história de Nuno – capítulo V

Capítulo V

Nas despedidas na aldeia, minha prima enfiou a cabeça dentro do carro e riu.

– Ó Nuno, tens o rabo virado pra lua!… Vais morar no Brasil!… No Rio de Janeiro!…

A viagem de carro para Lisboa foi debaixo de um temporal. Parei na cidade de Fátima a ver se aceitavam ficar com a urna das cinzas de papai. As cinzas coloquei num local em segredo com a prima ou vão dizer que o fantasma do meu pai está a aparecer lá na aldeia. Não aceitassem ficar com a urna nas dependências da basílica, eu voltava com a urna para o Brasil. O gato e a urna das cinzas. Em Fátima chovia muito. Nuno viajou na caixa com um “salva colchão”. Eu queria algo macio para forrar a caixa e encontrei num mercado o “salva colchão”, próprio para forrar colchões de crianças que fazem xixi na cama e de idosos com incontinência urinária. Nuno viajou dentro da caixa, amarrada pelo cinto de segurança, no banco de trás do carro. Em Fátima, debaixo de muita chuva, abri a porta de trás e montei o banheiro. Bandeja e areia. Abri a portinha da caixa e pedi para o Nuno sair. Minha cabeça dentro do carro e as costas encharcadas pegando chuva. Deixei Nuno à vontade para usar a bandeja dentro do carro e fui com a urna das cinzas para a basílica. Assinei um papel e a urna ficou como uma doação. Voltei para o carro aliviada por ter deixado a urna num local apropriado. Abri a porta e vi que Nuno havia entendido a mensagem e também se aliviou. Catei a areia molhada de xixi e caquinha, coloquei num saco plástico, chapinhei no aguaceiro até uma lata de lixo e lá joguei. De volta ao carro, empurrei gentilmente o Nuno de volta à caixa e segui para Lisboa.

Sempre viajo com um saco grande de pano grosso dobrado na mala. Nunca se sabe a quantidade de bagagem na volta. Sabe-se sim, é sempre muito maior que na ida, especialmente com as tentações das compras em Lisboa. Desta vez, o saco serviria para colocar a caixa com o Nuno e entrar no hotel sem dar na vista. Faz-se assim: primeiro o check-in. Pega-se a chave do quarto, volta-se ao carro e pega-se o saco com o gato. Do elevador rapidamente para o quarto. Seriam dois dias em Lisboa. Dois dias com o aviso de “Não incomodar” pendurado na maçaneta da porta do quarto pelo lado de fora. A funcionária da limpeza ainda tentou, mas aleguei que estava com a bagagem espalhada e não valia a pena arrumar o quarto por dois dias. As toalhas também não era preciso trocar. É claro que Nuno miou.

– Êi… caladinho. Se nos pegam aqui vamos dormir ali na praça. Os dois com passaporte da União Europeia dormindo na praça. Tem graça.

Nuno já tinha a mania de subir na pia do banheiro para beber água direto da torneira. Fazia isso lá na casa de Portugal, continuou a fazer isso aqui em casa até eu acabar com a brincadeira por causa do desperdício de água. Até por isso tenho certeza que tinha dono ou dona, embora gatos não tenham donos ou donas, como os cachorros, mas essa é outra história. Pois Nuno descobriu a pia do banheiro no hotel e para lá foi beber a aguinha fresca. Coloquei a bandeja com a areia no banheiro e mostrei para ele. O bichano fez o reconhecimento do quarto e se acomodou numa das duas camas de solteiro. Deitei ao lado dele para um chamego. Eram muitas novidades para o bichinho. Nuno passou para a outra cama. Magoei. Achei esquisito porque, até então, ele fazia questão de dormir agarrado a mim. Mudei-me também para a outra cama e Nuno voltou para a anterior. Estava claro que não queria companhia. Pensei que eram muitas mudanças em pouco tempo. Eu precisava dar tempo para o gato entender a situação que eu mesma estava achando bem maluca.

Nuno tinha o pote de ração no quarto, mas eu precisava sair para comprar comida. À noite, as funcionárias do hotel não entravam nos quartos. Era sair num pé e voltar no outro. Ao lado do hotel tem um bom restaurante. Pedi um sanduiche e um refrigerante e fui comer no quarto na companhia do Nuno.

No dia seguinte, o mesmo malabarismo para driblar a funcionária da limpeza. A mesma rapidez para buscar comida e voltar. Mais um miadinho e outro, mas nada que chamasse a atenção.

– E aí, meu menino? Acho que não era o que você queria de mim, né? Mas é o que eu posso fazer por você. – deitei-me na cama ao lado dele.

Nuno mudou de cama novamente. Magoei de novo. Caramba, o gato estava mudado. Vai ver que só queria ficar comigo na casa da aldeia. E ainda tínhamos a viagem de avião para o Rio de Janeiro, no Brasil. Dez horas de voo.

– Você vai trazer um gato? – a agente de viagens ficou surpresa com a novidade no telefonema. – Vocês sempre me surpreendem.

 

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