PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 19

ALÉM DE BARATAS, GIGANTES! (segunda parte)

Um museu ao ar livre com uma enorme variedade de plantas medicinais. Um grupo pequeno de pessoas, tão idealistas quanto a diretora, trabalhava exclusivamente no plantio, cultivo e na manipulação das plantas. De imagens, estávamos garantidos. Assim é o telejornalismo, né? A gente pensa na história, com a apuração das informações, mas se as imagens ajudam é um excelente começo.

Fazia quarenta e cinco graus na sombra! Suávamos em bicas gravando as plantas. Concluída a parte da gravação externa, a diretora propôs conversarmos na sala dela. Aceitamos de imediato imaginando a delícia de um aparelho de ar condicionado. Não tinha. Tinha um ventilador, tão velho e cansado que soprava uma brisa morna.

-Não temos muita ajuda do governo. – a mulher disse.

É uma variação sobre o mesmo tema. A gente encontra neste Brasilzão pessoas que têm conhecimento para trabalhar em outros países, com um salário nababesco, com respeito e reconhecimento, apoiadas por bons patrocínios, mas que voltam a se enfiar em lugares sem as mínimas condições de trabalho. Querem colocar em prática o que aprenderam nos lugares onde nasceram, onde descobriram e conhecem bem as necessidades. Sofrem com consciência.

Num voo de Fortaleza para o Rio de Janeiro, conheci um médico-cirurgião, recém-formado, a caminho de um estágio com o medalhão da cirurgia plástica, o doutor Ivo Pitangui. Imaginei que o rapaz seguraria com as garras e os dentes a oportunidade do estágio e nunca mais sairia do Rio de Janeiro.

– Não, assim que terminar o estágio, volto pra Fortaleza. – ele garantiu. – No Rio de Janeiro tem muitos bons cirurgiões plásticos, em Fortaleza não. Vou ajudar minha gente.

Conheci algumas pessoas realmente idealistas. Idealistas práticos, não verborrágicos. São pessoas apaixonadas e apaixonantes. Morro de inveja, a tal da inveja branca, para carregar menos culpa, porque inveja é inveja. Até tenho alguns ideais, mas me faltam a persistência, a certeza do rumo a tomar, sem titubear nos tropeços.

Voltemos ao museu porque a diretora está abrindo várias gavetas para mostrar saquinhos com remédios naturais. Nesses casos, os integrantes da equipe de reportagem são os primeiros a se consultar. Um pegou saquinho para a gastrite, outro para o ovário da esposa, eu peguei para as pedras nos rins que me chateiam….

– Um dia na semana nós abrimos o museu pra pessoas da comunidade. É uma fila imensa pra pegar os remédios. – contou a diretora. – Os chineses vieram conhecer o nosso trabalho e enviamos pra eles também.

Agradecemos a visita e seguimos para gravar a reportagem do campo de futebol, o Marco Zero. Na época, estava em construção. Um lado do campo está no Hemisfério Norte, o outro no Hemisfério Sul. A Linha do Equador passa justamente na divisória do gramado. O cinegrafista subiu na caçamba de um guindaste para gravar imagens do alto. E por lá ficou. Passou um tempão isolado lá em cima, no sol, porque o guindaste enguiçou. No fim, deu tudo certo e a matéria ficou muito boa. Produzimos um jogo entre os operários – Hemisfério Sul contra o Hemisfério Norte.

De lambuja, porque prometemos três matérias em troca do fiasco dos flamingos, gravamos uma fazenda de búfalos com um sítio arqueológico. Os búfalos pisoteavam a terra e desencavavam objetos indígenas antiquíssimos. É claro que os búfalos não faziam ideia do que desencavavam. Com a mesma indiferença, pisoteavam os objetos preciosos deixando-os em cacos. Havia dois gatos pingados para salvar os objetos antes de virarem cacos!…

Voltei para o Rio de Janeiro com três boas reportagens, mas, nem por isso, deixei de ouvir piadinhas sobre os flamingos. Às vezes, parece que implicamos com uma matéria e nos recusamos a fazê-la. Não tem isso. Ou não deve ter. Podemos discutir a pauta, mas, batido o martelo, é fazer. Expliquei repetidamente que não era a época, mostrei a imagem da área onde se imaginava milhares de flamingos, argumentei que os custos da viagem foram cobertos pelas três matérias…

– Você não fez os flamingos… – resmungou o chefe.

Bem, não vi milhares de flamingos e também nenhuma barata, nem gigante ou anã na viagem ao Amapá. Não ter visto nenhuma barata gigante foi fundamental. Tivesse eu, avistado apenas uma, possivelmente não teria conseguido fazer mais nada. Não sei o que seria de mim. Não vi em Macapá, mas ELAS EXISTEM!!!…

No intervalo, entre uma gravação e outra, andava eu pelas lojas de lembrancinhas de um hotel em Manaus, no estado do Amazonas, quando vi algo impressionantemente horroroso. Presa, atrás de um vidro, lá estava o cadáver DELA. Eu tinha acabado de passar os olhos por um besouro enorme e dei um passo para a esquerda. Foi quando surgiu a visão do fim do mundo. Dei dois passos para trás. Inacreditável! Contei para os colegas a história das baratas gigantes quando voltei de Macapá e fui soterrada por risadas incrédulas. Então, pensei em levar a coisa para provar a existência de tamanha aberração. Não deu. Não consegui pegar naquilo, nem morta, com a proteção de um vidro e tudo. Não consegui me imaginar com uma coisa daquelas na bagagem.

Para o bem da informação, são bichos da Amazônia. Tem um bocado de insetos gigantes por lá. O nome científico da coisa feia é Blaberus Serville. As terríveis têm cerca de doze centímetros quando adultas e chegam à região – sabe-se lá onde se escondem o resto do ano – nos meses de janeiro a março. Voam e, como todas as baratas, não levam jeito para a coisa. Portanto, chocam-se com as pessoas. São cascudas e nojentas. Pronto, está explicado e vamos mudar de assunto que essas coisas a gente atrai.

A esta altura já dei a perceber que gosto de animais, mas delas não. Ratos, cobras e aranhas também não me emocionam. Por enquanto, todos terráqueos. Na água salgada, gosto dos tubarões e das baleias para ver à distância. Nos rios, tenho medo de piranhas.

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