PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 18

ALÉM DE BARATAS, GIGANTES

 

Minha mãe dizia que tenho tanto medo de baratas que atraio as bichas. Então, vivo num círculo vicioso: tenho medo e atraio, atraio e tenho medo. O que posso fazer? Veja bem esta situação. Mais de nove horas de voo. NÃO GOSTO DE VOAR!!!… No estilo voa um pouquinho, para um pouquinho, voa um pouquinho, para um pouquinho, e a comissária de bordo me vem com uma conversa pra boi acordar e provocar o estouro da manada. Baratas gigantes. Horas sem fim voando para aterrissar no Inferno?! … Não bastassem as baratas, tinham que ser gigantes?!… Ou será que eu estava escutando coisas? Quem sabe um delírio de voo?… Tantas horas dentro de um avião, com os nervos estraçalhados por causa do medão de voar. Era a última das inúmeras escalas, em Belém, no estado do Pará. Imagino que a comissária estivesse tão cheia de avião quanto eu. Vai que, um dia, viu uma barata maiorzinha e deu para sonhar com baratas gigantes? Quase nove horas de voo, com o entra e sai de passageiros, muitos deles chatos, era natural que a comissária estivesse exausta, tanto que ficou sentada numa das poltronas atrás de mim, enquanto uma senhora varria o avião. Eu estava tão cheia de avião que pedi para a senhora me dar a vassoura.

– Eu varro!… Deixa comigo!…

Ah, esse pessoal da televisão… Gente esquisita. A senhora entendeu que eu estava brincando e continuou o serviço dela. Mas eu não estava brincando! Estava farta daquele ambiente fechado com cheiro de poltronas e de ar condicionado. Li, ouvi música, cochilei, tive vários espasmos de medo… Nove horas!… E eis que me virei para a comissária.

– Que voo demorado.

– Este é longo mesmo. – ela concordou. – São tantas escalas, é tão cansativo, que ficamos vinte e quatro horas de folga em Macapá.

– Fazendo o quê?

– Nada. Ficamos no hotel, descansando, fazendo churrasco.

– Não tem nada pra se fazer em Macapá?

– Tem suas belezas, baratas, lacraias… – ela riu.

As belezas e as lacraias me passaram batidas, mas … baratas? Por que a comissária incluiu os horrores na resposta? Percebi outro passageiro na poltrona perto da janela. Ele confirmou com a cabeça.

– Tem barata em todos os lugares do mundo…. – falei.

– As de Macapá são enormes, assim. – ela mostrou com as mãos. Uma distância de pelo menos dez centímetros entre uma mão e a outra.

– Que tamanho? – gelei.

– É, são grandes mesmo. Gigantes. – concordou o homem sentado na poltrona perto da janela. – Eu moro lá e conheço.

– E voam, como um passarinho. – completou a comissária.

Caramba! Puxei assunto com a comissária esperando sugestões como a bela ilha de Marajó e ela me veio com… O que meu chefe acharia se eu voltasse dali mesmo para o Rio, sem a reportagem? Eu podia explicar que tenho horror a baratas, especialmente gigantes. E a equipe que saiu de São Paulo para me encontrar no aeroporto de Macapá? Há atitudes de consequências bem previsíveis. Não é preciso dar um chute no pé de uma mesa para saber que dói. Portanto, “Vontade é coisa que dá e passa”. O mais prudente era enfrentar a situação. Mais uma furada, menos uma, não faz diferença. Ou faz? Pelo que a comissária contou era uma chegada ao portão do Inferno. Eu já me imaginava lutando contra as baratas gigantes, igual a Dom Quixote contra os moinhos. A insanidade também tomava conta de mim. Ao contrário de toda a viagem, dali em diante eu não queria que o avião chegasse a Macapá. Para mais, era o menor trecho do voo, quarenta minutos. Foram quarenta minutos de aflição, talvez os únicos minutos em que nem percebi que estava voando. Nada como um medo maior para inibir ou anular um medo menor, embora ambos sejam de enorme tamanho.

O avião pousou e não me restou outra saída a não ser a porta para o pátio. Era noite. Se à noite os gatos são pardos, imagina as baratas? Enrolei o casaco na cabeça e desci as escadas do avião. Pior do que ver uma barata, é a asquerosa bater as asas nas minhas orelhas, ou se enfurnar no cabelo. Com as orelhas protegidas, apenas com os olhos de fora, atravessei o pátio com a firmeza de uma criança aprendendo a dar os primeiros passos. Os olhos vasculhavam a área em volta e minhas pernas tremiam. Nem mesmo no hall do aeroporto me senti segura para tirar o casaco da cabeça. Desde quando as baratas diferenciam espaços públicos de privados? Fechados ou ao ar livre?

– Isso tudo é frio? – perguntou o cinegrafista achando graça da minha figura.

Retribuí com um sorriso nervoso.

– Temos muito o que conversar. – disse descobrindo a cabeça.

O cinegrafista com certeza achou que eu me referisse ao trabalho. Ajudou-me com a bagagem e saímos do aeroporto. Lá fora, enrolei novamente a cabeça no casaco.

– Você esquisita. – o cinegrafista falou.

– Podemos deixar os vidros do carro fechados? – pedi.

– O que é que você tem?

Contei a conversa da comissária sobre as baratas.

– Baratas gigantes? Ela tava de gozação. A gente andou pela cidade e não viu nenhuma barata, nem gigante, nem voando, nem se arrastando, nem morta.

– Jura?

– Ah, Fernanda, a comissária falou qualquer besteira pra passar o tempo e o passageiro embarcou na babaquice dela.

– Será?

– Esquece isso.

Não se brinca com coisa séria. Algumas brincadeiras são muito perigosas.

Tenho uma colega que tem pavor de lagartixas. Uma noite percebi que ela deu uma volta imensa para sair da emissora.

– Por que você andou tanto? – perguntei.

– Por causa das lagartixas. – ela respondeu.

– Que lagartixas?        

– As lagartixas da parede, perto dos caixas eletrônicos. Não posso ver lagartixas.

– Não acredito, um bichinho tão simpático, inofensivo, na dele. – defendi as lagartixas.

– Que simpáticos e inofensivos o quê?!… Eu tenho pavor de lagartixas!… Depois que anoitece, não passo por lá de jeito nenhum!

Eu nunca havia reparado nas lagartixas. No dia seguinte, ao sair, passei pelo corredor dos caixas eletrônicos especialmente para vê-las. Havia mesmo, uma cambada. Simpáticas, caçando mosquitos. O nome é interessante: la-gar-ti-xas. Parecem miniaturas de dragões. Li uma vez que são originárias da África e que chegaram ao Brasil nos navios negreiros. Morei numa casa por muitos anos – voltei a morar – e salvei muitas lagartixas das garras e dos dentes dos meus gatos. Os bichanos têm a mania de nos trazer presentes, não raro, trazem lagartixas, camundongos, esses dengos. Uma tarde, um dos gatos me trouxe uma lagartixa, viva. Aceitei agradecida e coloquei-a de volta no jardim. Não demorou dez minutos e o gato me trouxe outra, ou a mesma. Ficamos um bom tempo assim: o gato me trazia uma lagartixa, eu agradecia e a levava de volta ao jardim. Recentemente, voltei a morar numa casa. Os gatos continuam fazendo parte da minha vida e me trazem presentes. As lagartixas devem ser mesmo muito atraentes para os gatos, caçadores por natureza. O rabinho abanando. Quanto mais correm, mais o rabo abana. Isso deve ser irresistível para os bichanos que entram em casa anunciando a boa nova. O miado é diferente com a boca cheia. E lá vou eu correr atrás da lagartixa e do gato correndo atrás da lagartixa. Tenho conseguido salvar as que recebo de presente, a maioria sem os rabos. Na caçada, a primeira investida do gato é parar a lagartixa pelo rabo com a pata. Bom que os rabos crescem de novo. Aprendi em biologia que isso se chama regeneração. Dou bronca no gato, digo que não é para pegar lagartixas, nem qualquer outro bicho.

– Você tem muito pra comer em casa!

É a natureza. Uma distração. O bicho não lê livro, jornal… Numa recente temporada de reclusão social, Ronnie (por causa do Ronnie Von, o cantor) e Nuno (o gato que trouxe de Portugal) foram grandes companheiros e companhias. Nos comunicamos muito bem numa linguagem com palavras (eu) e miados (eles). Um miado assim, é água; um miado assado, é comida; um miado ensopado, é atenção. Na nova temporada morando numa casa, Ronnie me trouxe três ou quatro lagartixas, um grilo e um filhote de gambá. Consegui salvar o grilo e tenho para mim que, depois daquele susto, o inseto se converteu, virou um louva-Deus. O filhotinho de gambá acho que também salvei, embora, com o susto, tenha pisado nele. Com essa mania de se fazerem de mortos, desde pequenos, o gambá ficou no tapete debaixo da mesa. Era noite. Cheguei perto da mesa para pegar alguma coisa e senti algo mole debaixo do pé. No que eu havia pisado? Acedi a luz. Foi aí que vi o filhotinho. Estava no tapete, inerte.

– Você tá morto? Êi!…

Enrolei a mão num saco plástico e cutuquei a barriga. Não se mexeu. Deus meu, eu havia matado o bicho! Pousei um dos dedos no peito do gambazinho. Estava vivo o danado. Peguei o bichinho e coloquei num canto do jardim.

– Bom, tomara que a sua mãe te encontre.

Podia ficar por isso mesmo, mas não consegui me livrar da sensação de pisar no bichinho, molenguinho. Peguei um pedaço de banana e voltei ao canto do jardim. O gambazinho não estava mais lá. Sumiu rápido! Torci para que a mãe o tivesse encontrado e que ele ficasse bem, crescesse forte, saudável e longe de mim. Como dizia minha tia Maria, perto de bichos: “Não te quero bem, nem te quero mal”. Com os gambás é assim comigo também. Mas, por não querer mal, vivi mais algumas experiências nos dias seguintes.

Muito raramente entro no quarto de hóspedes. Mais raramente, entro e olho pela janela que dá para a piscina. Muito mais raramente, entro no quarto de hóspedes e olho pela janela que dá para a piscina de madrugada. Vi algo que me pareceu um bicho pequeno se debatendo na água. Desci as escadas aos saltos, avancei pelo jardim, peguei a rede de limpar a piscina e tirei o bichinho da água. Era outro – ou o mesmo – filhote de gambá. Fora da água, o pobre tremia de frio. Corri a buscar papel toalha e, mais uma vez, com a mão enrolada num saco plástico, sequei o bicho. Possivelmente era o mesmo da noite anterior. Se a mãe encontrou uma vez, devia estar por perto e resgataria o filho de novo. Na noite seguinte, estava eu vendo tevê, de frente para a porta de vidro que dá para o jardim, quando um gambá adulto passou sem pressa. Para onde ia? A casa é cercada por amplas vidraças. Acompanhei, de dentro de casa, a caminhada. O bicho grande parou na borda da piscina. Lá estava OUTRO filhote se debatendo na água.

– Caramba, agora é isso todas as noites? – corri para pegar a rede.

Só que a mãe ficou onde estava. Quando me viu perto do filhote com a rede, se colocou em posição de ataque.

– Chega pra lá! Não vem pra cima de mim ou não salvo o teu filho!

Juro que ela entendeu. Afastou-se o suficiente para eu ter coragem de prosseguir no salvamento. Pesquei o filhote com a rede e, já que a mãe estava olhando, coloquei o filhote perto dela. O bichinho espirrava sem parar. Foi aí que vi uma das cenas mais singelas de toda a minha vida. Era a mãe sim! Ela se aproximou, encostou a barriga no chão e colocou o filhote dentro da bolsa com habilidade e delicadeza. Igual aos cangurus. Ela tentou dar o fora, mas, com o peso na barriga não conseguiu pular o portão fechado.

– Calma que eu abro…

Abri o portão e ela foi embora arrastando a barriga. No dia seguinte, final da tarde, vejo um gambá de grande porte subir ligeiro pelo tronco do coqueiro.

– Ah, é aí que vocês estão?!… Por isso está chovendo gambazinhos na piscina? Cuidem deles. Depois, por favor, vão embora. – pedi.

O casal de urubus também me é muito simpático. São só os dois, não moro num lixão! Costumam ficar ao sol, no telhado de uma casa quase em frete a minha. São urubus muito bonitos. O que foi? Porque são urubus não podem ser bonitos?… Pois eu os acho muito bonitos. São grandes, parrudos, com as penas tão pretas que chegam a ser azuladas. Na primeira vez que os vi, confesso que pensei em mau agouro. Besteira, são apenas bichos. São inofensivos, facilmente assustáveis, não atacam. Mas, numa manhã, eu tomava meu sol para afastar o mau agouro da osteoporose quando avistei o casal de urubus na casa bem em frente. Estavam empoleirados na sacada da varanda de um dos quartos.

– Imagina se alguém chega agora na varanda? – pensei. – Vai levar um susto daqueles! Quando vai imaginar um urubu na varanda?!…

Fiquei olhando. Aqui para nós, esperei o susto. Acabou que o casal de urubus bateu as asas e ninguém apareceu na varanda. Dias depois contei à vizinha sobre as visitas que ela recebeu e nem viu.

– Menina, o pior é que estou com uma sobrinha hospedada nesse quarto. A menina se assusta com tudo!

Ia ser engraçado. Mas o que NUNCA vai ter graça são baratas. Nem pretas, nem brancas, nem filhotes, nem adultas.

– Baratas não! Não mesmo! – Foi o que disse quando percebi que o Ronnie olhava com muito interesse algo na parede do lado de fora da casa. Era enorme!

– Não me traga isso pra dentro de casa! JAMAIS!…

Peguei a vassoura e dei um jeito de exterminar a bicha antes que ela tivesse a terrível ideia de voar. É pegar a vassoura e atacar, sem pestanejar. Não pare para pensar em estratégias porque elas parecem adivinhar pensamentos. Partem para cima! Por que não fogem? Não sei. Elas vêm para cima da gente, ao menos da gente que tem medo. Então, ou se acerta bem acertado de primeira, ou corre-se. E não se volta até que alguém tenha matado a barata e mostrado o cadáver. Ver o cadáver é fundamental. Quando a gente pensa que a bicha desencarnou, ela volta a se mexer, ou desaparece. Parece que ressuscita!

Como diz o filósofo popular Didi Mocó, personagem do comediante Renato Aragão, “Assim como são as pessoas, são as criaturas”. Minha colega tem horror a lagartixas e eu tenho horror a baratas. Descobri recentemente que a diarista que trabalha na minha casa tem pavor de lagartixas também. É uma mulher de um metro e noventa, com uma área considerável de largura.

– Ah, Fernanda, lagartixa não.

Vá se entender os medos. Uma vizinha tem tanto pavor de cobras que não pode ver espaguete!    

– Não olho e muito menos como! A gente não precisa comer macarrão! – ela resumiu quando falou sobre o medo.

Há que se respeitar os medos, seja do que for. Por isso, eu haveria de encontrar aquela comissária filha de uma égua para lhe dizer umas palavrinhas bem bonitas.

– Boa noite. – saudei o recepcionista do hotel. – É verdade que tem baratas enormes?

– Senhora?!… – o rapaz não entendeu a pergunta.

– Baratas, enormes, tem? – repeti imitando a comissária na demonstração com as mãos.

– Ah, nesta época não.

– Então, tem?

– Não nesta época.

– E quartos, tem? – perguntou o cinegrafista tomando a frente da conversa.

Também não tinha. Ficamos no vamos dar um jeito. Época de eleições. Macapá fervia com a campanha política e seus inúmeros cabos eleitorais. Mas nossa missão nada tinha a ver com a política. Fomos até Macapá para mostrar uma área, próxima da cidade, repleta de flamingos. Bem cedo descobri que nem a área era próxima, muito menos tinha flamingos.

– Não tem flamingos, chefe. – era eu ao telefone na tentativa de convencer o chefe que a pauta estava furada. – Não nesta época!… Igual as baratas gigantes, mas essa outra história.

Imagina viajar até o cocuruto do Brasil, eu saída do Rio de Janeiro, cinegrafista, técnico e produtor de São Paulo, com carro alugado e verba de produção para uma semana e nada de flamingos? Como justificar o investimento? Eu dizia “não tem” e o chefe dizia “grava os flamingos”. Pois ficamos dois dias trocando telefonemas numa variação do mesmo tema: Não tem flamingos!

A coisa estava ficando tão louca que conseguimos carona num avião para gravar imagens da área onde deveriam estar centenas de flamingos. Para não dizer que não havia nenhum, avistamos um casal. Sabe-se lá por que a flamingada foi embora e os dois ficaram.

– Fala você. – passei o telefone para o produtor.

O produtor era um rapaz muito, mas muito calmo. Ele olhou para o fone, olhou para mim, como quem diz: O que eu falo? Eu olhei para o fone, olhei para ele, como quem diz: Não sei.

– Mas chefe, flamingos não tem. Vamos levar a fita pra você ver que não tem!…

Nessa época ainda gravávamos em fitas. A era digital parecia distante como estavam os flamingos. E distante estava o chefe exigindo a reportagem com os flamingos. O investimento foi grande, repito. Daí as sugestões do paciente produtor.

– Podemos fazer uma reportagem sobre um homem daqui que é especialista em plantas da floresta. Tem também um museu de plantas medicinais. E tem o campo de futebol que a linha do Equador atravessa. – fez uma pausa, suspirou. – Flamingos, não tem, chefe.

Infelizmente não era a época dos flamingos. Felizmente não era a época das baratas gigantes. Ficamos sem os flamingos, sem as baratas gigantes e com uma repórter à beira de um surto.

– Eu sei que você é meu amigo, chefia, mas nem assim tenho como fazer aparecer flamingos… – era eu mais uma vez ao telefone. – Temos duas opções: voltar sem nada ou com as matérias do bruxo da floresta, do museu e do campo de futebol. Três matérias!

Tem chefe que tem cada uma. Amigo?!… Era um chefe boa gente, bonachão, mas não éramos amigos. E, convenhamos, a situação nada tinha a ver com amizade. O fato é que a pauta era furada e alguém, nesse caso o chefe, tinha que se responsabilizar pelo desastre. Os flamingos foram sugestão de um especialista em natureza que estava de passagem pelas pautas do programa. Grande especialista. Enfim, o chefe desistiu de insistir nas benditas aves. O jeito era fazermos as reportagens sugeridas pelo produtor para diminuir o prejuízo.

Não era a época, mas, em momento algum, deixei a preocupação de um possível e terrível encontro de lado. Vai que me aparecia uma fora da época?!… Começamos pelo bruxo da floresta. Era um homem grandalhão, negro, de olhar meigo, roupas muito simples e chinelos. Quando o produtor me mostrou a pauta, imaginei um casebre no meio do mato com fumaça saindo da chaminé. Nada disso. O homem morava numa rua da cidade, rodeado de vizinhos. Nos fundos, havia um amplo cômodo com barris e uma mesa de madeira comprida e larga. Ali o bruxo fazia as beberagens.

– Tem remédio pra todo o mal aqui. – o homem mostrou os barris. – Esse aqui levanta tudo. É catuaba. – deu um tapinha no barril.

Os rapazes da equipe ficaram imediatamente interessados no levanta tudo. Todos jovens, na flor da idade e da força, mas nunca se sabe o momento do “isso nunca aconteceu comigo”.

– Que mais não seja eu ser a única mulher neste grupo nos próximos dias, a bebida está quente e vocês vão ter uma boa dor de barriga antes de levantar tudo. – interrompi a animação.

Gravamos a casa, o cômodo amplo com as bebidas e pedimos para o homem mostrar como fazia as beberagens. Ele socou as folhas com um pilão para extrair o suco, colocou água, tapou o vaso e explicou que ficava assim alguns dias para macerar, ou seja, impregnar o suco da planta na água. Essa parte estava vista e gravada. Era a segunda parte da matéria. Na minha avaliação, a gravação na casa era a parte chatinha. O melhor seria catar as folhas e as raízes na floresta. Lá fomos.

O bruxo nos fez andar quilômetros pela floresta. Foi que nem o voo Rio-Macapá: para aqui, anda mais um pouquinho; para ali, anda mais um pouquinho; não acabava nunca. O homem conhecia cada planta da floresta pelos nomes científico e popular. Explicava o uso medicinal de cada uma.

– As sementes dessa árvore são alucinógenas. – ele mostrou. – Gente da cidade grande ia gostar de saber. Melhor não mostrar.

– Como é que o senhor aprendeu isso tudo? – perguntei.

– Com um pesquisador francês, há muitos anos. Ele ficou por aqui muito tempo. Eu andava com ele. Era menino e aprendi tudo. Aí, ele foi embora e eu fiquei lidando com as plantas.

Confesso que cheguei a ficar fascinada com a história, até ele nos convidar para comer tartaruga refogada.

Tartaruga, macaco, cobra, lesma, faisão, patos, carneiros, cabritos, jacarés… Eu me pergunto por que os seres humanos precisam comer mais que pedaços de boi, galinhas e peixes? Já não é demais? Fico muito constrangida diante do olhar melancólico de uma vaca ou boi, mas, nesta encarnação, nem vegetariana nem vegana.

A decepção com o grande sábio da natureza foi grande com o convite para degustarmos uma tartaruga ensopada.

– Mas comer tartaruga não elimina o conhecimento dele sobre as plantas… – argumentou o cinegrafista.

Não sei. É que nem separar a pessoa do profissional ou da celebridade. O que conta é a pessoa. A profissão e a fama são acessórios. O homem comer tartaruga não eliminava a boa história de um garoto matuto ter aprendido a conhecer as plantas com um cientista francês e seguir a vida produzindo beberagens. O fato é que o meu tom de narração ficou mais burocrático. Até a tartaruga, eu estava inebriada e o tom da matéria seria de exaltação. Depois, menos, muito menos.

Penso que repórter também é acessório da pessoa. Pode-se dar a mesma pauta para mil, um milhão de repórteres que todas as matérias vão ser diferentes. As informações até podem ser as mesmas, mas o jeito de apresentá-las é diferente. Cada ser humano é um baú de vivências, experiências, conceitos e preconceitos. Tudo isso conta. Conta em quem escolhe para entrevistar, nas perguntas que faz, no tom das perguntas, no jeito de contar a história, nas palavras que usa, no tom da narração… Não consigo tratar com o mesmo sentimento profissional a mãe que perde um filho e o assassino que o matou. Não dá para ouvir, passiva, as explicações sínicas de autoridades diante da miséria de uma comunidade ou de um povo. E muitas são as situações. Para mais, cada um tem suas preferências, suas paixões. Gosto demais de bichos, quase todos. Nas touradas, sou sempre a favor do touro jogar o toureiro para o alto. Ora, o toureiro sabe o que está fazendo, o touro não. Colocam o bicho na arena para ser provocado, cutucado, machucado, morto… é natural que se defenda dos ataques.

Enfim, recusei o convite para o banquete com tartaruga. O encanto com o bruxo da floresta se quebrou.

– E a outra matéria? – perguntei ao produtor no hall do hotel enquanto esperávamos a hora do jantar.

– Tem o museu de plantas medicinais. Conversei com a diretora por telefone e ela me pareceu uma pessoa bem centrada.

Centrada é uma maneira de dizer que a diretora não parecia maluca. Ah, o que a gente encontra de malucos! … Por isso, ser centrada é um bom começo. O que me desanimava era o encontro com as plantas novamente. Mais do mesmo?

– Eles fazem um trabalho muito interessante com a comunidade. – o produtor explicou. – Há uma distribuição de remédios naturais. A diretora me disse que o museu manda remédios até pra China.

Estávamos com a saia justa e meio rasgada diante do chefe do programa. Ele parou de insistir nos flamingos, mas não se contentava com nenhuma outra ideia. Topei fazer a matéria no Museu de Plantas Medicinais. Depois do jantar, encontramos com a diretora do museu no hall do hotel. Era uma mulher de trinta e poucos anos. Uma mulher muito simples.

– É, o bruxo da floresta também é muito simples e come tartaruga. – lembrei.

Eu sei que é cultural!… Há lugares em que é comum comer tartarugas; lugares em que é comum comer escorpiões; lugares em que é comum comer macacos; lugares – como no sertão do Nordeste brasileiro, em bolsões de miséria – em que é necessário comer calangos… Eu sei!… Em casos de necessidade, tudo mais que bem, mas por gosto?… E eu fui até o açougue de tartarugas. Dezenas com os cascos virados e as patinhas balançando no ar, aflitas para se desvirarem. O homem nos levou “para vermos uma coisa”. Entrei e vi, ao vivo e em cores. Em vídeos, vi como são tratados os gansos, enterrados vivos com as cabeças de fora para comerem e engordarem o fígado, para a produção do famoso, caro e muito apreciado foie gras ou patê de fígado de ganso ou de pato. Uma iguaria!… Eu sei que a morte dos bovinos também é traumática, cruel, mas, nós, menos evoluídos, não podemos nos limitar nos pecados? Precisamos ampliar a sacanagem com os animais? Fim do discurso polêmico.  

Ainda bem que me engano com frequência nos meus pré-julgamentos. Menos mal que tenho consciência desse defeito, sempre desconfio de mim e me dou a chance de mudar de opinião. A diretora do museu era uma dessas pessoas que estudam, estudam, estudam, se especializam no exterior e voltam para trabalhar em péssimas condições no lugar onde nasceram. Mais uma idealista e, acreditem, o Brasil tem muitos. Combinamos a gravação no museu para o dia seguinte.

( A seguir, o museu de plantas medicinais e a continuação da minha agonia com um possível aparecimento de uma barata… gigante! )

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