PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. parte 10

CAROLAS DO INFERNO!

Versão da história contada no Desculpem a nossa falha

 

A primeira das três visitas do papa João Paulo II ao Brasil foi em 1980. Eu continuava estagiária precisando muito mostrar trabalho. Havia os repórteres especiais e os demais. Nessa época, eu não estava nem entre os demais. Portanto, era mais que compreensível estar na borda da cobertura da missa que o papa celebraria no Maracanã. Eu e, na época, um assistente de cinegrafista, também precisando mostrar trabalho, tínhamos a missão de “correr por fora”. Isso significa não ter uma pauta específica. Observar, procurar, fazer e mostrar. O assistente – que promovo logo a cinegrafista ou isto se complica – era pilhado e eu também. Fazíamos uma dupla perigosa. Quando não dava errado, corríamos o risco de fazer sucesso. Quando dava errado, nos metíamos em grandes encrencas, inclusive físicas.

Chegamos ao Maracanã duas horas antes do início da missa. Havia pouca gente. Logo percebemos que o papa chegaria ao altar caminhando por um tapete vermelho estendido no gramado do estádio. Se Sua Santidade passaria por ali, era por ali que deveríamos ficar. Nem pensávamos em entrevistar o Papa. Até então – nem depois – nenhum jornalista do mundo havia conseguido entrevistar João Paulo II, imagina se nós… Mas que chegaríamos perto do homem, chegaríamos. E ali era o melhor lugar.

Aos poucos os e as fiéis foram chegando. Quatro homens colocaram numa das laterais do tapete uma maca com um idoso. Apurei. O velhinho era polonês, estava muito doente e tinha a esperança de receber uma bênção do Papa. Apostei comigo mesma que ele ia conseguir. Tinha que ser muito pouco papa para não se comover e parar diante de uma maca com um idoso. Assim como nós, também foi ali que um milhão de carolas histéricas resolveram disputar o melhor lugar para ver e, se deixassem, agarrar o Papa. Nos preparamos, a briga prometia ser das boas. O cinegrafista se ajoelhou aos pés do doente na maca, com a câmera escondida entre as pernas. Eu fiquei com a barriga grudada na maca na altura da cabeça do homem, com o microfone escondido debaixo da maca. Na minha imaginação, quando o papa se agachasse para a bênção, teríamos em quadro a cabeça do Papa, a cabeça do homem doente, a minha cabeça e o microfone.

Pagamos a penitência antes de alcançar a graça. Ficamos ajoelhados por uma hora. Quando o papa apareceu no tapete, no início da caminhada até o palco, eu e o cinegrafistas tínhamos os joelhos em brasa. Nossas colunas ardiam! … E o Papa veio se aproximando, ora abençoando os fiéis que acenavam de um lado, ora abençoando os fiéis que acenavam do outro lado. A multidão delirava! Junto com o papa, vinha o arcebispo Paul Marcinkus, na época presidente do Banco do Vaticano, conhecido como o “banqueiro de Deus” e também como “gorila”. Era um homem enorme! Conta a história que o grandalhão acompanhava o papa Paulo VI como guarda-costas e que até o salvou de uma punhalada nas Filipinas. E também que teria salvado João Paulo II no atentado na cidade de Fátima, em Portugal, embora o papa tenha dado esse crédito a uma intervenção da santa.

O Maracanã lotou! A multidão em festa! Uma só torcida! O coro de milhares de pessoas cantava a música “João de Deus”, do compositor Péricles de Barros. Emocionante. Mas eu e o cinegrafista não podíamos cair na tentação de nos distrair com tantas emoções. O Papa estava chegando perto do polonês na maca e, consequentemente, de nós. Alguém mostrou ao Papa o homem doente e João Paulo interrompeu a caminhada para uma benção especial. Pois o Papa se ajoelhou, disse algumas palavras em polonês, fez o sinal da cruz no rosto do doente e eu parti para a entrevista. Não foi assim tão friamente profissional. Fiquei pelo menos dois segundos hipnotizada. Os olhos azuis do Papa direto nos meus olhos castanhos. Olhos nos olhos! Eu sentia o cheiro da loção de barba de João Paulo II, na época, com todo o respeito, um belo atleta.

– Fernanda, vai! – foi o cinegrafista mostrando a câmera.

Eu estava mesmo para ir. O Papa me olhava como quem espera uma ação. Só faltou dizer “Olá!”. Ele terminou a benção, se levantou e eu me levantei junto para a entrevista. Foi aí que percebi que o fio do microfone estava preso, debaixo dos pés das centenas de beatas aos gritos, com suas máquinas fotográficas. Pareciam mariposas enlouquecidas em volta da lâmpada acesa.

– Fernanda, vai! – era o cinegrafista com a câmera ligada para o grande momento.

Danei a beliscar as pernas das beatas até conseguir soltar o fio. Quando consegui e perguntei ao Papa como ele estava se sentindo no Brasil – ou algo nesse sentido -, o Marcinkus me viu. O Papa, ainda olhos nos olhos, me respondeu com a outra pergunta:

– Como?

Tentei simplificar para “Como vai?”, mas não deu tempo. Levei um safanão do Marcinkus que voamos eu e o microfone para cima das beatas. O Papa prosseguiu a caminhada até o palco e eu fiquei paralisada. Maldito seja o Capeta!… Fracassei na entrevista depois de tanto tempo ajoelhada num plano de captura perfeito. Bendito seja Deus porque fiquei olhos nos olhos com um homem que se tornaria santo. João Paulo II tinha alguma coisa de especial mesmo.

– O que aconteceu? Por que você demorou pra fazer a entrevista? – era o cinegrafista irritadíssimo.

– Essas malucas! – apontei para as beatas. – Pisaram no fio do microfone e eu não consegui chegar no papa! Quando cheguei, levei um tapa! Que mão grande tem esse Marcinkus!…

A imagem que o cinegrafista gravou ficou linda. Nem precisou acionar o zoom da lente para o close de tão perto que estávamos do rosto do Papa. A imagem entrou em uma das edições da missa rezada pelo Papa no Maracanã, no momento em que alguém contava que ele abençoou o polonês na maca. Ao menos uma informação e uma imagem passamos. E foi tudo com o que contribuímos para a cobertura.

Nunca vou esquecer os olhos azuis do papa e o tamanho da mão do Marcinkus. Na emissora, o editor chefe do Jornal Nacional passou por mim no corredor.

– Quase, hem?!

É, quase. E eu precisando tanto mostrar trabalho. Eu teria sido a única repórter em todo o pontificado de João Paulo II a conseguir uma entrevista com ele. Mas as beatas! Carolas do inferno!

Chamo de “carolas” e “beatas” no sentido pejorativo as religiosas afetadas que perambulam 24 horas na igreja com ar de santas e têm ataques histéricos de olho nos padres bonitos. Dessas, tenho horror desde que fui obrigada a cursar o catecismo. Piorou quando me ofereci na igreja do bairro para ENSINAR o catecismo. Eu e minha amiga Maria Claudia. Tínhamos dezesseis anos de idade. Nós éramos as responsáveis pelos ensinamentos do primeiro semestre e as beatas enquadravam as crianças no segundo. Na verdade, consertavam o meu professorado. As aulas da Maria Claudia eram ipsis litteris o catecismo, uma chatice. Minhas aulas eram alegres! Eu fazia jogos com as crianças. Dividia a turma e quem acertasse as respostas das perguntas sobre o catecismo ganhava pontos. O que eu definia como aulas alegres, as beatas traduziram nas queixas ao padre como baderna.

– Feerrrnnanndaaa, suas aulas são uma bakunça! – era o padre com sotaque francês.

– Mas, padre Jojô…

– Não me chame de padre Chochô!…

Foi o primeiro e único semestre que eu e Maria Claudia ensinamos catecismo. Sinceramente, não me lembro, mas acho que fomos dispensadas. Quando nossas crianças fizeram a primeira comunhão, estávamos na igreja assistindo.

– Você não com vergonha não? – Maria Claudia me perguntou baixinho.

– De quê?        

– Amiga, as tuas aulas eram uma zona!

– Não eram não! Eram alegres!

Minha amiga Cláudia se tornou professora de Jardim de Infância. Tem o dom. Um dia, ela tinha lá qualquer coisa importante para fazer e me pediu o favor de ficar com as crianças uma tarde. Quase enlouqueci.

– Tia! Tia! Tia!…

– Que mané tia!… Todo mundo quieto! Calados!

Outra oportunidade que poderia ter me colocado no rol dos repórteres especiais foi na bomba do Riocentro.

Um comentário em “PEÕES DE GRIFE – o telejornalismo em capítulos. parte 10

  • Abril 7, 2017 em 12:30 am
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    😂😂😂😂😂rindo muito aqui amiga!!! Tenho saudades deste nosso semestre como catequistas na Paróquia do Padre José , jojô para os íntimos !!! Kkkkkkk

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