Meu querido Alfrey 2

 

Capítulo II

Assim que chegamos a casa, banho. O primeiro banho da criaturinha. O combate às pulgas precisava ser imediato. Na falta de shampoo para cachorro, usei o shampoo para gatos. Lá em casa, todos tomavam banho. Quietinho debaixo do chuveiro. Espalhei o shampoo e enxaguei bem enxaguado. Quietinho. Muita água… e muita sorte. Depois de sonhar com o cachorro que passou a ser real na minha vida, outra estranheza foi que nenhuma pulga sobreviveu para infestar os gatos e o apartamento. Isso é meio que um milagre. Uma vez, um amigo se hospedou na minha casa, por apenas dois dias, e, assim que ele foi embora, o apartamento estava infestado de pulgas. Só posso imaginar que ele trouxe uma ou algumas pulgas na bagagem, pois tinha cachorros na casa dele. Foi uma batalha acabar com as pulgas nos gatos, então o Ronnie e o Eduardo, vulgo Dudu, e no apartamento. Basta uma pulga!

A delícia ficou cheirosa. A coceira parou. Só aí ele foi apresentado oficialmente aos gatos, Xandi e Nando que já o observavam à distância. Cheiraram-se. Creio que se aceitaram ou eu teria percebido o contrário.

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Xandi no escorredor dos pratos e Nando

Mas a prova de fogo foi fazer o Alfrey – Alfrinho – entender que xixi e caquinha deveriam ser feitos nas folhas de jornal no banheiro. Tão pequeno, tão estreante na vida de cachorro e precisando aprender logo a compartilhar as regras dos humanos, embora as novidades fossem um outro apartamento e um outro banheiro. No apartamento com o pai, a mãe e os irmãos já havia as folhas de jornal. Naquela noite, me aboletei na cama do quarto em frente ao banheiro. Seria mais fácil ficar de olho na figurinha e o caminho dele para o jornal seria mais curto e reto. Acomodei-me na cama e ele se deitou ao lado, no chão. Dormia tranquilo como se não estivesse pela primeira vez longe da mãe, do pai e dos irmãos, na companhia de uma pessoa desconhecida. Ele dormiu, eu não. Por vários motivos. Ali estava a miniatura do cachorro que conheci em sonho; era o primeiro cachorro – e único – que adotei; vi pelo pai o tamanho que ficaria em alguns meses; morávamos num apartamento; o chão do apartamento era todo forrado de carpete, um paraíso para pulgas e um desastre se o bichinho não entendesse de imediato a ideia do jornal no banheiro; e eu já estava apaixonada. A ideia de devolver o meu Alfrey – Alfrinho – estava descartada, ainda que ele não entendesse a utilidade das folhas de jornal no banheiro. Daríamos um jeito, devolver não.

Tentei me concentrar na leitura de um livro, mas qual o quê, os olhos insistiam em admirar o filhotinho parrudo ao lado. Naquela época, hoje não mais, passar uma noite junto, para mim, era casamento. A união estava selada. E eis que Alfrinho acordou. Olhou para mim, olhou para a porta do quarto… era chegado o momento. A gostosura ficou de pé e tomou o caminho do banheiro. Larguei o livro e me estiquei para ver de longe o acontecimento. Ele fez tudo direitinho. E voltou a dormir no mesmo lugar, do meu lado.

No dia seguinte, telefonei para os donos de Zarco e Rebeca, pai e mãe do Alfrey. Podiam descontar o cheque.

– Vamos te dar o registro dele. – me disse o homem que encontrei no bar acompanhado do Zarco.

Sim, tinha pedigree. Pouco me importou isso, mas tinha.

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Liguei tão pouco para o pedigree que só agora reparei que preencheram o documento com erros. Colocaram como pai o nome do dono do pai do Alfrey, o humano!!!… . No mundo oficial canino, o nome completo ficou Afrey do Velho Oeste. No nosso mundo – meu e dele – era Alfrey Esteves Alves, ou Alfrinho enquanto filhote e nos inúmeros momentos de mimos ao longo da nossa convivência. Também está escrito no registro Dog Alemão como raça, não Dinamarquês como me informou o dono do Zarco. É a mesma raça com dois nomes e outra informação irrelevante para mim. Podia estar escrito Poodle que dava no mesmo.

Antes de completar as vacinas básicas, nada de rua, mas assim que essa questão foi resolvida, era um prazer exibir o meu gostoso na área externa da portaria do prédio. Aí estão Alfrinho com um amiguinho doberman também filhote.

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Hoje eu não faria mesmo ( menos porque seja proibido por lei e mais por consciência do certo ), mas, na época, era aconselhável cortar as orelhas, não só pela estética, mas por causa da criação de fungos nos ouvidos. Enfim, caí nessa armadilha. Quem mais sofreu obviamente foi Alfrinho, embora o procedimento tenha sido feito com o melhor especialista entre os veterinários, numa excelente clínica e com anestesia. Mas eu sofri muito também. E ele precisou usar essa alegoria para manter as orelhas em pé.

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Não parecia doer e em nada mudou o comportamento alegre e doce dele. Os gatos mais que o aceitaram, formaram um trio unido e adorável. Eis fotos do aniversário de um deles. A memória, não confiável, me diz que era do Nando. O Xandi era o único sem data de nascimento certa. Emprestei o carro a uma amiga – coisa raríssima – e ela me devolveu o veículo com um filhote de gato bastante machucado. Eu deveria ficar com o bichinho. Fiquei. Alfrey era libriano, como eu. Nasceu no dia 1° de outubro de 1988.

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Cada qual com o prato preferido

E Alfrinho cresceu, ficou do tamanho do pai que me pareceu um potro na primeira vez que nos vimos no Lebon. Quem consegue segurar um Dog Alemão que sai em disparada ao avistar algo que lhe interessa?

 

 

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