PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 11

RIOCENTRO, A BOMBA QUE ME DETONOU

Na emissora, jovens e não tão jovens não falavam outra coisa no dia 30 de abril de 1981: o show no Riocentro. Quem vai? Com quem vai? Como vai?… Eu decidi logo que não ia de jeito nenhum! louco? Explodiam bombas no Rio de Janeiro e eu ia me meter num show em homenagem aos trabalhadores? No dia primeiro de maio? De jeito nenhum!

Participei da cobertura da bomba que explodiu na OAB no dia 27 de agosto de 1980. Vi a destruição e o cadáver de Lida Monteiro da Silva, secretária do Presidente do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Ela abriu uma correspondência e a carta-bomba explodiu. No meio da tarde, chegou um repórter especial, gravou um vídeo e apresentou a reportagem no JN. Muitas vezes foi assim. Era preciso quilometragem nos telejornais locais para entrar no Jornal Nacional. É claro que todos os repórteres tinham esse objetivo, era um reconhecimento de competência, uma grande conquista. Para alguns, chegava a ser uma obsessão. Acredite, para mim nunca foi. O que eu queria era exibir o meu trabalho diário. Se o espaço que me davam era nos telejornais locais, maravilha. Eu só não gostava do jeito como os chefes de reportagem falam com os repórteres peões.

– Vai lá fazer uma materinha

Nunca fiz materinhas. O que eu fazia, com frequência, era mudar a pauta. Quantas vezes! O pobre do pauteiro tem a missão de listar assuntos a serem cobertos todos os dias. Assuntos que estão em andamento – a investigação de um crime, por exemplo – e assuntos que interessem ao jornalismo para fechar a produção diária dos telejornais. Às vezes, por mais que o pauteiro pesquise e se dedique, quando a equipe de reportagem parte para a ação, o resultado é muito fraco ou a história não é bem assim… Sempre me recusei a voltar para a emissora sem matéria. Se não tinha, procurávamos. Muito porque a sensação de um dia perdido é horrível. Em geral, apela-se para matérias de comportamento. A gente fica um tempo observando e percebe alguma coisa que rende uma boa história. Um homem que dormia numa rede amarrada em dois coqueiros na praia de Copacabana foi uma. Uma piscina içada por cordas para ser colocada no apartamento de cobertura de um prédio, foi outra.

O que eu queria era estar em pelo menos um dos telejornais diários. Quando comecei, entravam no JN os que faziam reportagens dignas do JN e ponto. Consegui emplacar duas, ainda como estagiária. As duas por pura criatividade. Resultado imediato das andanças pelos estúdios das novelas e pelos programas de entretenimento gravados no teatro Fênix. Uma das reportagens porque gravei a passagem – o vídeo em que o repórter aparece – no braço da estátua do Cristo Redentor (não só por isso, mas por termos subido até a cabeça da estátua) e outra por estarmos usando a novidade do microfone sem fio. Duas matérias que ganharam espaço no JN pelo visual que muito a televisão aprecia e agradece. Depois, o Armando criou os repórteres especiais, profissionais com estrada e competência. Só os especiais podiam entrar no Jornal Nacional. Então, era comum repórteres, fora do seleto grupo, cobrirem um assunto o dia todo e receberem a visita de um Especial no fim da tarde para gravar um vídeo – uma passagem – recolher as informações apuradas e gravar o texto final. Mais tarde, fiz o mesmo com repórteres menos especiais que eu. Não gostava nada disso porque sabia o quanto dói, mas, eram as regras e tinha a máxima do “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Há algum tempo acredito que “Manda quem pode e obedece quem pode também”, mas isso faz parte da mania que tenho de mexer no que está quieto. Assim como não concordo que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Depende da imagem. Deixa para lá que já nos afastamos muito do show do Riocentro.

– Você não vai ao show? – me perguntou uma colega.

Nós formávamos um grupo muito animado, dentro e fora da emissora. Todas trabalhávamos no turno da tarde para a noite. Noite sim, noite não, ou noite também, saíamos juntas depois do trabalho. Nessa noite, o programa geral era o show do Riocentro.

– Nem chego perto! – respondi. – Um monte de gente junta? Vai que explode uma bomba?!

– Você doida!…

Um bocado de gente foi.

Para ser mais fiel a este relato, devo confessar que não fico confortável no meio de multidões.

O pior dia da minha vida profissional foi a cobertura dos protestos no centro do Rio com pedras e bombas de gás lacrimogênio. Era um protesto contra o aumento nas passagens dos ônibus. Uma multidão corria na avenida Rio Branco. Muita gente no confronto com a polícia, mas muita gente também correndo para se proteger. Um inferno!… Eu gravava flashs rápidos. Eu sei que flash já é rápido. Então, eu gravava flashs ainda mais flashs e me escondia. Mais do que a violência entre pessoas que protestavam e a polícia, a TV Globo era o alvo predileto dos seguidores de Leonel Brizola, duas vezes governador do estado do Rio de Janeiro. Foi muito difícil trabalhar durante os dois mandados de Brizola Diariamente éramos ameaçados por radicais do PDT (Partido Democrático Trabalhista) por causa da divulgada rivalidade entre Brizola e o então dono da Rede Globo Roberto Marinho. Nesse dia horrível, ainda tivemos que aturar um grupo de pedetistas que cercaram o carro de reportagem aos gritos, socos e pontapés. Eu já estava por conta do capeta, minha cabeça doía tanto que parecia prestes e a explodir. Saí do carro.

– Querem quebrar? Podem quebrar! Quebrem mesmo! O Roberto Marinho nem vai dormir esta noite!

– “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!” – diziam em coro.

Êta coisa mais chata!

– Podem quebrar. – peguei minha bolsa no carro e saí de perto.

Acabou a graça.

– Ah, vão arrumar o que fazer! Me deixem trabalhar! – finalizei pedindo ao cinegrafista para me acompanhar. – Vamos gravar este inferno!

É uma covardia. São sempre grupos grandes fazendo ameaças. Eu me perguntava por que não iam se manifestar na porta da Rede Globo? Não iam, cercavam as equipes de reportagem na rua.

Num outo dia, os funcionários de uma empresa de energia elétrica entraram em greve. Passamos a tarde toda à espera da declaração do presidente da empresa numa sala reservada à coletiva de imprensa. É mais um exemplo de chatice. O tempo passando e a gente esperando alguém que já se sabe o que vai dizer: nada. Mas temos que ouvir os dois lados. De lados da história, ou versões, vive o jornalismo. Fui várias vezes à janela com uma boa vista do centro da cidade e dos grevistas discursando na porta de empresa lá embaixo. Até que vi um homem de camisa rosa furando os quatro pneus do nosso carro de reportagem. Um dos técnicos estava na janela comigo e se espinhou.

– Vou descer!

– Vai não. – disse agarrando o braço dele.

– Eles tão furando os pneus do carro!

– Deixa. Vou telefonar pra a emissora e pedir outro carro.

– Não, eu vou lá!

– Não vai não. O homem aparece para a entrevista e onde você está? Fica aqui. Deixa o carro pra lá.

Telefonei para a chefia de reportagem, contei que os grevistas estavam furando os pneus do carro, disse que precisávamos de outro carro para ir embora e de funcionários da área de Transporte para trocar os pneus ou rebocar o carro. Gravamos a entrevista e descemos. Ficamos na portaria esperando a chegada do outro carro de reportagem. Quando o outro carro chegou, saímos.

– Você não diz nada. – pedi ao técnico que continuava furioso. – Fica na tua.

Colocamos o equipamento no carro e estávamos prontos para ir embora, debaixo de palavrões, vaias e o indefectível “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Saí do carro e chamei o homem de camisa rosa.

– Você sabe o que vai acontecer agora por causa dos pneus furados?

– Ih, não sei quem foi não!…

– Foi você. Vi lá de cima, mas isso não importa. O que interessa é o que vai acontecer agora. São quase sete horas da noite. Um funcionário da Globo, que está doido para ir pra casa depois de um dia de trabalho, vai vir aqui pra trocar os quatro pneus desta camionete. O cara trabalhou o dia todo. Talvez esse cara ganhe menos que você. Pensa nisso.

Tenha calma, já vamos para o Riocentro.

– Meu amigo, pensa comigo: nós vamos gravar e levar as reivindicações de vocês. Se nós não gravarmos, não levamos nada e não há opção. Nada entra no telejornal.

Eram muitas conversas. Uma vez a conversa foi com o próprio Leonel Brizola que ironizava a Globo nas coletivas de imprensa.

Pra quê você quer gravar entrevista comigo se a sua emissora não coloca no ar?

Quem dera fosse a “minha emissora”.  

– Essa decisão não é minha. A minha parte é gravar a entrevista e levar. – respondi para gozo dos coleguinhas que assistiam ao embate. – O senhor sabe de uma coisa? O senhor fala demais. Cada resposta tem trinta minutos, o tempo do telejornal.

– Ah, se eu falar menos vai entrar no telejornal?

– Não posso garantir, mas acho que a chance aumenta muito. Vamos tentar? Eu faço a pergunta e o senhor tenta responder em, no máximo, vinte segundos?

Fiz a pergunta. O então governador respondeu. Passou dos vinte segundos.

vendo? Falou demais! Seja objetivo. É assim e assado, ponto final. Vamos de novo.

Gravei novamente. E o governador respondeu em vinte segundos.

– Fui objetivo?

– Podia ser um pouco mais, mas vamos ver.

Entrou no telejornal. Na íntegra. Muitos anos depois, eu já era chefe do Departamento de Produção RJ da Globo News, alguém teve a ideia atrevida de convidar Leonel Brizola para uma entrevista no estúdio. Coube a mim receber o ex-governador na garagem da emissora e conduzi-lo pelos intermináveis corredores.

– Obrigada por aceitar o convite. – disse educadamente.

– Estou entrando na cova dos leões… – ele emendou.

– Senhor Brizola, não começa…

No final da entrevista, coube a mim conduzi-lo de volta ao carro na garagem.

– Foi tudo bem? Doeu? – perguntei.

Ele deu um sorriso e entrou no carro.

Então, encostei-me na mesa do chefe de reportagem…

– Você não vai mandar uma equipe pra esse show? – perguntei.

– Não, é uma promoção da concorrente.

– Não precisa entrar. A equipe fica do lado de fora. Vai que explode uma bomba?!

– Bomba? Vira essa boca pra lá!

– Chefia, estamos em época das bombas e esse show é em homenagem ao dia do trabalhador!…

– Vira essa boca pra lá, mulher!

Além da bomba na OAB, outra explodiu na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e um artefato mais caseiro na sede do jornal Tribuna da Luta Operária. Uma carta-bomba foi enviada a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), mas não explodiu porque foi desativada graças a um telefonema anônimo. Como também eram anônimos os atentados. Ninguém assumiu as autorias. Enfim, vivíamos dias de terror!

Mas eu fui ao show. Recebi um telefonema de uma assessora de imprensa poderosa me convidando para um dos locais reservados, fora da multidão. A trupe da emissora saiu cedo. Chamei uma amiga que aceitou o convite. Na pior das hipóteses, seria um passeio de carro. Naquela época ainda era aprazível dirigir da zona sul a Barra da Tijuca sem engarrafamentos.

Dá para acreditar que esqueci completamente o pressentimento da bomba? Ficou só o pavor da multidão. O que eu pensava era que, se o tal lugar reservado não fosse tão reservado, eu saía. Quando chegamos, o show já tinha começado. Não havia movimento de pessoas fora do Riocentro. Estacionei o carro e caminhamos para a porta de entrada, a única. Mas, no caminho…

– O que é isso? – me assustei ao ver o Puma estraçalhado.

Me aproximando até enfiar a cara dentro do carro. E lá estava um homem com as tripas de fora e um dos pés no chão do estacionamento. O assoalho do carro havia sumido. Que susto!

– Menina, tem um homem morto aí. – falei para a minha amiga. – Será que o carro explodiu?

Eu havia vendido um carro da mesma marca e cor, recentemente; um carro construído com fibra de vidro, material bastante inflamável. Tive dois, mas sempre pensava que fibra de vidro e gasolina é uma combinação perigosa.

– Será que esse carro explode assim? – comentei com minha amiga. – E esse homem?

Só aí apareceu um segurança do Riocentro pedindo para nos afastarmos.

– O carro explodiu? – perguntei ao segurança.

– Explodiu. E pode ter outra bomba.

– Bomba? Foi bomba?

– Foi. Tinha outro homem. Ficou um bocado machucado. vendo as marcas de sangue naquela pilastra? – ele apontou. – Levaram ele pro hospital.

Foi me dando uma tremedeira. Agora está dando de novo.

– Onde estão os carros de reportagem?

– No estacionamento dos fundos. – o segurança apontou mais para longe.

Peguei minha amiga pela mão e começamos a correr. Não sei que carros de reportagem eu procurava. O chefe deixou claro que não mandaria nenhuma equipe. Não sei mesmo o que pensei. Corria e corria. Passei pela entrada do local onde acontecia o show. Registrei na mente que era “uma” porta para entrar e sair. Ouvia Elba Ramalho e a multidão lá dentro cantando Coração Bobo. E corria pelo lado de fora do prédio à procura dos carros de reportagem. Até que cheguei ao que seria a parede que dava para o palco pelo lado de fora. E uma bomba explodiu. O chão tremeu. Senti cheiro de pólvora.

– Meu Deus, vai ser o estouro da boiada! – gritei para minha amiga e corremos para o meu carro. – Preciso ligar pra Globo. Vamos embora!

A pobre criatura que aceitou o convite de última hora para me fazer companhia até o Riocentro entendia menos que eu. Eu corria, ela corria. Entramos no carro. Foi uma dificuldade enfiar a chave na ignição de tanto que minha mão tremia. Liguei o motor e engatei a marcha. Alguma coisa se partiu debaixo do pneu dianteiro esquerdo e fez barulho. Na minha cabeça era outra bomba. Eu estava apavorada. Mas não voamos pelos ares, o carro continuou a rodar, respirei fundo e acelerei para a saída. Registrei que, na minha frente, saía um Passat branco. Era natural que alguém mais estivesse fugindo das bombas. Era assim que eu me sentia, fugindo das bombas. Mas eu tinha que avisar o chefe de reportagem para ele mandar uma equipe. Nem por um segundo lembrei da previsão de bombas que havia feito na emissora para não ir ao show com os colegas. Vá se entender a mente humana. Ou será só a minha?

– Os colegas!… Meu Deus!… Vão sair todos por aquela porta estreita! Vai ser uma tragédia! – falei no carro.

– Fernanda, se acalma ou a gente vai se acabar num poste. – minha amiga tentou.

– Eu preciso ligar pra Globo… Tem telefone no Carrefour…

Eram quase dez horas da noite quando chegamos ao, até então, único supermercado da Barra. Sei a hora porque o Carrefour fechava às dez e estava fechando. Corri para o orelhão e o chefe de reportagem atendeu.

– Chefe, é a Fernanda. Fernanda Esteves! … Pois é, estourou uma bomba dentro de um carro no estacionamento do Riocentro. Tem um homem dentro do carro com as tripas de fora. Um segurança me disse que tinha outro homem que foi levado pro hospital muito machucado. Daí que eu estava procurando os jornalistas e estourou outra bomba. Tinha muita gente lá dentro e a porta de saída é estreita. Deve estar todo mundo tentando sair e se matando.

– Puta que o pariu! – o chefe respondeu e desligou o telefone.

(continua )

3 comentários em “PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. Parte 11

  • abril 15, 2017 em 9:19 pm
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    Oi Fernandinha, aqui é o Sergio Carvalho, cinegrafista, eu estava na emissora nessa noite, lembro que o Léo Batista entrou desesperado na redação e pediu informações sobre vítimas dizendo que sua filha estava no show do Rio Centro, muito preocupado e quase chorando pedia carona para ir com os colegas mas a equipe já tinha partido. Ficou lá algum tempo e nós tentando acalmar o Léo, as notícias foram chegando e o nosso querido apresentador foi se acalmando até receber o telefonema de que nada grave tinha acontecido com sua filha nem seus acompanhantes.

  • maio 8, 2017 em 4:07 pm
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    E eu corrida… Fui pra casa.

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