PEÕES DE GRIFE – O TELEFORNALISMO EM CAPÍTULOS / PARTE 2

O COMEÇO – UMA APOSTA

Versão resumida e acrescentada da história do Desculpem a nossa falha

 

A primeira vez que apareci na tevê tinha dezoito ou dezenove anos.

Vamos combinar, de imediato, que uma memória afiada, especialmente para datas e nomes, não está entre as minhas qualidades. Nem é por causa da velhice, a deficiência vem desde a infância. Lembro ( isso eu lembro ) que mamãe refazia as perguntas das provas escolares em casa e eu acertava a maioria que havia errado.

– Por que não respondeu certo na prova? É falta de atenção!…

Eram várias faltas, inclusive de atenção. A escola foi um fardo. É chato admitir e dar um mau exemplo, mas estou em numerosa companhia, até de pessoas famosas pela genialidade. A escola é um desafio muito grande de aprendizagem e de convivência no começo de nossas vidinhas. Fim do desvio.    

Então, quando apareci pela primeira vez na tevê eu tinha dezoito ou dezenove anos. Lembro bem porque já tinha carteira de habilitação para dirigir carros. Pegava o carro de papai escondido e dirigia o carro de vovó com permissão. Minha avó foi uma figuraça. Ficou viúva, comprou um Opala e voltou a dirigir depois de trinta anos. A família ficou apreensiva. A potência dos carros havia mudado para muito mais e o trânsito também. Mas vovó não gostava de depender de ninguém, comprou o carro e voltou a dirigir. Não tinha medo de nada.

– Mãe, pra quê um carro tão grande? – era minha tia Leia em pânico.

– Porque tem a frente comprida e o motor. Se bater, antes das minhas pernas tem a frente do carro e o motor. – vovó respondia.

Tia Leia implorava para eu acompanhar vovó nos fins de semana na casa de praia do Recreio dos Bandeirantes. Para fazer companhia e dirigir o carro. Foi complicado. Eu estava no auge da vontade de sair com as amigas nos fins de semana. Mas, se eu não fosse, vovó ia sozinha. Então, eu ia com vovó constantemente.      

Foi num comercial de margarina, na época em que abriu o primeiro hipermercado no Rio, o Carrefour. Em vez das compras básicas na padaria da Barrinha, no centro da Barra, passamos a parar no hipermercado. Vovó estava fascinada com o mercadão. E foi numa parada que, no estacionamento, dei de cara com uma promoção de margarina. Montaram uma barraquinha com potinhos do produto e os caras de pau podiam gravar um comercial, com texto próprio. Não sei o que me deu (até hoje não sei o que me dá, porque sou tímida, muito tímida), me apresentei como candidata. Eu deveria pegar o pote de margarina, mostrar para a câmera e dizer qualquer coisa que me ocorresse. Disse: “Margarina Cremosa vai me fazer ficar famosa”. A agência de publicidade escolheria os melhores vídeos para exibir na tevê, em cadeia nacional. Dias depois, me telefonaram. Fui uma das escolhidas. Deveria ir à agência para receber uma quantia razoável em dinheiro e assinar o contrato autorizando a exibição do comercial. Peguei a grana e autorizei. Vez em quando eu aparecia na tevê, no comercial da margarina, sem maquiagem ou qualquer produção, como normalmente se vai a um mercado. Okey, tem gente com paciência ou mania de se arrumar para tomar o café da manhã. Eu não. Foi engraçado, divertido e a família entrou em alvoroço.

– Olha a Maria Fernanda!…

– Vem ver a Maria Fernanda!…

É, eu ainda era a Maria Fernanda. Nome composto. De acordo com as informações da família, nome escolhido pela minha querida tia Leia, irmã da minha mãe, prevendo que a sobrinha seria uma mulher alta, de fibra, forte, bonitona…

– Minha tia, lamento tantas decepções. – comentei um dia.

– Não me decepcionei. – titia retrucou, como eu esperava que retrucasse ou não haveria amor na família.

Desde a escola – na época, primária – sofri o que a modernidade chama bullying. As meninas se recusavam a me receber no grupo delas e os meninos também, porque eu era uma “garota feia”. É claro que magoou. Entre as meninas nem tanto, porque eram chatas e cheias de não-me-toques; entre os meninos – onde estavam as brincadeiras mais empolgantes – foi ruim. Minha mãe ficava irada quando eu, poucas vezes, contei em casa que os colegas me chamavam de feia.

– Você não é feia coisa nenhuma! Tira isso da cabeça!

É o que se espera ouvir da mãe, mas a realidade no meu mundinho de escola foi bem diferente. Eu era criança e a exclusão dos grupos me isolou e me acostumei à solidão muito cedo. Assim, fui formando a minha personalidade. Não sei se foi bom ou ruim. Quando dei por mim, preferia estar entre os adultos. Não me metia nas conversas porque mamãe me olhava feio e eu fechava a boca, mas ouvia muito. Tornei-me uma criança adulta. Depois, uma adulta criança. É essencial que seja ao contrário ou são problemas a vida toda. Mas, assim foi e tem sido, e só na entrada da velhice decidi ao menos tentar equilibrar a criança e a adulta. É um autopoliciamento intensivo e, penso, inútil.        

Tenho para mim que, na época do comercial de margarina, eu estava na transição da criança adulta para a adulta criança. Foi divertido, mas, nem por isso, me encantei com a chamada “telinha” – na época, era telinha mesmo. Foi mais um capítulo na minha interminável capacidade de me aventurar por caminhos criativos, o que me tem salvado de depressões e da necessidade de drogas pesadas.

Anos antes de aparecer na telinha a trabalho (três ou quatro anos depois do comercial de margarina), ganhei uma tevê em cores, logo no início da novidade colorida. Um prêmio. Enviei uma frase sobre uma palha de aço para um concurso. Foi assim: “Um dia no supermercado não resisti a um psiu, estava sendo paquerada por um saquinho de Bombril”.

Não sei o que baixa em mim vez em quando. Sou tímida, repito. Pode ser um espírito galhofeiro que me acompanha. Quando ele se manifesta, coisas estranhas acontecem. Até quando tento fazer ou dizer algo a sério, não demora, descamba para a galhofa. Dá para acreditar que fiz prova para o Instituto Rio Branco? Pode rir, é engraçado mesmo. Diplomata?!… A mesma probabilidade do Papa se apresentar num show de rock sacudindo a batina em dueto com o Mick Jagger. Mas minha querida tia Leia -muitas vezes ela – meteu na cabeça que eu seria alguém na vida e me incentivou a desafios desse tipo. Fui reprovada, claro!… Lembro-me que escrevi uma redação recheada de ironias. Tentei me controlar, mas logo minha mão tomou conta da caneta e meus olhos perceberam o habitual caminho para a narração criativa. Eu percebo, mas não consigo parar. Pense nisso numa redação sobre Economia (esse era o tema se a memória não me falha, e falha muito). E encerra-se aqui a tentativa de um emprego respeitável na área diplomática.

Papai queria porque queria que eu fosse farmacêutica. Era uma profissão respeitada e, mais importante, dava dinheiro. Mamãe torcia o nariz.

– Quem vai fazer a faculdade é ela, não é você. É ela quem tem que saber o que quer.

E o que eu queria? Não fazia a mínima ideia. Mamãe sempre disse que a educação é a melhor herança, porque ninguém pode roubá-la. Ela e papai não fizeram faculdade e gostariam de ver as filhas formadas no ensino superior.

– Mas o mundo também precisa de balconistas e técnicos. – lembrava tia Leia numa contradição explícita a ideias como a prova do Instituto Rio Branco.

Ora, ora, ora… vovó, papai e mamãe deram muito bem conta da vida sem curso superior. Vovó e papai nem o básico escolar tinham. Não se trata de um incentivo à deficiência de estudo, melhor ter. Vovó e papai não tinham grandes ambições. Era trabalho, trabalho e… trabalho. Mamãe foi funcionária pública crônica. Ela defendia a ideia que um servidor público tinha, imagine, que servir o público!… Mamãe trabalhava com empréstimos para a compra da casa própria. Não é novidade do século vinte e um não se conseguir pagar os empréstimos e minha genitora se empenhava para que os endividados, atualmente chamados de negativados, conseguissem quitar as dívidas e dormir em paz. Mamãe tinha um grande orgulho de ir trabalhar TODOS OS DIAS e de, efetivamente, servir o público. Quantas vezes, andando com mamãe na rua, fomos paradas por alguém que a reconheceu.

– É a dona Zélia, não é? Graças à senhora tenho a minha casinha.

Vovó, a mãe da minha mãe, chegou ao Brasil de navio aos dezesseis anos de idade. Andou mentindo onde precisasse que tinha dezoito, conseguiu documentos e o embarque num navio no porto de Lisboa, em Portugal. Foi empregada doméstica, arrendou Pensões, esquentou muito a barriga no fogão e molhou muito a barriga no tanque. Papai foi sócio em botequins, lanchonetes e restaurantes. Quem inaugurou o curso superior na família foi tia Leia, com uma faculdade de Direito. Foi defensora pública, promotora, juíza e desembargadora em Brasília, na capital do Brasil. Tão correta em tudo que chegava a dar agonia.

– Se eu fizer algo errado, sou pega. Parece que está escrito na minha testa. Prefiro não fazer besteira.

Ela me deixou essa herança também. Está na cara quando faço algo errado. A diferença é que não herdei o autocontrole da minha tinha e … faço coisas erradas. E me lasco, claro. Quem mandou meus pais não me ensinarem a trambicar? Não me ensinarem, enfim, a viver neste mundinho mais ou menos? Mas melhorei muito com os anos. Antes, eu fazia coisa errada e eu mesma contava. Agora, não. Não conto. Às vezes conto. Estou contando…

Pois, então, chegou o dia da inscrição para o Vestibular. Êta coisa mais nojenta! Como é que uma jovem, no auge dos “não sei”, pode simplesmente marcar um xis no quadrado de um papel e optar por uma profissão para a vida toda? Essa é a teoria. Estava um calor medonho neste Rio de Janeiro, o que não é novidade. Mamãe me deu o dinheiro da passagem de ônibus e da taxa de inscrição. Lá fui me inscrever. No caminho da grande decisão, os solavancos do ônibus embaralhavam ainda mais meus pensamentos. Na fila, comprida, debaixo do maçarico aceso que era o sol naquele dia, pensei:

– Farmacêutica não. Medicina?!… Papai vai ficar orgulhoso com uma filha doutora.

Eu devia estar com os miolos assados. Medicina? Sangue? Tripas? Ossos quebrados?… Pois coloquei um xis na opção MEDICINA! Preenchi o formulário, paguei a taxa e peguei o ônibus de volta para casa.

– O que foi que eu fiz? Médica? maluca?…

Cheguei em casa tão macambúzia que mamãe levou um susto.

– Foi assaltada?

Na década de setenta, ser assaltada ainda era um grande acontecimento.

– Fui assaltada por uma “ideia de jerico”, como a senhora diz. Optei pela faculdade de medicina. MAS NÃO QUERO SER MÉDICA!!!

– Se não quer ser médica por que marcou isso? Vai lá e marca o que você quer!

– Eu gastei o dinheiro da taxa…

– Eu dou mais dinheiro e você paga outra taxa, mas vai lá e marca o que você quer!

O dinheiro não faltava nem sobrava. Papai e mamãe eram bem controlados. Peguei o ônibus de novo. Sacolejando e assando, entre prós e contras, achei que a opção mais a ver comigo era a faculdade de Comunicação. O que eu gostava mesmo era de escrever.

Nada que me fizesse sonhar com a Academia Brasileira de Letras. Escrevia sobre situações que presenciava. Sobre a senhora que escorregou do assento quando o imbecil do motorista fez a curva como se estivesse pilotando uma Ferrari. A senhora caiu sentada no corredor do ônibus. Eu estava num dos bancos de trás. Apressei-me a ajudar a senhora, caída e assustada, a se levantar. E iniciei um discurso.

– Você tem mãe? – encarei o motorista. – Tá pensando que carrega gado? Para essa droga que eu quero descer!…

O resultado prático do discurso foi eu continuar a volta para casa a pé. O dinheiro para o ônibus era contadinho. Mas fiz o meu protesto. À noite, meu horário preferido até hoje para escrever, coloquei a história no papel. E do papel para uma gaveta. Não foi a primeira história engavetada, muito menos seria a última. Eu tinha aulas de datilografia no colégio e convenci mamãe a me dar uma máquina de escrever “para os trabalhos escolares”. Como mamãe dizia: “Se arrependimento matasse…”. Eu varava as madrugadas batucando nas teclas da máquina. Madrugada sim, outra também, mamãe entrava no quarto para a bronca.

– Para com isso pelo amor de Deus! … Vai dormir! Amanhã não acorda!…

Um vizinho foi mais criativo:

– Dá um tempo pica-pau!…

Cursei o Clássico (na época eram o Clássico e o Científico na etapa antes da faculdade), mais indicado para os que optavam pelas Ciências Sociais em vez das Ciências Exatas, e também para os que queriam distância da matemática, da física e da química. O Clássico também tinha esses fantasmas, mas eram diluídos em meio a mais história, geografia, literatura e português. De biologia eu até gostava. Foi nessa época que comecei a me aventurar nos textos roteirizados. Estava no segundo ou no terceiro ano do Clássico quando a professora de biologia pediu um trabalho em grupo. Devíamos apresentar uma aula sobre vírus, bactérias, fungos, moléculas e outras esquisitices… Era um colégio de freiras, só de meninas, de classe média alta e gente rica, mas uma ou outra aluna era de classe média-média como eu. Formamos um grupo com personalidades e classes sociais bem diferentes. Lá em casa não havia mesada, não podíamos deixar comida no prato e guaraná era só aos domingos. Meus pais só não economizavam na formação das filhas e o mesmo acontecia com outras meninas de classe média-média que estudavam naquele colégio. Nosso grupo tinha ricaças, ricas e remediadas como eu. Em comum no grupo, uma incontrolável vontade de inventar situações engraçadas.

Foi nessa época que surgiu o meu “amigo invisível”, na verdade uma amiga. Parece que todas as crianças têm um e vai-se lá ter certeza de que é pura imaginação. Há quem diga que as crianças, quando parecem falar sozinhas, estão conversando com amigos ou amigas invisíveis; pura imaginação ou espíritos que aparecem e falam com os pequenos e, para adultos, só podem ser percebidos pelos médiuns. Minha tendência é acreditar no mundo espiritual, em espíritos que nos rodeiam, mas prefiro não ver nem ouvir nada. Em muitos sonhos, tenho a nítida sensação que encontro e converso, em espírito, com espíritos. Alguns, reconheço do plano físico, outros nunca vi.

A Ambrósia, uma pulga, foi realmente criada por mim. Podia ser uma pulga espiritual, mas não era. Admito que estava velha numa comparação com crianças, mas a verdade é que a minha amiga invisível surgiu na adolescência. A Ambrósia ia para o colégio comigo. Sei lá por que se chamou Ambrósia, os nomes também surgem. Às vezes, Ambrósia estava num bolso da blusa, outras vezes na bolsa, outras em cima da carteira escolar… Assim que anunciei a existência da Ambrósia, as integrantes do meu grupo imediatamente aderiram à ideia. Deus do céu, chegávamos a interromper aulas de professores bem-humorados “porque a Ambrósia tinha pulado para a mesa deles”.

– Ambrósia tá na mesa da professora? – era uma do grupo.

Acontecia de repente, e nem sempre eu estava ligada e levava um susto. O grupo recebeu a Ambrósia e passou a conviver com ela independentemente de mim. Pois eu levantava da cadeira, andava até a mesa da professora e pegava a Ambrósia.

– Conseguiu pegar? – era a professora ou o professor bem-humorado.

– Tranquilo. Desculpe interromper a aula. – e colocando a Ambrósia no bolso da blusa – Agora chega, já apareceu!

A aula prosseguia. Ainda somos adolescentes aos dezoito anos? Pois era a idade que eu tinha. Foi a época fabulosa da carteira de habilitação. Finalmente legalizada. Eu dirigia carros desde os treze anos com as bênçãos traquinas da minha avó e do meu padrinho, o Dinho – o segundo marido de minha avó. Dirigia em locais desertos o carro do Dinho, Um Chevrolet Bel Air 1958, automático, sem riscos para mim e para outros. Com a carteira de motorista e o empréstimo compulsório do carro de papai fizemos bons passeios para “trabalhos em grupo”. Não lembro que trabalho era, mas o piquenique na Serra foi divertidíssimo. Pensando melhor, o trabalho de biologia não foi o primeiro exercício de escrita roteirizada. Eu havia escrito e apresentado uma peça de teatro no falecido ginasial, atualmente apresentado aos adolescentes brasileiros na versão “ensino fundamental”. Foi algo sobre História do Brasil. O que lembro bem quando penso no ginasial é uma fuga idiota da escola. Eu nem era chegada a estripulias porque mamãe até admitia notas vermelhas, mas mau comportamento de jeito nenhum!… Não sei o que me deu para embarcar na aventura. Alguém inventou fugir da escola e fui no bolo. Um plano desastroso. Nos perdemos nas dependências do enorme prédio, levamos um baita susto com a caveira na penumbra do laboratório de Ciências e acabamos saindo no mesmo horário de sempre, misturadas à turba habitual. O problema foi que as cadernetas de presença eram entregues na última aula e não pegamos as nossas. A freira das cadernetas (Também era uma escola de freiras) tinha nas mãos as fugitivas. Foi só esperar cada uma de nós pegar a caderneta para entrega-la com uma advertência que deveria ser lida e assinada pelo pai ou pela mãe. Foi realmente desastroso. Mais que uma advertência, a anotação na caderneta convocava a presença de um dos genitores ao colégio.

– Além de você fazer asneira ainda tenho que passar vergonha no colégio?! – era minha mãe possessa.

Então, no Clássico, dei a ideia de montarmos uma peça de teatro para o trabalho de biologia. A professora era uma das bem-humoradas e aceitou. Até precisaríamos estudar a matéria, mas lá vinha a diversão que adotei como companheira fiel em quase todas as situações desta minha vida, inclusive nas mais inusitadas. Éramos seis no grupo. Cada uma se fantasiou de alguma personagem biológica. Uma era a bactéria, outra o vírus, outra o fungo… Cada uma criou e fez a própria fantasia da maneira que a imaginação caracterizou a bactéria, o vírus e o fungo. Estudamos os assuntos e eu escrevi o texto. Fiquei fora do palco comandando a bagunça organizada. E me arrependendo por não estar no núcleo da diversão. Entre explicações sobre biologia e muitas risadas, cumprimos a tarefa chatíssima do trabalho que, em princípio, deveria ser entregue em papel. Talvez tenha sido o trabalho em grupo mais divertido da história daquele colégio. A professora achou que a nota dez para o trabalho era pouco. Ela deu duas notas máximas para cada uma!…

Outra inspiração que me lembro, dessa vez sozinha, foi escrever a redação da prova de literatura toda em versos rimados. A professora ficou exultante. Mais um dez. A fartura de notas máximas foi me incentivando a criatividade, no colégio e na vida. Mais tarde – eu já cursava a faculdade de jornalismo e fazia estágio na Reportagem da TV Globo – era ser dia de Lua Cheia para a troca de telefonemas entre amigas e amigos. Saíamos para reverenciar o satélite da Terra no então restaurante Rio’s, no Aterro do Flamengo, zona sul do Rio. Todos os meses, lá íamos nós ao restaurante com mesas e cadeiras ao ar livre para degustar o espetáculo da lua refletida no marzão salgado da Baía de Guanabara. Numa dessas noites, inventamos jogar vôlei. O detalhe é que não tínhamos uma bola. Para quê bola se tínhamos tanta imaginação? Dividimos o grupo em dois times e jogamos longas partidas. Havia belas jogadas aplaudidas, cortadas fenomenais e vergonhosas bolas jogadas para fora do campo. Alguém caminhava muito para pegar … a bola.

– O próximo que jogar a bola longe vai buscar! Eu não vou mais! – uma das jogadoras se espinhou.

Ainda discutíamos lances.

– A bola não saiu!

– Saiu sim! Olha a marca aqui!

Passou o tempo, o tempo passou, uma tarde fui com minha irmã a um almoço na cidade de Itaipava, na região serrana do Rio. Eu ainda era estagiária, mas já aparecia com frequência na tevê e era um tantinho conhecida por desconhecidos. Lá pelas tantas, um rapaz se aproximou de nós.

– Conheço vocês. – ele disse.

Bem, conhecer a mim, àquela altura, podia ser, mas ele se referiu também à minha irmã.

– Do Aterro do Flamengo. Não são vocês que jogam vôlei sem bola?

Sim, nós éramos do time. E mais não foi dito, pois nada havia a dizer.

– Eu me divertia muito vendo o jogo. – o rapaz declarou.

Onde estava a plateia que nunca vimos? Mas que seria o máximo uma plateia torcendo num jogo de vôlei sem bola, seria.

Na faculdade de Comunicação ainda não havia a tal da monografia, mas, ao cursar a faculdade de Direito, me deparei com a chatice. Eu precisava de um professor orientador. Escolhi uma professora que se destacava pelo colorido na maquiagem e por chegar na faculdade dirigindo um fusca cor-de-rosa. O tema que me ocorreu foi “Os crimes nos contos de fadas”. Cortar as tranças de Rapunzel seria tipificado como lesão corporal grave por ser uma adolescente; Chapeuzinho Vermelho seria estupro da vovozinha e assédio sexual a Chapeuzinho por parte do lobo. João e Maria seria sequestro de menores ou algo parecido. O tema soou bizarro demais até para a professora… bizarra. Então, tá, fui reto e em frente. Eu entendia alguma coisa sobre opinião pública graças aos anos como jornalista e estava tateando no Direito. Minha monografia foi sobre a influência da opinião pública nas decisões judiciais. Vários casos de crimes famosos em que o clamor popular exigia condenações exemplares. Um ou outro crime eu sabia de cor e salteado por ter participado das coberturas jornalísticas. A professora aceitou a ideia, mas me aconselhou a aprimorar a linguagem mais para os rebuscados do Direito. Assim foi feito.      

Voltando à inscrição para o Vestibular, em que profissão eu poderia escrever? Ora, ora, ora, no jornalismo e na publicidade. Encarei mais uma vez a comprida fila e pimba!… Marquei o xis em Comunicação. Esperta, muito esperta! Grande garota! Eu tinha a ingenuidade de acreditar que poderia escrever o que bem entendesse e ainda ganhar dinheiro. Aqui para nós, era o útil de mãos dadas com o agradável. Uma faculdade com pouca matemática, embora eu tivesse feito as pazes com a matéria no terceiro e último ano do Clássico quando um professor, indignado com o horror das alunas a matéria, declarou:

– Meninas, matemática é pra aprender a raciocinar!

Ah, é isso? Aprender a raciocinar era bom. Por que não me explicaram logo que a matemática exercita o raciocínio? Tantos anos rosnando para a matemática! Desde que escutei essa declaração tão definitiva, quando encontro uma criança e a conversa entra pelo horror a matemática, repasso a explicação mágica. Fiz as pazes com a matemática, mas não me apaixonei, preferi viver o mais distante possível da soma dos catetos e das hipotenusas. Escrever! Escrever histórias nos jornais. Estar na praia e observar alguém lendo a reportagem escrita por mim. Telejornalismo, nem em sonho!…

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