A TIA DA FOLIA

Minha avó no banco do carona, tia Teresa - a dona do guarda-chuva, atrás de minha avó e tia Maria mais na frente. Numa Puma que eu tinha.
Minha avó no banco do carona, tia Teresa – a dona do guarda-chuva – atrás da minha avó, e tia Maria atrás do banco do motorista. Minha avó tinha medo porque o carro era muito baixo, mas as tias iam alegres, acenando para todos nas ruas. Eu me divertia.

Eu tinha uma tia, esposa de um dos irmãos de minha avó por parte de mãe, chamada Maria. Como era doce chamar a tia Maria. Ela era mais integrada à família que meu próprio tio, sangue do nosso sangue, não porque ele não se chegasse, mas porque ela é que era muito chegada. Enchia-me de mimos. Ah, quantos mimos… Minha mãe trabalhava fora e eu estava sempre aos cuidados dela. Lembro-me ainda muito menina, criança, de dormirmos num dos quartos da casa de vovó em Areal, na região serrana do Rio de Janeiro. Tia Maria largava o marido em casa, sozinho, e viajava conosco. Não bem conosco, mais bem comigo. Quantas vezes a acordei de madrugada para ver o trem.

– Tia Maria, o tem!!! O tem!!!…

A pobre acordava e, zonza, tateava a parede à procura do interruptor para acender a luz. E eu aflita.

– O tem!… O tem!…

Era preciso encontrar o interruptor da luz para enxergarmos o quarto e a porta para sair na corrida. Lá íamos as duas para o imenso jardim. Do outro lado do rio Piabanha, passava o trem que ia para a cidade de Juiz de Fora. Eu escutava os apitos porque antes de aparecer do outro lado do rio, o trem fazia uma curva nos trilhos. Tenho para mim que por isso apitava de madrugada. Ou quem sabe seria o maquinista a enviar beijos à namorada?… Vai saber.

– É de cága!… – eu constatava pelas poucas luzes nos vagões.

– É de passazeiro!… – porque tinha muitas luzes.

O trem sumia na outra curva mais adiante e voltávamos para a cama.

Tia Maria fazia batata frita como ninguém. Cortava as batatas em quadradinhos pequenos e fritava numa panela. Como era gostosa a batata frita feita pela tia Maria. Não raro, deixava-me tomar banho de banheira. Mamãe achava um desperdício de água e de tempo, mas tia Maria deixava a banheira encher até à borda. E eu lá ficava chapinhando até a água ficar fria. É claro que molhava o banheiro, mas tia Maria enxugava tudo antes de minha mãe chegar e a aventura ficava entre nós.

São muitas as histórias com minha querida e saudosa tia Maria. Mas, um dia, depois de mais um dos constantes almoços na casa de vovó, ela pediu desculpas porque precisava sair.

– Estou para devolver este guarda-chuva à Teresa e vou lá hoje. – ela disse decidida. – Depois volto.

O “depois volto” era porque os almoços se estendiam pela tarde e iam dar no jantar à noite. À noite realmente ela voltou, com o guarda-chuva na mão. Exausta.

– Então não saíste para devolver o guarda-chuva à Teresa? – vovó quis explicações.

Tia Maria tinha, de fato e de direito, saído com a mais pura e firme intenção de devolver o guarda-chuva, mas… assim que ganhou a rua, passou um bloco de carnaval. E ela nem quis saber para que lado o bloco ia. Foi no bloco. Mãos para cima na folia e o guarda-chuva a servir de adereço. Até que se cansou. Sentou à beira do meio-fio para recuperar o fôlego. Onde estava? No centro da cidade. Calculemos uns três quilômetros de distância da casa da vovó. Era noite. Pegou o ônibus e voltou para o jantar, com o guarda-chuva.

Tia Maria era da folia. Adorava uma cervejinha, mas nunca, jamais, em tempo algum, a vi bêbada ou de alguma forma alterada. Ela era por natureza uma pessoa alegre e festiva. Era baixinha, gordinha… Quando criei um pouco de mamas, passei a chama-la carinhosamente de “meu bujãozinho”.

Tia Maria estava em todas as farras. Era dizer “ vamos “ que ela já estava no carro. Outra vez, anos depois das inesquecíveis noites do trem, estávamos na casa da vovó no Recreio dos Bandeirantes, na zona Oeste do Rio. Lá pelas tantas, depois do almoço, apareceu uma cobra na varanda. Cada um de nós correu para onde foi possível. Papai acordou do cochilo com os gritos da mulherada e matou a cobra. Situação controlada, suspiros de alívio. E cadê a tia Maria?

– Estou aqui!… – ela gritou do terraço da casa.

Tia Maria estava com um problema num dos joelhos que mal conseguia andar. Pois subiu as escadas para o terraço com a agilidade de uma atleta. Descer é que foi o problema.

– Alguém tem que me ajudar a descer que não posso com este joelho…

Eu gostaria muito de me convencer que “O importante é que emoções eu vivi. “, mas “ A saudade mata a gente, morena…”

4 comentários em “A TIA DA FOLIA

  • Fevereiro 8, 2016 em 1:49 pm
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    Gostaria de ter tido uma Tia Maria, como a que a autora teve sorte de ter…

  • Fevereiro 8, 2016 em 6:20 pm
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    MUITO BOM “OUVIR” SUAS HISTÓRIAS, VC ESCREVE DE MANEIRA COMO MEU PAI SE EXPRESSAVA ( ERA PORTUGUÊS NATURALIZADO ) E ME LEVA A UM TEMPO BOM DA MINHA INFÂNCIA TAMBÉM.

  • Fevereiro 12, 2016 em 3:07 am
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    Fico feliz por “ouvir” as histórias. É exatamente essa a ideia. Muito obrigada pela atenção. Grande abraço.

  • Fevereiro 12, 2016 em 3:09 am
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    Era mesmo muito bom… Beijos

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