A luta com a trepadeira

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Perdi a paciência com a hedera helix, vulgarmente conhecida como hera, uma trepadeira que quebra um galhão para revestir muros que não estamos com vontade de viver pintando. Fica bonito, mas tem caprichar na manutenção ou se torna uma praga. Bobeei, a hera se espalhou, subiu o telhado da garagem e empacou o portão eletrônico. Temporal, controle remoto no carro para o portão abrir e o carro entrar sem eu me molhar, mas a hera não permitia mais a utilidade de uma tecnologia simples. Eu saía do carro para ajudar o portão na luta contra a hera. Uma tarde, me irritei. Subi na escada desconfiada que podia arrumar um jeito de cair e me quebrar, lancei mão da tesoura de poda e parti para a guerra. A planta estava disposta a me dar trabalho com os tentáculos bem agarrados à estrutura de madeira que sustenta as telhas e mantem o carro coberto na garagem. Decidida, usei da força para arrancar a planta. Foi muito tempo em cima da escada, entre cai e não cai, fazendo força para livrar o portão e o telhado da garagem das garras da trepadeira. Por fim, venci. Mais ou menos , porque o portão voltou a correr livre no trilho, mas minha coluna cobrou caro a briga. Acionei o controle remoto, o portão abriu e saí de carro para uma clínica ortopédica. Embora eu tenha pedido à recepcionista piedade, porque a dor era cruel, esperei quase duas horas para ser atendida. Em pé, doía muito, sentada doía demais. Inspirar e expirar, melhor não. Até que ouvi um homem gritar meu nome. Arrastei-me até o fundo da clínica e dei com um médico sorridente a fazer um gesto para eu entrar no consultório.

  • Tudo bem ? – o doutor perguntou.

Não estivesse sem forças de tanto controlar os gritos com as fisgadas nas costas, teria respondido:

  • Doutor, se estivesse tudo bem eu não estaria numa clínica ortopédica. A praia é logo ali. Estaria tomando uma água de coco diante do mar.

Mas, como estava cansada da dor, resumi:

  • Se estivesse tudo bem, não estava aqui.

Contei a minha história épica na luta contra a trepadeira. Entre mortos e feridos, parte da trepadeira morreu e eu estava com a coluna num estado lastimável.

  • A senhora fuma?
  • Como? Doutor, em seguida vem o diagnóstico de virose?

Hoje em dia, se a criatura está doente e não fuma, é virose.

  • A senhora teve um grande aborrecimento?
  • Doutor, eu moro no Brasil? O senhor acha que dá para não se aborrecer?… Tem alguma coisa que o senhor possa fazer para aliviar esta dor do inferno?  – perguntei reta e em frente.
  • Vou pedir uns exames. Uma ressonância magnética de toda a coluna. A senhora tem  claustrofobia?
  • – Doutor, eu já fiz ressonâncias, sei como é. Não tenho claustrofobia.  E esta dor miserável?

Ele me receitou um remédio muito próximo da morfina que tomei quando a pedra produzida por um dos meus rins ficou empacada no ureter. Dizem que não há dor maior. Não sei. Só sei que desejo sim, aos meus inimigos ( se os tenho ), a dor de uma pedra no ureter que não decide se sai ou se volta ao rim. Um remédio com efeitos colaterais graves.

  • Podemos tentar algo menos drástico, doutor? Buscopan composto, paracetamol?

Ele concordou com o paracetamol.

  • De oito em oito horas? – perguntei. – Por causa do estrago no fígado?
  • De oito em oito horas. – ele concordou.
  • E uma bolsa de água quente?
  • Faz bem, alivia a dor.
  • – Posso nadar?
  • – Por enquanto não.
  • Está certo. Então já vou. Volto com o resultado dos exames.

Fiz a ressonância. Não tenho claustrofobia, mas confesso que me custa ficar na máquina tentada a abrir os olhos. Caso abra os olhos, interrompo o exame porque me causa aflição estar dentro de um tubo. Respira, não respira, não se mexe… Obedeci a todas as ordens direitinho para me livrar daquele túmulo de alta tecnologia o mais rapidamente possível. Caramba, demorou quase uma hora!… Quando finalmente terminou, eu tinha certeza que estava com um problema gravíssimo.

  • É que a doutora viu uns pontinhos brancos e quis confirmar se eram apenas calcificações. Tem uma pequena hérnia aparecendo entre a quarta e a quinta vértebras.
  • Isso é muito ruim ou só ruim? – quis saber.
  • É natural para a idade.

Pois é, depois dos quarenta começou esse complemento no diagnóstico: Natural para a idade.

  •  Não por isso. Tenho a escoliose desde os trinta. Comparando com pessoas mais velhas e mais novas, como está a minha coluna?
  • Ah, tem senhorinhas de noventa anos com a coluna quase perfeita. E jovens de vinte com a coluna toda toda estragada.
  •  Tá bom. – aceitei a resposta embora nada tenha sido respondido.

Voltei para casa preocupada com a hérnia. Consultei o doutor Google e não gostei nada. Tomei paracetamol de oito em oito horas, como eu havia sugerido ao doutor, coloquei a bolsa de água quente antes de dormir, como também sugeri ao doutor, e voltei rapidinho para a natação que tem o poder de me aliviar tidas as dores físicas; às vezes, até da alma. A dor horrorosa passou. Ficou um incomodo ao me deitar, mas isso deve ser “natural para a idade”. Estou pensando se volto ou não ao ortopedista. Mostrei os exames a um médico em quem confio.

  • Esquece isso. – ele disse. – Continua nadando.

Gosto desse médico porque é zen. Tudo ele diz ” esquece”.

  • Uma tal de ferritina apareceu alta no exame de sangue. – lembrei. – Consultei o doutor Google e não gostei.
  • Nem está tão alta. Esquece isso. Toca a vida.

Pois si. A vida é que me toca.

Penso que os médicos estão precisando com urgência de um curso de humanização. Tenho certeza que muitas casos podem ser resolvidos com uma boa conversa. Acontece muito no interior onde o posto de saúde mais próximo fica em Deus me livre e não tem um comprimido para dor de cabeça. Em vez de perguntar se está tudo bem, que tal ” Em que posso lhe ajudar?”. Prestar atenção no paciente, acalma-lo. Muitas vezes basta uma conversa.

Um comentário em “A luta com a trepadeira

  • Janeiro 24, 2016 em 6:59 pm
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    A luta contra a trepadeira, que delicia de ler!

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