MALDITA POLTRONA!!!… capítulo final

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Capítulo final ( ou último capítulo )

Carlota não conseguiu tirar a faixa do vestido para se enforcar. Era dessas faixas costuradas num ponto das costas. E o tempo passou, passou o tempo, e Carlota passou também. Passou desta para melhor, tomara, pobre senhora. Que estranha maneira de sair deste mundo. Teve fome e a comida estava tão perto; teve sede e havia água fresquinha no filtro da cozinha. A diarista não veio na semana seguinte, nem nunca mais apareceria, porque foi vítima de uma bala perdida na comunidade pacificada. O porteiro do prédio, que até começou a sentir falta da velha no terceiro dia do sumiço, recebeu uma mensagem pelo whatsApp de uma irmã no Norte, apavorou-se e partiu sem nenhuma satisfação. O telefone tocou muitas vezes, tanto o fixo quanto o celular. Tocou e tocou e tocou, quebrou o silêncio mórbido do apartamento à exaustão. Provavelmente, os que se deram ao trabalho de teclar os números, do fixo e do celular, eram os insistentes de todos os dias: ofertas de crédito consignado especialíssimo para aposentados, adesão a novos planos de telefonia com muito mais vantagens, diferentes obras sociais a pedir contribuição, a mulher que volta e meia cismava que era o telefone do Arnaldo e se encrespava quando Carlota dizia que não havia nenhum Arnaldo…nem João, nem Walter, nem Carlos, nem o “Diabo que a parta!” porque uma vez ficou muito braba. Até que os telefones pararam de tocar, o celular ficou sem bateria e o fixo foi cortado por falta de pagamento. Uma prima, para lá de distante, também telefonou a ver se Carlota se incomodava de receber a filha por alguns dias de modo que a garota tivesse onde ficar enquanto fazia as provas do ENEM. Bem que achou estranho a prima distante não atender nas várias horas do dia, da noite e até da madrugada, mas, pela idade, lá pelos 90 anos, ao certo não sabia, vai ver que a prima Carlota já havia morrido, pois assim é a vida e segue-se em frente. O fim desta história bem podia ter sido assim. Quantas pessoas morrem, simplesmente sozinhas e esquecidas pelo mundo? Não necessariamente por terem ficado ridicularmente presas numa poltrona, mas quem sabe presas a uma engrenagem de vida que de repente emperra e para. Morrer, Carlota bem podia, mas ficar esquecida até tornar-se uma caveira – isso exige uns quatro ou cinco anos – não. No terceiro mês de débito com o condomínio, o novo porteiro viria bater à porta com um aviso do síndico. Depois, o próprio síndico criaria calo no dedo de tanto tocar a campainha para cobrar a dívida. Em quatro ou cinco anos, o Estado arrombaria a porta do apartamento por dívida com o IPTU, falta no recadastramento para receber a aposentadoria e tantas outras cobranças que o Leviatã do século XXI está pronto a fazer. Carlota pode ter morrido presa na poltrona, mas a imagem dela como uma caveira não cabe. Na semana que vem, vamos saber o que aconteceu, de fato e de direito.

Um comentário em “MALDITA POLTRONA!!!… capítulo final

  • dezembro 28, 2015 em 1:18 pm
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    esta história parece não ter fim, nem comercial.
    mas estou louco para saber o final, e espero um final feliz, sem caveira…
    agora esta tua tirada de iptu, condominio, enem, síndico, porteiro, prima distante, é a pura realidade….
    gostaria de ajudar a carlota…a se livrar dessa….
    mas a fernandinha vai me ajudar….
    por favor um final feliz, já lemos e vemos muitas desgraças diuturnamente….e noturnamente, (by dilma….)

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