A história de Nuno – capítulo VIII

Capítulo VIII

O dia da viagem à Portugal se aproximava…. Nuno e Ronnie às turras! De boas intenções o inferno está cheio, bem dizem, e eu, na boa intenção, fiz dois gatos infelizes. Raios!

– Nuno, aqui em casa você está protegido, tem comida, mimo… Eu sei que você quer é estar lá fora, na confusão com os outros gatos, né? Não pode ser. Prometo cuidar de você, mas, na rua, solto, não dá. – sou eu, a consolar o Nuno quando o pego na janela de olhar comprido.

Não pode ser, porque são dez quilos de um gato amoroso, um gato que comemora a chegada de qualquer pessoa estranha com miados e esfregas nas pernas; um gato que se mete tranquilamente na cama dos vizinhos. Tudo exatamente igual ao que fez comigo em Portugal quando nos conhecemos. Quando ele me seduziu. E eu que tanto falei com São Francisco:

– Chico, Chico… quando minha missão com o Roninho terminar não pego mais bichos. O Ronnie é o último da série nesta encarnação.

Porque prende sim. Só viajo se tem alguém em quem confio para cuidar deles. Não é qualquer pessoa. Jamais os deixaria em hotéis para animais ou algo parecido. Como eles entenderiam isso? Uma época, viviam comigo ( ou eu vivia com eles ) um dog alemão com 73 quilos de doçura e dois gatos. Viajamos todos, de carro, para um hotel fazenda em Visconde de Mauá, no sul do Rio de Janeiro, quase limite com o estado de Minas Gerais. Foi uma grande e deliciosa confusão, mas não repetiria a aventura, por eles e por mim. Por isso, antes de adotar o Nuno, decidi parar com os bichos por gostar demais deles. Mas adotei o Nuno e aqui estamos os três convivendo da melhor maneira possível, mas a melhor maneira possível está ruim para os três. Há momentos em que o bicho pega. Não chegam a se atracar, mas fazem um escândalo… Saio gritando:

– Vamos parar!!!… Amiguinhos… Meninos!!!…

O Ronnie grita porque o Nuno anda atrás dele. O Nuno se esconde à espera do Ronnie. Quando o velhinho passa, Nuno se joga em cima. É o susto e os dez quilos nas costas do pequeno e magro Ronnie. Eu também gritaria. Dia desses, eu estava comparando a situação dos gatos comigo e a diarista. Ela tem três vezes o meu tamanho, para cima e para os lados. Imagina se ela resolve se esconder para me assustar e pular em cima de mim? Me quebra toda!…

Nuno é um gato jovem, tenho certeza. Quer aventuras. Como pode um bicho com tanta energia se conformar em passar dias e noites esparramado dentro de casa? Nuno devia morar em uma casa em que podia entrar e sair à vontade. Percebo porque se acomoda bem nas camas e tem hábitos que só pode ter adquirido com alguém especial. Ele ADORA sandálias e sapatos em geral.

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Nuno gosta que lhe façam carinho com o pé. É eu pendurar o pé para fora da cama que ele já vem esfregando a cabeça.

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Gosta de dormir nas pias dos banheiros. Até entendo que deve ser mais fresco quando está calor, mas, e quando está frio? E quando a pia é pequena para tanto gato, desconfortável?

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Nuno é um gato carinhoso, bonzinho, bom caráter. O máximo que faz é bufar quando o pego pela barriga nas vezes em que o cato nas ruas do condomínio. Mas não morde, nem arranha. Se quero cortar-lhe as unhas, deixa sem a mínima reação. Ronnie já não gosta; deixa cortar, mas mostra-se contrariado. Também nunca chegou a morder nem a arranhar. Fora os gritos , quando se sente acuado pelo Nuno, Ronnie não mudou, continua dormindo agarrado a mim. De certa forma, Ronnie deixa claro que “idade é posto”. Vai aonde vou. Saio para o jardim, ele também sai, come capim, pega sol, com os olhinhos serrados … Entro em casa, Ronnie entra também. Às vezes convenço Nuno a entrar abanando um saquinho de petiscos para gatos. Nuno não dispensa comida, 24 horas por dia, e isso bem se vê pelo tanto que está gordo. Mas nem sempre o convenço a entrar ao abanar o saquinho de petiscos, às vezes tem que ser agarrando o bicho em volta da pança. Ele bufa e pronto; parece que entende que é tudo o que pode fazer para protestar. Dou os petiscos na mesma, ele come.

Na altura da viagem a Portugal eram dois anos com Nuno. Gosto dele, muito. Ele sabe se fazer gostoso e amado. O que estraga são os gritos do Ronnie, especialmente quando a insônia crônica me dá um tempo a dormir e eles fazem o escândalo. Também detesto as fugas pelos telhados. Nuno gosta de pessoas. Aí está o perigo. Mas leva-lo de volta? Para quem cuidar dele? Vão deixa-lo na rua para ser atropelado pelos carros e motos da aldeia? Que sossego eu teria de tão longe a pensar nele? Para mais, lembram que disse, ao chegar com ele no aeroporto do Rio de Janeiro, que ele vinha para ficar em definitivo? Pois é, a burocracia para leva-lo de volta a Portugal é imensa. Bem, juntou tudo … e Nuno aqui está. E não é surpresa, porque tenho postado fotos dele junto a mim. Agora mesmo está aqui no quarto.

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Ronnie está lá embaixo. Há algum tempo parece que alternam a companhia a mim. Fui à Portugal e Nuno ficou, com o Ronnie e uma senhora a cuidar deles.

– Olhe que já havia arranjado quem ficasse com ele. – me diz a prima. – Está a ver aquele menino? Pois já estava todo contente por ganhar um gato.

Pois ficou sem o gato. Seria levar o Nuno de volta para a aldeia e fazer todo o percurso de volta. Sei onde mora o menino e Nuno ficaria inevitavelmente perambulando pela aldeia, sujeito aos carros e motos da rua. Assim, cá estamos os três. Por vezes em paz, como neste momento em que escrevo, por muitas vezes em momentos de confusão. É a vida, não é? E não é possível sair devolvendo o que nos incomoda vez em quando. Fico com os momentos de paz. Volta e meia, pego Nuno me olhando. Aquele olhar fixo dos bichos.

Os olhos não piscam. Alguém me chamou a atenção numa analogia ao que seria o olhar de Deus. É um olhar ao mesmo tempo doce, sereno e penetrante. Há momentos em que sinto como se eles estivessem vendo a minha alma.

  • O que foi? O que vocês estão pensando? Ou vendo?

Estou com passagem marcada para Portugal mais uma vez. Não, nada a ver com o Nuno. A promoção da companhia aérea foi irresistível e comprei a passagem. Não gosto de fazer planos para além de 24 horas. E já é muito tempo. Fora a mortalidade que é liquida e certa, em uma fração de segundo a vida pode mudar radicalmente, inclusive para muito melhor. Desde que comprei a passagem sofro por pensar em deixar Ronnie e Nuno por algum tempo. Nuno é possível que, tendo comida farta dia e noite, nem perceba que não estou. Mas posso estar enganada. Os gatos são muito reservados em suas paixões. Mas Ronnie sente falta mesmo. São quase dezesseis anos juntos. Portanto, a passagem está comprada, mas não sei se vou. Essencialmente pelos gatos, mas também porque sei lá o que pode acontecer até a hora do embarque.

Na próxima semana, o último capítulo da história de Nuno, o gato português que mora comigo no Brasil e assim pretendo que continue por muito tempo.

 

 

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