PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos / parte 13

UM CONTADOR DE HISTÓRIAS

O jornalista é essencialmente um contador de histórias. Considero menos importante a história ser boa que contar a história bem. Uma boa história, bem contada é o máximo. Uma história boa, mal contada, chega a ser criminoso. O que nos interessa é que o telespectador acompanhe a história. Até por isso, é tão difícil fazer telejornalismo. Porque a história é narrada em palavras e imagens. Imagem e texto precisam ser parceiros.

Mais do que fazer questão de entrar onde é proibido, o jornalista abre portas sem pedir licença (por vezes, pede, mas se não dão, entra do mesmo jeito), ouve atrás da porta e faz outras coisas que meus pais me alertaram para não fazer. Foram inúmeros os beliscões que levei da minha mãe por estar ouvindo a conversa dos adultos.

– Vai arrumar o que fazer que a conversa não é para crianças…

Não presto atenção na conversa alheia de propósito. Quando percebo, os olhos estão para um lado e os ouvidos para o outro. Ou os olhos e os ouvidos estão ligados na mesma direção. Desde criança é assim. Quando deixei de ser criança (se é que algum dia deixei), continuei com a mania de prestar atenção na conversa dos outros. É automático. No jornalismo, a mania, o vício, a falta de educação, seja lá o nome que se dá, foi providencial. Fora do jornalismo… é a mesma coisa.

Odeio quando não sei o final das histórias ouvidas, digamos, distraidamente. Sempre que tenho oportunidade, pergunto, quero saber os detalhes. Vai me subindo uma curiosidade incontrolável.

Supermercado… Estou na fila do caixa. A pessoa da frente, ou a de trás, começa a entabular uma história interessante com uma amiga, o marido ou a esposa. Eu, sozinha, sem outra opção a não ser esperar. Quando percebo, estou me perguntando: Como? Por que? Onde foi isso? Quem fez? … Como é que eu vou permitir que a pessoa vá embora sem tirar as minhas dúvidas sobre o final da história?

– Desculpe aí, mas acabei escutando a história… Como terminou?

É claro que tem gente que me olha feio, dá as costas e vai embora indignada com a falta de educação – a minha. Mas a maioria conta. Isso quando não interrompo a conversa para ir tirando as dúvidas em tempo real, organizando a história. Filas de caixa de banco e de supermercado são pródigas em boas histórias.

Estava eu imersa nos meus pensamentos, justamente na fila do caixa do supermercado, quando uma mulher saiu de outra fila e veio esfuziante, de braços e sorriso abertos, na direção do homem que estava na minha frente.

– Quanto tempo! – ela exclamou.

Os dois trocaram um abraço longo e profundo. Calculei que a mulher tinha por volta de cinquenta anos de idade. loura, olhos castanhos, bonita. O homem era enorme. Alto, gordo, também louro e bonito. Dei dois passos para trás a fim de abrir espaço para o encontro.

– Como você está? – o homem perguntou. – Quanto tempo faz? Uns vinte anos?

– Mais ou menos isso. – a mulher respondeu. – Meu filho está com quinze.

– Quinze anos? Como o tempo passa rápido. Meus filhos também são adolescentes.

– Incrível encontrar você aqui! Venho a este mercado quase todos os dias!

– Eu também. E nunca nos encontramos antes?!…

– Tinha que ser hoje. – pensei. – Aqui na minha frente.

Ainda que estivessem sussurrando, meus ouvidos estariam ligados na conversa. Mas os dois falavam alto. Aí mesmo é que, relaxados, meus ouvidos captam tudo com perfeição. O que eu ainda consigo controlar é o olhar. Bastam os ouvidos atentos, o olhar se mete na conversa eventualmente.

– Meu filho faz aniversário na semana que vem. Me dá um contato que eu vou mandar o convite. A família vai estar toda reunida.

– Claro, vai ser ótimo você conhecer a minha família também.

Trocaram os números dos telefones celulares. Há situações em que memorizo os números dos telefones sim, depois anoto. Vai que um dia eu preciso? Dessa vez ignorei.

– Tenho que voltar pra a fila. Está chegando a minha vez. Vou te mandar o convite. – disse a mulher abraçando o homem novamente.

– Manda sim.

– Puxa, que surpresa encontrar você!…

– Foi mesmo uma grande surpresa. A gente se vê então.

– Combinado. Vou pra a minha fila.

Lá foi ela. Eu queria sim saber mais sobre os dois. Um encontro depois de vinte anos! Mas juro que me contive.

– Foi o grande amor da minha vida. – o homem falou como quem precisava desabafar o turbilhão de sentimentos dentro dele.

Escutei muito bem. Sorri para ele.

– Nunca amei outra mulher. Estou casado, tenho filhos, gosto e respeito minha esposa, mas essa foi o grande amor da minha vida.

– Puxa. – resumi meu espanto.

Não se deve interromper a narrativa dos outros, principalmente quando é tão boa e combina com a nossa curiosidade, mas a espera tem limite. O homem ficou pensativo e não aguentei.

– O senhor me desculpe, não perguntei nada. Agora que começou, me conta o resto.

Ele sorriu e continuou.

– Ela é uma renomada psicóloga. Era de uma família muito rica. Hoje eu tenho o meu trabalho, estou bem, mas, na época que namoramos, eu era empregado do pai dela. Não nos casamos por isso: o pai dela não quis por causa da diferença na conta do banco. Ela se casou com um amigo meu. A empresa do pai dela faliu. Assim é a vida.

Chegou a vez dele de passar as compras. História terminada. Deixei que ele se concentrasse no pagamento. Ele pagou, me deu um sorriso e foi embora. Fiquei sem saber se ele estava mesmo disposto a aceitar o convite para o aniversário do filho do grande amor da vida dele. Na verdade, como ele disse que frequentava o supermercado, nos encontraríamos em breve e ele me contaria. Ou eu perguntaria. Mas nunca mais nos encontramos.

Acontece assim. E assim foi acontecendo também no telejornalismo, com a união do que me era habitual – ouvir a conversa alheia – à paixão pelas imagens e a construção das reportagens. Nem sempre é simples apurar a história. É preciso saber ouvir, fazer as perguntas certas às pessoas certas, comparar as versões, raciocinar, detectar mentiras ou pontos que não se juntam, enfim, colocar todas as informações colhidas na mente e montar uma história com cabeça, corpo e membros. Há histórias que terminam com pontos de interrogação. Só nos resta contar que isso ou aquilo, pesquisamos, mas não conseguimos descobrir. Há também reportagens inusitadas que a televisão aceita com açúcar e afeto.

A seguir, o aniversário de Drummond… sem Drummond.

 

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