A fuga do Nuno foi a gota d´água

A Fuga do Nuno foi a gota d ´água

O avião decolou há duas horas. Ao menos era o horário impresso no cartão de embarque. Não sei se decolou no horário, ou se atrasou, ou se o voo foi cancelado. Não sei, porque não cheguei ao aeroporto. Sim, eu deveria estar no aeroporto duas horas antes, como exigem os procedimentos de embarque, mas não estava e não estou. Ao contrário da imensa luta que travei nas últimas semanas, especialmente nos últimos dias, para estar neste momento num avião rumo à Europa, estou de volta ao meu canto da cama kingsize, no meu quarto. É exatamente onde passo a maior parte das horas, dos dias, dos meses, nos últimos três anos. Não, não tenho nenhuma doença física, ao menos não que me obrigue a fazer deste canto da cama a mais costumeira morada. Doença mental, provavelmente. Doença mental… não sei bem. Doença mental, espiritual, ambas… Talvez minha alma esteja quebrada devido à queda na realidade. Estabaquei-me. Eu, que sempre me achei suficientemente racional, tenho descoberto que dei muitas pedaladas na bicicleta da ilusão. Tinha tantas certezas quanto as dúvidas que tenho agora. Não, tenho mais dúvidas agora que as tantas certezas que tinha. A idade? Não acho que a idade tenha a ver com a metamorfose a que venho sendo submetida. Nada parecido com a metamorfose com o final feliz em que a lagarta vira uma linda borboleta que voa para deleite dos que a apreciam. Uma metamorfose hard, se bem que não tenho como saber se para se tornar uma bela borboleta a lagarta sente dores terríveis. Vai ver, sente. Quem sabe? Não, não é a idade, são os acontecimentos, ou a falta deles.

Um dos gatos, o Nuno, fugiu e eu não estou no avião que deve estar a caminho da Europa. Imagino que a esta hora, tendo saído no horário, as comissárias de bordo estejam em polvorosa servindo as centenas de jantares. Ora, jantares, qualquer coisa que lembre isso. Há muito o serviço de bordo não passa de uma distribuição estabanada de bandejas com algo de difícil degustação criado pelo ainda chamado serviço de catering. Na Primeira Classe e na Executiva ainda há algumas tentativas frustradas de requinte. Os guardanapos são de pano, os pratos sugeridos no cardápio ( há sempre pato, não sei porque ) são assinados por algum chef desconhecido. Tentativas de fingir que, por terem pago tarifas bem mais caras, os passageiros além-Econômica são melhor servidos na cela coletiva que voa. Nem mesmo as poltronas valem mais o que cobram. São mais largas que os instrumentos de tortura onde se apertam e se contorcem as pessoas na classe Econômica, mas nem por isso primam pelo conforto. Então, eu deveria estar na classe Executiva, torcendo o nariz para o jantar, constatando que as poltronas são mesmo duras e recusando as bebidas alcóolicas limitadas porque logo-logo precisaria de, pelo menos, um quarto de um comprimido calmante para combater o horror que tenho a aviões no ar comigo dentro. Estaria na classe Executiva porque me é impossível passar dez horas na tortura da classe Econômica. Nada nem próximo de me tornar uma Very Important Person. Simplesmente compro a passagem na Executiva porque ainda acho que o ônus vale o bônus e minha coluna me xinga menos. Se não tenho grana ao menos para a Executiva, não viajo, é simples. Mas aconteceu que o Nuno fugiu de casa bem na hora em que eu esperava o táxi que me levaria ao aeroporto.

Pedi a uma senhora a gentileza de cuidar dos dois gatos ( Nuno e Ronnie ) e da casa por alguns dias a ver se eu conseguia colocar outros pensamentos na minha cabeça atordoada. Avisei que era preciso passar a chave na porta ou o gato abria e saía, sabe Deus para onde. Eis que desço a escada com a mala e avisto a porta da casa meio aberta. Uma fresta, mas…

– Êta, a porta está aberta…

– Só um pouquinho… Estou vigiando…

É, basta só um pouquinho, apesar do Nuno ser tamanho kingsize como a minha cama.

– Vamos ver se ele ainda está em casa…

Abanei o pacote de petiscos. Isso não falha. O Nuno não é gordo por nada, come dia e noite. Abanar o pacote de petiscos é como tocar os sinos da capela da aldeia a alertar os fiéis atrasados que a missa já começa. Nuno aparece de imediato. Não apareceu. Abanei, abanei e abanei o pacote de petiscos. Nada de gato. Com certeza não estava em casa. Há quanto tempo a porta estava meio aberta, “só um pouquinho” como avaliou a senhora? A que distância estaria o gato àquela altura?

Conheço quase todos os truques do Nuno para as fugas de casa. Há três ou quatro pontos do muro em que ele se agarra à hera, sobe e ganha a rua, com a natural agilidade dos gatos mesmo sendo muito gordo. As saídas para o quintal são vigiadas por mim, mas basta eu desviar os olhos para o passarinho que se aproxima e não deve, e o bicho foge. É ele subir no muro e eu já estou saindo pela porta do quintal para pegá-lo do outro lado. Agarro-o pelo peito e pela barriga. Ele rosna, bufa, reclama por demais a volta forçada para casa. Mas, hoje, não o vi pular. Em geral, Nuno prefere começar a caminhada livre na rua do lado esquerdo da casa. Não sei o que me deu, fui para a rua da direita. Cheguei a tempo de ver uma mulher o enxotando com uma vassoura.

– Nuno! – gritei.

O gato me viu e disparou na minha direção. Estranho, porque sempre faz justamente o contrário: eu grito “Nuno” e ele corre para mais longe. Tive a nítida sensação de que o gato ficou feliz em me ver, tanto que correu para mim com os dentes à mostra como se estivesse até sorrindo. Peguei-o pelo peito e pela barriga, uma técnica para evitar reações doloridas como arranhões e mordidas, e ele aceitou sem um rosnado ou um bufo. Levei-o de volta para casa. Ao me ver chegar com ele, a senhora ficou sem graça.

– Mas não é possível…

Sim, é possível. Assim como é possível eu estar de volta ao meu canto da cama enquanto o avião voa na direção da Europa. Pois é, não fui. A fuga do gato foi a gota d´água para eu decidir não viajar. Foram dias e noites a pensar nessa viagem. Vou, não vou, vou, não vou. Um inferno na minha cabeça. Comprei a passagem há meses para aproveitar uma promoção irresistível. Desde então, a única certeza era a passagem comprada, no mais, só dúvidas. Na dúvida, tracei um roteiro que faria de carro, sozinha. Um bom carro em estradas excelentes. Uma viagem livre e solta na minha complicada companhia. Não tinha dúvidas que levaria na bagagem a imensa tristeza que me acompanha sem trégua desde que papai e mamãe se foram e duas pessoas vivas fugiram de mim “quase” como faz o gato. É que o gato não foge de mim, ele foge de casa para curtir a liberdade de ser… um gato. Pode ser que lá pelas tantas o bichano volte para casa por conta própria, não sei, nunca paguei para ver; vou atrás. Então, estava combinado comigo mesma que, caso viajasse, levaria a minha imensa tristeza e solidão. Eu arcaria com esse custo como um desafio a ser vencido. Quem sabe, numa das paradas da “viagem livre e solta”, deixaria a tristeza e a solidão distraídas com alguma paisagem interessante e arrancaria com o carro poderoso sem olhar para trás, nem pelo retrovisor?… Havia essa esperança, mas também havia a desconfiança de eu não suportar uma viagem comigo e decidir voltar para casa assim que descesse do avião do outro lado do oceano Atlântico. Voar dez horas para voar outras dez horas de volta? Vinte horas de puro sofrimento dentro de um avião? Inadmissível. Então, era o “vou, não vou, vou, não vou”. Estava até disposta a fazer o check in no aeroporto e desistir de embarcar. Andar sozinha me dá certos direitos.

O gato fugiu e desisti. Mas era só botar o gato de volta em casa e entrar no táxi!… Não, não era. Protelei fazer a mala para a viagem. Quando não tinha mais jeito, até porque fazer a mala não significa viajar, cadê a mala? A mala sumiu!… Como é que uma mala some do maleiro? Não sei, mas sumiu. Também não tinha mais jeito, eu precisava abrir a pasta dos documentos de viagem. Cadê o passaporte brasileiro que revalidei no ano passado? Procurei em todos os cantos da casa, exaustivamente, apesar do passaporte não sair da pasta de viagem. Por que então o passaporte não estava lá? E não o encontrei em lugar algum?… Sinais… Mas a mala sumir não definia nada, tenho outras; o passaporte brasileiro sumir também não, tenho o português, válido. “Vou, não vou, vou, não vou”. E eis que o gato fugiu e não fui. E ainda bem que fugiu enquanto eu estava em casa. Posso imaginar o desespero da senhora a procurar o gato. É possível que me telefonasse para avisar o sumiço do bicho e eu à beira do balcão do check in. Talvez deixasse para avisar no dia seguinte se não encontrasse o gato e se o bichano não voltasse por conta própria. Seria o caso das dez horas de voo para ir e outras dez para voltar por causa do sumiço do gato. Não, não seria nada disso porque, antes de entrar no táxi para o aeroporto, eu daria um beijo no focinho de cada um com as recomendações:

– Comportem-se, não briguem, tomem conta da casa, não deixem bicho entrar…

Então, quando procurasse o Nuno para o beijinho de despedida, cadê? Não viajaria. Sim, por causa do sumiço do gato. O Ronnie tem quase 17 anos de idade, por demais humanizado no que os seres humanos têm de bom: companhia, carinho, atenção… O Nuno, apesar de fujão, é um malandro adorável que também sabe ser companheiro e carinhoso. São dois grandes companheiros e boas companhias numa altura da minha vida em que dois humanos amados partiram sem ter escolha e outros dois escolheram partir.

Nesta quarta-feira, vou acordar no meu quarto, na minha casa. Poderia estar em Lisboa. Por via das dúvidas, fiz uma oração especial pelos que embarcaram no avião em que eu também deveria estar. Que façam uma viagem segura e tranquila e cheguem todos bem onde não chegarei; ao menos não amanhã. Sinais…

Não me arrependo de ter ficado. Sinto até que tirei um baita peso dos ombros. Melhor foi me livrar do tormento de “Vou, não vou, vou, não vou”. Mas também não quero morrer nesta cama a escrever e ver televisão. Se posso decidir abortar uma viagem que, para muitos, seria dos sonhos, posso tomar outras decisões a meu favor. Seria sim um desafio, mas há desafios que vão se desenhando cruéis, autoflagelantes, e eu preciso me tratar bem. Talvez ter decidido ficar seja mais benéfico que ter ido. Vamos ver o que vou fazer com mais esse nonsense na minha biografia.

 

2 comentários em “A fuga do Nuno foi a gota d´água

  • maio 31, 2016 em 7:39 pm
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    A Fuga do Nuno. Texto impecável, revelador e corajoso. Você se desnuda diante de nos, e com isso, de forma despretensiosa nis ensina muito. Parabéns!

  • junho 1, 2016 em 9:40 pm
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    É verdade,nesse me desnudei um pouco mais. Penso que ou é assim ou não vale nada. É justamente isso: quem sabe ajuda quem lê. Obrigada mais uma vez pelo retorno carinhoso.

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