava o Elvis Presley. Lembro-me ainda hoje que dirigia meu fusca branco pela pista de dentro, paralela ao Aterro do Flamengo, rumo ao centro do Rio, quando ouvi no rádio a notícia da morte. Dia 17 de agosto de 1977. Encostei o carro e chorei, chorei muito. Eu vinha acompanhando com tristeza o estrago na saúde do Elvis. O belo exemplar dos hominídeos, com uma voz abençoada por Deus, engordando, inchando… Elvis Presley nunca esteve no Brasil. Eu teria implorado de joelhos para cobrir o show. Outro absurdo de voz e presença que admirei foi a fadista Amália Rodrigues. Essa esteve no Brasil, chegou a morar no Rio de Janeiro, mas bobeei feio. Num fim de semana prolongado fui a Lisboa, em Portugal, gravar um programa sobre a Amália. Uma homenagem póstuma não só á Amália, mas à minha avó Assumpção e à minha tia Leia que me apresentaram à fadista nas cantigas que ouvi na infância e adolescência. Foi uma emocionante e apressada aventura. A seguir, meus dias com Amália em Lisboa.

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